Thursday, December 31, 2009

Resumo do Ano - 2009

2009 foi extremamente proveitoso, não li todos os livros que planejava mas li obras não inclusas na lista!

Foram 54 posts (55 com esse!), li 25 livros, desisti de 2 leituras, assisti 43 filmes no cinema, 2 viagens e 4kg a mais (esse detalhe não precisa enfatizar!) e não posso esquecer que consegui entrar num bom Clube do Livro com reuniões uma vez por mês! Excelente indeed.

Não me arrependo e leria de novo!!! - Ficção: The Book Thief (A menina que roubava livros) e Water for Elephants (Água para Elefantes).

Não me arrependo e leria de novo!!! - Não-Ficção: The man who loved books too much (o homem que amava livros demais).

Preferia não ter lido?: Pride and Prejudice and Zombies (Orgulho e Preconceito e Zumbis).

Li mas não convenceu: By the light of my father's smile (Pela luz do sorriso de meu pai).

Decepção: Her Fearful Symmetry

Agradeço a visita de todos nesse ano de 2009 e espero compartilhar muitos outros posts com vocês em 2010. Tenham um excelente Ano Novo, com livros de montão, pensamentos positivos e muito amor!

Ju P. Haghverdian =)


Eis as 25 obras lidas e suas respectivas resenhas:

- Water for Elephants (Sara Gruen)

- Her fearful symmetry (Audrey Niffenegger)

- A Christmas Carol (Charles Dickens)

- The man who loved books too much (Allison H. Bartlett)

- The hunchback of Notre-Dame (Victor Hugo)

- Say you're one of them (Uwen Akpan)

- Pride and Prejudice and Zombies (Jane Austen e Seth Grahame-Smith)

- The Time Traveler's Wife (Audrey Niffenegger)

- By the Light of My Father's Smile (Alice Walker)

- The Great Gatsby (F. Scott Fitzgerald)

- My Sister's Keeper (Jodi Picoult)

- Lolita (Vladimir Nabokov)

- The Guernsey Literary and Potato Peel Pie Society (Mary Ann Shaffer and Annie Barrows)

- Madame Bovary (Gustave Flaubert)

- Memoirs of a gueisha (Arthur Golden)

- Sense and Sensibility (Jane Austen)

- A thousand splendid suns (Khaled Hosseini)

- The island (Victoria Hislop)

- No! I don't want to join a book club (Virginia Ironside)

- The book of laughter and forgetting (Milan Kundera)

- At first sight (Nicholas Sparks)

- A divina comedia - PARAISO (Dante Alighieri)

- A divina comedia - PURGATORIO (Dante Alighieri)

- A divina comedia - INFERNO (Dante Alighieri)

- Pride and Prejudice (Jane Austen)

- Eat, Pray, Love (Elizabeth Gilbert)

- The book thief (Markus Zusak)


Eis os filmes vistos no cinema:

- Seven Pounds

- Marley & Me

- Gran Torino

- Taken

- He is just not that into you

- Push

- Pink Panther

- The reader

- Wachmen

- Slumdog Millionaire

- Knowing

- Fast and Furious

- The soloist

- X-men origins: Wolverine

- Star Trek

- Terminator

- Up

- Pelham 123

- Hangover

- Ice Age 3

- Transformers 3

- Bruno

- The Proposal

- The ugly truth

- G. I. Joe: The Rise of Cobra

- District 9

- G-Force

- Under the sea

- Inglorious Basterds

- Gamer

- All about Steve

- 9

- The Time Traveler's Wife

- Surrogate

- Capitalism: A Love Story

- Couples Retreat

- Law Abiding Citizen

- Julie & Julia

- The man who stares at goats

- The blind side

- Old Dogs

- 2012

- Avatar

Saturday, December 26, 2009

Poema de Sábado

Even such is Time

Even such is Time, which takes in trust
É assim o tempo, que toma posse de
Our youth, and joys, and all we have;
Nossa juventude, e alegrias, e tudo que temos;
And pays us but with age and dust,
E nos paga com nada mais que idade e poeira,
Which, in the dark and silent grave,
Os quais, no escuro e no túmulo silencioso,
When we have wandered all our ways,
Após termos andado nossos caminhos,
Shuts up the story of our days:
Conclui a história de nossos dias:
And from which earth and grave and dust
E da terra, do túmulo e da poeira
The Lord shall raise me up, I trust.
o Senhor deverá me ressucitar, acredito.

(Sir Walter Raleigh - 1552/1618)

Friday, December 25, 2009

Feliz Natal!

À todos os queridos visitantes do A Ship made of books, os desejos de um Natal maravilhoso, cheio de alegria, crianças correndo, comidas gostosas e união!
Momentos felizes,

Memórias felizes...

Feliz Natal!

Monday, December 21, 2009

Avatar

Eis uma super dica de filme para ver no findi!




O filme é incrível, esperei tanto, tanto pra ver que pensei que fosse ficar decepcionada.

É, a história é meio batida (e tem outros detalhes que poderíamos desconsiderar)... NÓS, os humanos racionais após acabarmos com as reservas no nosso planeta, partimos para alienar o planeta Pandora,  infiltramo-nos no meio de um povo que achamos ser inferior, aprendemos o idioma e os costumes deles e ganhamos a sua confiança pra enfiar a faca em suas costas - tudo porque o minério embaixo de seu solo vale milhões por kilo. Previsível!

Mas a tecnologia empregada, as cenas de ação, e como a Isabela Boscov mencionou no seu blog/coluna na VEJA... as CORES são impressionantes, maravilhosas, fiquei totalmente encantada!
 
Atores e animação juntos sem cortes, sem efeito especial barato, valeu muito a pena os 5 anos gastos na preparação do filme e 14 anos no total, desde a concepção das idéias ao produto final, um marco na história dos filmes de animação.

Sunday, December 20, 2009

Poema de Sábado

Peço mil perdões pela falta de tempo! Nosso poema de sábado vem no domingo devido a toda essa correria de final de ano.

O poema escolhido de hoje é do livro The Collected Poems de Sylvia Plath, finalmente uma mulher!

Sylvia Plath, nasceu nos EUA em 1932 e faleceu em Londres. Apesar de ser conhecida primeiramente por seus poemas, também escreveu The Bell Jar, um romance auto-biográfico, e histórias para crianças. Seu primeiro poema foi publicado quando tinha apenas 8 anos, mesmo período em que perde o pai por complicações após a amputação de uma perna (devido ao diabetes).

Muda para Nova York para trabalhar na revista Mademoiselle, mas a decepção das expectativas frustradas a levam à primeira tentativa de suicídio. Casa com o poeta Ted Hughes, muda para a Londres ao descobrir que está grávida. O aborto espontâneo da primeira gravidez está presente em diversas linhas de seus poemas, bem como o divórcio após tantas traições do marido.

1963, enquanto as crianças dormem, Sylvia liga o gás do fogão e enfia a cabeça no forno, suicídio?!

Escolhi o poema Lament (Lamento) em que Sylvia desabafa a perda do pai. Como a maioria de seus poemas, Lament tem rimas simples, pois Plath tinha aversão aos versos estranhos, e a repetição de versos é característica presente em grande parte de suas poesias, bem como esse quê de melancolia.


Lament

The sting of bees took away my father
A picada de abelhas me levou meu pai
who walked in a swarming shroud of wings
que caminhou encoberto por um enxame de asas
and scorned the tick of the falling weather.
e desdenhou do barulho dos pingos da chuva.

Lightning licked in a yellow lather
Como raios lambidos em espuma amarela
but missed the mark with snaking fangs:
que errou pois o alvo com presas de cobra:
the sting of bees took away my father.
a picada de abelhas me levou meu pai.

Troucing the sea like a raging bather,
Enfrentando o mar como um banhista raivoso,
he rode the flood in a pride of prongs
ele dirigiu a enchente com tridentes
and scorned the tick of the falling weather.
e desdenhou do barulho dos pingos da chuva.



A scowl of sun struck down my mother,
Enfurecidos raios de sol marcaram minha mãe,
tolling her grave with golden gongs,
deteriorando seu sepulcro com gongos dourados,
but the sting of bees took away my father.
mas a picada de abelhas me levou meu pai.

He counted the guns of god a bother,
Considerou as armas de deus um enfado,
laughed at the ambush of angels' tongues,
riu das armadinhas das línguas dos anjos,
and scorned the tick of falling weather.
e desdenhou do barulho dos pingos da chuva.

O ransack the four winds and find another
Ah vasculha os quatro ventos e encontra outro
man who can mangle the grin of kings:
homem que possa desfigurar o sorriso dos reis:
the sting of bees took away my father
a picada de abelhas me levou meu pai
who scorned the tick of the falling weather.
que desdenhou do barulho dos pingos da chuva.

Tuesday, December 15, 2009

A Christmas Carol (Charles Dickens)

Visitei a Feira de Natal do Charles Dickens em San Francisco no último domingo. Não poderia ir a feira sem ter lido um dos contos de Natal escrito por ele, por isso (e porque esse foi um dos livros escolhidos pelo Clube do Livro do qual faço parte). A feira foi impressionante, muitos visitantes foram vestidos à caráter, com roupas de época e ainda tentando falar com sotaque britânico. Nunca vi tanta gente tão envolvida com a preparação de uma feira. Merece aplausos!

A Christmas Carol (Um cântico de Natal, em português) conta a história do Sr. Scrooge, um velhinho avarento, rancoroso, mal-humorado e que não tem interesse algum no Natal, Humbug é a expressão que marca dua falta de humor. Desdenha de todo o alvoroço feito pelas pessoas quando chega essa época e solta os cachorros em cima de seu empregado, Bob Cratchit, por usar o Natal como desculpa para ser pago sem trabalhar.

Enquanto todos celebram o Natal, Sr. Scrooge (após recusar o convite do único sobrinho, Fred para ceiar com a família) tem seu jantar sozinho e vai para cama.
"Feliz Natal! Que direito tu tens de ser feliz? Que razão tens para ser feliz? Tu és pobre." (pag. 4)
O que ele não espera era a visita do fantasma do seu parceiro de trabalho, Marley, morto há sete anos, na noite de Natal.


Marley veio para aconselhar Sr. Scrooge a mudar sua atitude, sem muitas explicações diz que o amigo receberá a visita de 3 fantasmas. A princípio Sr. Scrooge pensa ser um sonho, depois trata a situação com ironia e comicidade.

"É requerido de cada homem," diz o fantasma, "que o espírito que nele há perambule entre os homens, e viaje longe e vastamente; e se esse espírito assim não progride na vida, ele é condenado a fazer após sua morte (...) Condenado a perambular pelo mundo e testemunhar o que não pode compartilhar, mas que provavelmente compartilharia em vida e seria feliz!" (pag. 15-16)

O espírito de Marley viaja incessantemente por todos esses anos "um descanso sem paz, incessante tortura do remorso". Em vida seu espírito nunca foi além do estreito limite de seu trabalho com Contador "sem saber que nenhum arrependimento pode consertar o mal uso de uma oportunidade perdida". (pag. 17)

Primeiro Fantasma - Fantasma do Natal Passado:
Faz uma retrospectiva do passado do Sr. Scrooge, levando-o à sua infância, percebe-se que a família de Sr. Scrooge nunca deu muita importância ao Natal, se não fosse por sua irmã, a pequena Fan, Scrooge passaria muitos dos Natais sozinho na escola.

Segundo Fantasma - Fantasma do Presente:
O fantasma mostra a Scrooge o que as outras pessoas estão fazendo na noite de Natal, enquanto Scrooge prefere ficar sozinho em sua casa, seus conhecidos celebram o Natal. Sr. Scrooge vê a casa de seu empregado Bob, apesar de ser pobre, a família se reune e prepara um bela ceia com os recursos que têm, celebrando a união e a vida de pequeno Tim (filho mais novo de Bob que sofre de paralisia) - Bob ainda menciona o nome do patrão, com uma certa compaixão.
Sr. Scrooge também tem a oportunidade de ver o Natal na casa de seu único sobrinho (filho da pequena Fan)... estão todos reunidos felizes, unidos, o sobrinho lembra do tio e diz sentir por ele não estar lá celebrando com eles, a noite termina com um animado jogo - deixando Scrooge cheio de remorso e desejando estar lá.
A felicidade está presente em todos os lares visitados naquela noite.

Terceiro Fantasma -Fantasma do Futuro:
Sr. Scrooge treme ao ver o fantasma, é o único que não conversa com Scrooge, vem vestido de morte. Mostra a Sr. Scrooge o futuro que o espera, caso morra vândalos saquearão seu sepulcro, roubarão os bens que Sr. Scrooge passou tantos anos acumulando, poucos falarão de sua morte, comentarão como um fato corriqueiro, logo será substituído e esquecido, o pequeno Tim por falta de maiores recursos sucumbe à sua doença, sua morte deixa Bob totalmente desolado. Sr. Scrooge questiona o fantasma, quer saber se ainda há tempo para mudança, se aquele homem no sepulcro é ele mesmo, mas nada lhe é respondido.

Quando Scrooge acorda, parece que anos se passaram mas ele realiza que não foi nada mais que algumas horas. Seu coração transformado busca ação imediata. Scrooge é um outro homem e corre contra o tempo para celebrar o Natal e abençoar a ceia de muitos outros.


"Estou leve como uma pena, feliz como um anjo, tão feliz quanto um garotinho.Estou tão fútil quanto um bêbado. Um feliz Natal a todos! Um Feliz Ano Novo ao mundo inteiro! Ei aí! Olá! Hello!"

Saturday, December 12, 2009

Poema de Sábado



Poema no livro Best Poems of English Language por Harold Bloom.
Vamos voltar aos românticos do séc. XVIII, William Wordsworth (1770-1850) é inglês mas morou longos anos na França, e como muitos poetas românticos, teve uma vida de tragédias... perdeu os pais muito cedo, foi forçado a se afastar dos irmãos, na fase adulta amou por anos e anos uma única mulher, com quem casou muitíssimo tarde. Seu irmão John morreu afogado na mesma época que perdeu prematuramente seus 2 únicos filhos. Seus poemas refletem os sentimentos dessa vida, sua admiração pela natureza e seu amor pela terra natal.


I travelled among unknown men

I travelled among unknown men,
Viajei por entre homens desconhecidos,
In lands beyond the sea;
Em terras além do mar;
Nor, England! did I know till then,
Não, Inglaterra! não sabia até então
What love I bore to thee.
Quanto amor tinha por ti.

'Tis past, that melancholy dream!
É passado, aquele sonho melancólico!
Nor will I quit thy shore
Tampouco partirei eu das tuas margens
A second time; for still I seem
Uma segunda vez; porque ainda pareço
To love thee more and more.
Amar-te mais e mais.

Among thy mountains did I feel
Entre tuas montanhas senti
The joy of my desire;
A alegria do meu desejo;
And she I cherished turned her wheel
E aquela que agradei virou sua direção
Beside and English fire.
Em direção ao fogo inglês.

Thy morning showed, thy nights concealed,
Tua manhã mostrou, tuas noites esconderam,
The bowers where Lucy played;
Os portos onde Lucy brincara;
And thine too is the last green field
E teu também é o último campo verde
That Lucy's eyes surveyed.
Que os olhos de Lucy olhara.

(William Wordsworth - 1801/1807)

Thursday, December 10, 2009

Escola joga livros no lixo!

Acabei de ler essa notícia no site da Abril.

Por José Maria Tomazela

Sorocaba, SP - Dezenas de livros, entre eles clássicos da literatura mundial, estavam sendo jogadas no lixo por funcionários da Escola Estadual Ernesto Monte, em Bauru, a 345 km da capital paulista. Os exemplares estavam acondicionados em sacos plásticos e parte deles foi amontoada na sarjeta da calçada da escola, na Praça das Cerejeiras. Alguns, parcialmente queimados, tinham sido lançados numa caçamba de entulho.

O fotógrafo João Roberto Alcará, de 49 anos, que passava pelo local, ficou intrigado com a cena. Ele fez fotos do que considerava "um descaso com a cultura" e interpelou os funcionários.

Ao verem que ele fazia fotos, os funcionários ainda tentaram arrastar os sacos para o interior da escola. Alcará apanhou alguns exemplares, entre eles o livro "A Escola dos Robinsons", de Júlio Verne, editado em 1938. Um manuscrito na capa indica que a obra tinha sido ofertada à escola, em 1939, por Antonio Garcia. O livro traz ainda o carimbo da biblioteca da escola.

(leia a notícia completa aqui).

Depois dizem que eu sou muito dura com meu próprio povo mas tem como não se indignar com um fato desses? Lembro que na Universidade (Federal do Amazonas - UFAM) tínhamos um zelo enorme pelos poucos livros disponíveis na nossa biblioteca porque sabíamos o pouco incentivo financeiro dado pelo governo federal para a compra de livros, especialmente em inglês, francês e até mesmo português - o curso de Letras é sempre minorizado mesmo, os cursos Medicina, Direito, Engenharia têm uma biblioteca vasta!
 
Se a própria escola não dá valor aos livros que têm, que importância à eles será dado pelas crianças? E isso foi registrado em apenas uma escola, imagina tantas outras que devem fazer o mesmo sem o conhecimento do público.
 
Absurdo!

Monday, December 7, 2009

The man who loved books too much (Allison Hoover Bartlett)

Quão apaixonado por livros você é?
O que você faria por um livro raro?
Primeira edição autografada do seu escritor favorito?


"I can resist everything except temptation - Posso resistir a tudo menos à tentação"
(Oscar Wilde)
The man who loved books too much (O homem que amava livros demais) conta  histórias de vários apaixonados por livros, mas não apenas livros, falo de livros raros, históricos, colecionadores que pagam $50 mil, $100 mil por obras raríssimas.

"Pouquíssimas pessoas parecem perceber que livros têm sentimento"
(Eugene Field, autor de The Love Affairs of a Bibliomaniac)

Allison H. Bartlett pesquisou por quase 3 anos um ser misterioso que comprava livros raros de colecionadores nos EUA usando cartões de créditos roubados - John Gilkey. Atrás de Gilkey, investigando seus roubos e tentando capiturá-lo, temos Sanders, outro apaixonado por livros e membro da ABAA (Antiquarian Booksellers' Association of America).

"Conheço homens que torraram suas fortunas, foram em longas viagens por meio mundo, esqueceram amizades, chegaram a mentir, enganar, e roubar, tudo para conseguir um livro"
(A.S. W. Rosenbach, negociador de livros do sec. XX)
O que me prendeu na história, além do fato de aprender mais sobre livros raros e ser uma história real, foi que tudo se passou aqui na Califórnia (Norte da Califórnia). Gilkey nasceu em Modesto, trabalhou na Saks (loja de grifes famosas na Union Square em San Francisco - de onde roubava os números de cartões de crédito dos clientes) e um dos hotéis para onde ele solicitou o envio é aqui em Palo Alto, em frente ao Stanford Mall... onde trabalhei por 6 meses (10 minutos da minha casa!).

É uma delícia quando se lê uma história em que se tem familiaridade com o cenário, com o plot!


"O norte da Califórnia é terra fértil para qualquer amante de livros, e não existe escassez de colecionadores" (pag. 109)
O que levou Bartlett a escrever a história? Após a morte de um amigo, um livro raro - Kräutterbuch, 1630 - foi encontrado em seu apartamento com um bilhete pedindo que o retornassem para a biblioteca. Nenhum registro sobre o livro foi encontrado em nenhuma biblioteca do país, e Sanders sugeriu o que poderia ter acontecido - O livro deve ter sido roubado! Até então a autora não tinha idéia do tamanho do problema, quem teria a idéia de roubar livros? Muitos! Dezenas! Milhares!



Bartlett visitou várias feiras de livros raros em Nova York, San Francisco e Salt Lake City em busca de informações e histórias para o livro. E eu não tinha idéia do quão raro é um livro raro: uma combinação de escassez, importância e condição. Quando uma adaptação para o cinema é lançada, a venda das primeiras edições dos livros sobe entre os colecionadores (pag. 19) mas os escritores famosos estão sempre em alta.

Exemplos:
- Primeira edição de Pinoquio, em italiano - à venda por $80 mil (isso mesmo, 80 mil dólares!);
- 2 cartas ilustradas de L. Frank Baum (autor de O Mágico de Oz) - à venda na feira por $45 mil;
- Panfleto encontrado por um colecionador em Massachusetts num Sebo por $15 em 1988, que mais tarde descobriu-se ser uma cópia do primeiro texto de Edgar A. Poe (Tamerlane e Outros Poemas) escrito quando tinha apenas 16 anos - vendido por $198 mil;
- Primeira edição de Lolita do Vladimir Nabokov, autografada para Graham Greene - leiloada por $264 mil;
- Primeira edição de Utopia de Thomas More - vendido por $245 mil.


"O roubo de livros é mais disseminado que o roubo de obras de arte" (pag. 37)

Outras curiosidades?
- Muitos colecionadores nem lêem os livros que colecionam - "Não julge um livro por seu conteúdo"  (pag. 20);
- Al Pacino, Steve Martin, Diane Keaton são alguns dos colecionadores famosos;
- Thomas Jefferson Fitzpatrick, professor de botânica em 1930: morreu aos 83 anos - comprou tantos, mas tantos livros que seu corpo foi encontrado em um berço em sua cozinha, rodeado por 90 toneladas em livros; (pag. 195)
- Thomas Jefferson (3º presidente dos EUA) - lendário por seu amor por livros - aos 5 anos já havia lido todos os livros da biblioteca de seu pai. Em 1814, vendeu sua coleção de 6,700 livros para a Livraria do Congresso de Washington, após a mesma ter sido queimada pelo exército britânico.
- Desde 1800 há registros na história sobre roubo de livros por seus adoradores.

"Todo homem deve morrer, cedo ou tarde, mas bons livros devem ser conservados" (pag. 204 -Don Vicent, colecionador de livros, executado em Barcelona em 1836 por matar outro colecionador por ter oferecido maior aposta que a sua num leilão de livros - sua história serviu de inpiração para Bibliomania, de Gustave Flaubert)

Falemos então de Gilkey.
Gilkey chamou a atenção de Bartlett porque estava na lista dos procurados da ABAA por quase 2 anos, a estimativa é de que entre 1999 e 2003 havia roubado por volta de $100 mil em livros de negociadores nos EUA, e recentemente havia sido preso. Procurado pela autora, Gilkey decidiu ceder uma entrevista, entrevista que duraria quase 3 anos, e aos poucos Bartlett foi moldando o perfil do adorador de livros.

Gilkey não tinha o perfil de um criminoso. Os livros roubados não seguiam um certo padrão, como se fossem escolhidos aleatoriamente, os valores variavam (muitos nem eram tão valiosos), bem como gêneros e  períodos, e o mais interessante, nenhum dos livros roubados apareceu à venda na internet. Sanders estava convencido que ele roubava por amor.

Gilkey, na minha opinião, sofre de extremo egocentrismo. Quer ter o que não pode e culpa o mundo por suas privações - "se o hotel que eu paguei com um cartão de crédito roubado não devolve 'meu' dinheiro porque menti que a descarga quebrou, vou roubar todas as toalhas por vingança!". Ele rouba livros porque acredita que sua coleção o fará ser admirado por outros, que subirá de status social se tiver uma biblioteca com livros raros, não importa o preço que pague por seus erros ou se vai ser preso, não leva em consideração que em muitas das livrarias, os colecionadores levaram anos e anos juntando dinheiro e montando suas coleções - não apenas para vendê-los, mas para exposição para aqueles que não têm oportunidade de comprá-los ou possuí-los.

Todas aquelas pessoas amam livros tanto ou mais que Gilkey, a diferença entre eles está nos valores morais.

"Muitos dos amantes de livros que nos visitam, nunca tinham visto livros como esses, e as chances são de que nunca os verão novamente para o resto de suas vidas. Queremos que esses livros estejam com pessoas que os amem, que paguem por eles, que os apreciem (...) Quando ele (Gilkey) roubou aqueles livros, ele roubou de mim, dele (aponta para cliente), dela (aponta para a filha)"
(Lane Heldfond - vítima de John Gilkey - pag. 215)
O livro é interessantíssimo, cheio de dicas de boas livrarias por aqui pelo Norte e um pouco mais para o Sul da CA (endereços anotados para visitas em breve!), cheio de curiosidades, histórias de pessoas que marcaram a história devido ao seu amor e dedicação aos livros.

Quem quiser saber mais sobre história ou a autora, é só visitar o site: The man who loved books too much
Título dos livros roubados por John Gilkey: Treasure Island

Saturday, December 5, 2009

Poema de Sábado



Mais um poema do livro The immortal Poems of the English Language, por Oscar Williams.
Escolhi esse porque além de engraçado, mostra uma outra face dos poetas. Nem todos são ultra-românticos como Goethe para morrer de amor e por amor... parafraseando Vinícius "que seja eterno enquanto dure, posto que é chama".
Um ótimo sábado a todos os apaixonados por poesia que passam por esse navio!






The Constant Lover

Out upon it, I have loved
Sobretudo, eu tenho amado
Three whole days together!
por três dias completos!
And am like to love three more,
E  possivelmente amarei por mais três
If it prove fair weather.
Se o tempo estiver bom.

Time shall moult away his wings
Tempo mudará suas asas
Ere he shall discover
Antes que se descubra
In the whole wide world again
 Nesse vasto mundo novamente
Such a constant lover.
Tão constante amante.

But the spite on't is, no praise
Mas a maldade nisso é, que nenhuma exaltação
Is due at all to me:
Deve ser dada a mim:
Love with me had made no stays,
Amor em mim não fez morada,
Had it any been but she.
Se tivesse sido pois ela.

Had it been but she,
Se tivesse sido pois ela,
And that very very face,
E aquele mesmo mesmo rosto,
There had been at least ere this
Teria ali existido pelo menos antes deste
A dozen dozen in her place.
Dezenas e dezenas em seu lugar.

(Sir John Suckling - 1609/1642)

Saturday, November 28, 2009

Poema de Sábado



Começando hoje, todo sábado será dia de poema no A Ship made of books. Percebi que tenho tantos livros de poemas e raramente os compartilho aqui no blog... T.S. Eliott, Emily Dickinson, Sylvia Plath, Edgar A. Poe e tantos outros.
Ontem eu e o marido estávamos lendo juntos poemas deliciosos (mais ele que eu, não tenho tanta familiaridade com o inglês arcaico) e então pensei... "hum, porque não compartilhá-los com os navegadores deste navio?"

O poema de hoje é parte do livro "Immortal poems of the English Language" por Oscar Williams.



There is a lady Sweet and Kind

There is a lady sweet and kind,
Existe uma dama doce e gentil,
Was never face so pleased my mind;
Nunca um rosto tanto agradou meu pensamento
I did but see her passing by,
E ainda que por mim a vi passar,
And yet I love her till I die.
Ainda assim a amarei até a morte.

Her gesture, motion, and her smiles,
Seus gestos, movimento, e seu sorriso,
Her wit, her voice my heart beguiles,
Sua graça, sua voz meu coração cativa,
Beguiles my heart, I know not why,
Cativa meu coração, o porquê não sei,
And yet I love her till I die.
Ainda assim a amarei até a morte.

Cupid is winged and doth range,
Cupido tem asas e sobrevoa,
Her country so my love doth change:
Seu país para que meu amor a faça mudar:
But change she earth, or change she sky,
Mas mude ela a terra, ou mude ela o céu,
Yet will I love her till I die.
Ainda assim a amarei até a morte.

Wednesday, November 25, 2009

Notre-Dame de Paris (Victor Hugo)

Tenho tanto, tanto para falar sobre "O Corcunda de Notre-Dame" que nem sei por onde começar. Lembrei do post do Sandro do Minerva Pop - "nunca tinha me deparado com a dificuldade em achar um forma para expressar minha opinião ou sentimento por algo." - no post sobre PJ Harvey.

Levei quase 1 mês lendo esse livro, que começou beeem monótono (e já explicarei o porquê), foi me prendendo aos pouquíssimos, mas me fez devorar a história perto do final.

Victor Hugo decidiu escrever a história após uma das suas muitas visitas a catedral de Notre-Dame, ao ler engravada em uma parede a palavra 'ANÁΓKH (DESTINO, em Grego). O fatal e melancólico significado da palavra tocou Hugo imensamente - quem poderia ter sido essa alma atormentada que não pode passar por aqui sem deixar sua infelicidade registrada na parede de uma igreja antiga? E por causa dessa palavra, Victor Hugo fundou a história, lançada em 1831 com o título Notre-Dame de Paris, sim a versão original não se chama "O corcunda de Notre-Dame", essa foi a adaptação e também culpa das traduções (para desgosto de Hugo).

Eis aqui o motivo da monotonia do livro. Comecei a ler interessada na história do Corcunda - e quando vi Victor Hugo encher páginas e páginas descrevendo, Paris, Notre-Dame e seus arredores pensei estar lendo a história errada (trocaram as capas!). O livro é dividido em livros ao invés de capítulos, e pode esperar por muita conversa sobre arquitetura, engenharia, filosofia, etc, etc, a história só começa a ser desenvolver realmente lá pela página 206. Hugo é extremamente descritivo, e quando eu falo descritivo, pode levar ao extremo, ele e Flaubert são perfeitos nisso!

Hugo é o narrador-onisciente, conversa e questiona o leitor durante toda a história - "O leitor provavelmente não esqueceu que..." (pag. 423) - e a história... bem, senta que lá vem ela.

Uma prostituta de Paris após anos de sofrimento e solidão deu a luz a uma linda menina, Agnes, perfeita e delicada.  Querendo saber o futuro brilhante que a filha teria pela frente, a mãe a leva aos ciganos que recentemente chegaram a cidade, para ter sua "sorte" lida. Poucos dias depois a criança some e em seu lugar é deixado um ser deformado, um monstro - "Não tentaremos descrever para o leitor aquele nariz tetraedro, aquela boca de pé de cavalo, aquele pequeno olho esquerdo escondido sob enorme sombrancelhas vermelhas; o olho direito desapareceu completamente embaixo de uma enorme verruga; aqueles dentes pontudos (...) seu rosto uma mistura de malícia, admiração e tristeza (...) a cabeça gigantesca com espetados cabelos vermelhos; entre seus ombros uma enorme corcunda (...) pés enormes e mãos monstruosas" (pag. 52).

 Os ciganos roubaram sua menina para sacrifício e deixaram de presente o próprio demônio - foi o que concluiu - a única lembrança é um lado do par de sapatinhos, feitos com todo amor pela mãe. A mãe? desesperada pela dor, perambula pelas ruas da sua cidade até desaparecer da vista dos moradores. Sua história de dor e sofrimento foi espalhada aos quatro ventos - "Porque para uma mãe que perde sua cria, todo dia é o primeiro dia. Sua dor nunca envelhece; embora as vestes do luto se tornem gastas e perdam a cor, o coração continua escuro para sempre" (pag. 331).

O monstrinho é levado a Notre-Dame - que de acordo com a tradição da época, é para onde todas os órfãos são levados para serem expostos e adotados - e após dias exposto, é adotado pelo vice-bispo de Notre-Dame, Claude de Frollo - que o chamou de Quasimodo, e o ensinou a ler e a escrever.

Frollo é um personagem super interessante - perdeu os pais durante a Peste Negra aos 19 anos, entrou em crise porque nunca tivera tempo para emoção, e decidiu ser o pai do pequeno Jehan de Frollo -"porque descobriu que o homem precisa de amor, que a vida sem um amor aquecedor nada mais é que uma roda seca, que range e roça nas curvas" (pag. 145).

Claude de Frollo era um homem com sede por sabedoria, devorador de qualquer fonte de conhecimento, estudou tudo o que se pode imaginar - de Filosofia a Medicina, e atingiu todos os graus de ensino, Licenciatura, Mestrado, e Doutor em Artes - Fluente em Latim, Grego e Hebreu - e quando não restava mais assunto no campo "legal", passou para o "ilegal", além da esfera do conhecimento empírico, as ciências ocultas - magia, alquimia, cabala - Nicolas Flamel tornou-se seu ídolo e sua meta era descobrir do universo, transformar metais inferiores em ouro.

Foto: Victor Hugo by Auguste Rhodin (de Young Museum, San Francisco, CA)

Quando Hugo começou a descrever de Frollo, lembrei do "O Código da Vinci" de Dan Brown - porque Frollo tenta montar o quebra cabeça, as mensagens subliminares deixadas de herança à História por membros de Sociedades Secretas Medievais - "Ah, Dan Brown não é nada de inovador - copiou a idéia de Victor Hugo, de quase 200 anos atrás".

Nesse processo de busca por sabedoria, vem as sutis críticas de Victor Hugo à Igreja Católica e seus religiosos demagogos, que pregam a virtude, a castidade, santidade mas são verdadeiros demônios, os maiores pecadores da igreja (como mais tarde na história, testemunharemos).

O tempo passa, Quasimodo cresce selvagem e com posto de tocador de sinos da catedral de Notre-Dame, os sinos são sua paixão, seus melhores amigos, e por causa deles perde a audição. Tem uma devoção por seu pai adotivo, a quem ama de sua maneira, e sofre calado as agressões verbais de Claude de Frollo, cada dia mais amargo por causa do destino escolhido pelo irmão Jehan, que já adulto virou um jovem bom-para-nada, irresponsável, festeiro e mulherengo, mas de bom coração.

Os ciganos tem a Corte dos Milagres como moradia principal - "os bons-para-nada de cada nação - espanhóis, italianos, alemães - de cada religião - judeus, cristãos, mohamedinos, idólatras - pedintes durante o dia, transformam-se em ladrões durante a noite; resumindo, um grande guarda-roupa, onde vestidos e nus daquele tempo  atores dessa eterna comédia na qual roubo, prostituição, e assassinato atuam nos pavimentos de Paris". (pag. 82)

La Esmeralda está entre eles mas não é como eles. Caminha pela cidade com seu bode (Djali - que Flaubert usou parou para nomear o cachorrinho de Emma Bovary, resenha aqui), tocando seu tamborim e dançando.

Impressionante o encantamento que Esmeralda causa nos homens ao seu redor. Mas ela se apaixona mesmo pelo bonito-mas-cabeça-vazia Phoebus, capitão da guarda de Luis XI, após Phoebus salvá-la do ataque repentino de Quasimodo, enquanto era seguida por Gringoire (outro!). Mas ela não guarda rancores, e quando Quasimodo foi espancado em praça pública, Esmeralda foi a única a ter compaixão e dá-lhe de beber.

Gringoire - não posso deixar de falar deste ser. Cômico, irritante e ao mesmo tempo cativante. Ele "casou" com Esmeralda, quando por acidente foi parar na Corte dos Milagres e os Truands decidiram enforcá-lo. Mas o casamento só rendeu uma boa amizade entre os dois e o amor de Gringoire por Djali, o bode de Esmeralda.

"Aos 16 eu quis escolher uma profissão. Tentei de tudo. Virei um soldado, mas não era bravo o suficiente. Virei um monge, mas não era santo o suficiente; até porque eu não era um alcóolatra. Em desespero, virei aprendiz de carpintaria; mas não era forte o suficiente. O que mais queria era ser professor. Verdade. Eu não sabia ler, mas isso não é obstáculo. Percebi, após algum tempo, que eu era, por uma razão ou outra, bom para nada. Então decidi virar um poeta e um rimador. É uma profissão que qualquer um pode ter, se é um vagabundo; e é melhor que roubar"
 (pag. 103)

Phoebus é o típico cafageste de qualquer história. Era noivo de sua prima mas adorava um rabo-de-saia (como diz minha avó). Gasta seu baixo salário nos bordéis da baixa Paris, bebe até cair com Jehan de Frollo, adora fazer juras de amor para menininhas inocentes para tirar proveito das coitadas e é isso que faz com La Esmeralda, que acredita em Phoebus e até aceita se entregar a ele, se não fosse Claude de Frollo (aqui vem ele!) aparecer e apunhalar Phoebus pelas costas e deixar Esmeralda para ser presa e condenada a forca por um crime que não cometeu.

Quasimodo salva Esmeralda no dia marcado para seu enforcamento e a esconde em Notre-Dame (vale lembrar que enquanto presa, Esmeralda recebeu a visita de Claude de Frollo, que declarou seu amor em um angustiado discurso - e fora rejeitado). Phoebus não morreu, mas também não moveu um dedo para evitar a sentença de Esmeralda, e as autoridades também não buscaram saber o estado de saúde de Phoebus - "Justiça naquele tempo estava muito pouco preocupada com correção ou precisão nos seus procedimentos contra um criminoso. Contanto que o acusado seja enforcado, isso era tudo que importava". (pag. 333)

Esmeralda também não esqueceu Phoebus e sabia que o amado vivia, mas isolada do mundo numa das torres da catedral, seu único contato com o mundo era Quasimodo, que a metia um medo terrível pela sua aparência deformada, mas não poderia esquecer que aquele corcunda salvou sua vida.
"Sozinha ela meditou nas palavras maravilhosas daquele ser monstruoso, impressionada pelo som da sua voz, tão rouca e estridente, e ao mesmo tempo tão gentil"
(pag. 363)
Quasimodo a amava, por certo. Assim como Claude de Frollo. Phoebus nem conta na história, porque para ele sempre foi aventura (mas a pobre Esmeralda não sabe disso e ainda tem esperanças!). Mas Victor Hugo fez questão de mostrar a diferença entre um amor vindo de um coração puro, inocente, sem pedir nada em troca como o de Quasimodo, e o amor vindo de um coração corrompido como o de Frollo.
"Ao acordar uma manhã ela viu na sua janela dois vasos cheio de flores. Um era brilhante, um bonito vaso de cristal mas rachado; tinha deixado toda a água escorrer, e as flores haviam murchado. O outro vaso era de argila, rude e comum, mas tinha mantido toda a água, de tal maneira que as flores continuavam vivas e seus botões a abrir" (pag. 376 - Quasimodo para Esmeralda, comparando seu amor com o de Phoebus)

No final Claude de Frollo que tanto buscou o conhecimento e provas científicas, viu-se destruído por um sentimento tão irracional - AMOR - que o levou a insanidade, tem coisa mais ignorante?

"(...) que seu ódio e perversidade não eram nada mais que amor vicioso, amor, fonte de bondade no homem, foi transformado em coisas horríveis no coração de um padre, e aquele homem constituía o que era, por se fazer padre, fez-se demônio".
 (pag. 350)

Não vou contar o final, mas não esperem por um final-feliz-a-la-Disney nem Hollywoodiano. Victor Hugo é nu e cru, fora que também é uma excelente aula de História. Hugo investiga a história e sua obscura conexão com o destino da humanidade. Durante a leitura, o leitor percebe o senso de estranhamento de Hugo com os acontecimentos e as mudanças que ocorrem diante de seus olhos, como por exemplo, o fato de a "moda" da época ser refletida nos monumentos históricos, muda o rei e muda o tipo de arte da cidade, o tipo de arquitetura usada na construção de templos, etc.

Muitos ficaram chocados com a obra quando publicada. Claro, a história não segue os traços românticos esperados para época, apesar de parecer ter em suas linhas um possível romance, Notre-Dame de Paris é uma tragédia e como tal vai seguir firmemente essa linha. O que muitos não aceitam é o fato de que Victor Hugo não escreveu a história pensando em desenvolver uma história de amor, não necessitamos de uma outra versão de A Bela e a Fera, Hugo sabia que sua história se transformaria num monumento histórico, uma relíquia obscura de uma era destruída, transformada em poeira.

Poeira é última palavra usada por Hugo, a que termina a história.

 "É o livro mais abominável que já foi escrito" (Goethe)
* Livro da Lista Rory Gilmore.

Sunday, November 22, 2009

Feira de Natal do Charles Dickens


Para aqueles que moram na Califórnia, ou melhor, no Norte da CA, próximo a San Francisco (Chico City), gostaria de informar que começa, no dia 27 de novembro, a feira de Natal em homenagem a Charles Dickens, com venda de livros, encenação de peças, comida, bebida, etc., vamos todos nos sentir em Londres!

Quem tiver a possibilidade de ir, por favor o faça porque vai ser SUPER!

Ingressos antecipados já a venda.
A feira vai até  20 de dezembro, de 11:00 às 19:00hs, no Cow Palace Exhibition Hall em San Francisco.
Estou indo no dia 13, quem quiser carona avisa!

Mais detalhes e fotos no site:

Tuesday, November 10, 2009

Say you're one of them (Uwen Akpan)

Ganhei esse livro de presente de aniversário, havia visto no site da Border's na manhã anterior e a foto da capa me chamou atenção, fora que foi uma das escolhas do Clube do Livro da Oprah Winfrey... curiosidade pra saber do que se tratava me fez lê-lo ASAP.

O autor, Uwen Akpan é um padre Jesuíta nascido na Nigéria, recebeu MFA (Master in Fine Arts) em Escrita Criativa pela Universidade de Michigan em 2006 e "Say you're one of them" é seu primeiro livro, lançado em Junho de 2008, super aclamado, por sinal!

O livro é um conjunto de short stories (5 no total), histórias duras e sofridas narradas por crianças de várias partes da África. Não espere final feliz e hoolywoodiano porque Akpan revela a brutal realidade vivida por muitas e muitas crianças africanas, sem amenizações... a única certeza é a incerteza em relação ao futuro que espera os personagens.

Quando penso em África, penso em miséria, fome, morte. Akpan fala disso e muito mais e dá voz às crianças africanas e deixa o leitor de coração apertado ao ler o que o ser humano é capaz de fazer devido as privações, miséria, por causa de conflitos religiosos ou por dinheiro.

A última história, e a que dá nome ao livro, trata de conflitos inter-tribais/raciais, se é que podemos chamar assim... é uma das mais tristes - Os pais de Monique são de tribos diferentes e quando a guerra entre as tribos começa, o pai (Papa) se vê entre o dilema de honrar sua tribo e seus ancestrais e matar a esposa ou ser morto por sua prórpia família - "Say you're one of them - Diga que és um deles" - é o conselho dado por Maman (a mãe) para Monique e para seu irmão para evitar que sejam massacrados no conflito por seus familiares.


"Meu marido, seja homem", Maman interrompe, olhando para o chão.
"Meu marido, você me prometeu."
(...) Ele se abaixa e fecha os olhos de Maman com as mãos trêmulas.
(pag. 350)

O que eu não curto muito em short stories é que quando você está entrando no clima da história ou conhecendo melhor os personagens, a história acaba, e como, no caso de "Say you're one of them" as histórias terminam com destinos incertos, fiquei com aquela sensação de impotência, de vazio, sabe?

É um livro com histórias de imenso impacto, Akpan soube como passar seu ponto de vista sobre os problemas que testemunha no seu país através dos olhos das crianças narradoras e personagens com compaixão e coragem, é comovente!

Wednesday, November 4, 2009


"(...) Ele descobriu que o homem precisa de afeto, que a vida sem o aquecimento do amor nada mais é do que uma roda seca, que range e roça nas curvas"
(Victor Hugo, O corcunda de Notre-Dame. Pag. 145)

"Happiness is only real when shared... A felicidade só é real quando compartilhada"

(do filme Into the Wild - Na Natureza Selvagem (post aqui), foi a crua verdade descoberta por Christopher McCandless no final da sua jornada pelo Alaska... pena que já era tarde demais)





Em homenagem a todos aqueles que acreditam que "All we need is love, love is all we need" e porque estou indignada com tanta guerra e falta de amor e respeito!

Friday, October 30, 2009

Pride and Prejudice and Zombies (Jane Austen & Seth Grahame-Smith)

Bom, como amanhã é Halloween, tomei coragem para vir aqui e falar de Pride and Prejudice and Zombies.

Preciso dizer de antemão que não estou nessa onda de vampiros, zumbis, lobisomens e tudo mais que tá super em alta ultimamente. Minhas amigas já me pediram resenha sobre Lua Nova, Crepúsculo, etc, mas sinto dizer que não me servem de inspiração para leitura, não é a minha praia!

Porque li Pride and Prejudice and Zombies, então? Porque sou super-hiper-fã da Jane Austen, e Pride and Prejudice (resenha aqui) é um dos meus livros/filmes favoritos e porque não tinha idéia do que fariam com a história... Mania que tenho de não ler os resumos da contra-capa!

Então... em Pride and Prejudice and Zombies temos todos os antigos personagens mas em versão carnificina e com direito a gravuras! Elizabeth Bennet é uma "samurai", bem como as irmãs, e lutam para defender a Coroa e suas terras contra os terríveis comedores de cérebro que durante os períodos de seca, rompem o solo e saem de seus túmulos.

Agora imagina uma Elizabeth duplamente ironica e durona, com músculos de anos de prática nas artes marciais chinesas, usando sua espada para degolar os zumbis... e o pior, para a nova Lizzy, livros são coisas de mulherzinha!

Mr. Darcy foi ensinado pelo renomado mestre japonês (que esqueci o nome, que ironia!) e é aqui que se trava o preconceito para com Lizzy, porque Darcy vê os ensinamentos chineses como inferiores. Nessa versão, Elizabeth não apenas nega o pedido de casamento de Darcy, como também lhe dá uma bela surra com toda sua habilidade nas artes chinesas.

Lady Catherine de Bourgh é a mais famosa samurai em Londres, sua fama como defensora do trono é conhecida por toda Inglaterra e após conhecer Lizzy, a critica pelo ensino inferior... deveria ter ido para o Japão, não para a China... sua mansão é protegida pelos melhores samurais do mundo, que viram presunto ao lutar com Lizzy, o que quase acontece também com a Lady Catherine, se não fosse pelo sentimento de Lizzy por Darcy.

A parte engraçadíssima, na minha opinião, diz respeito a Charlotte Lucas... a coitadinha foi atacada por um zumbi e contaminada com a praga, a única solução para que não morra no caritó (como diz minha avó) é casar com Mr. Collins. Só Elizabeth percebe a transformação de Charlotte, ela vai envelhencendo, a pele deteriorando, a fala cada dia mais debilitada (pior que o Cebolinha!!!) e a pobre comia cérebros escondidos para que Mr. Collins não percebesse - aquele marido zeloso que presta atenção na esposa, né? Após a visita de Lizzy, a transformação se completa e Lady Catherine é a responsável pela execução. Mr. Collins se enforca numa árvore e a família Bennet não corre mais risco de perder a casa.


Lá pela metade do livro não via a hora de acabar, "ai meu Deus, em que buraco me meti!" foi o que pensei... como consequência, assisti o filme por 1 semana, todos os dias... (sem brincadeira, pergunta do marido!)... só pra livrar minha mente daquela cena grotesca onde Mr. Darcy e Lizzy se casam para juntos defender suas terras daqueles seres horrorosos...

Leiam se gostarem, aposto que tem muitos que gostaram ou vão gostar, nem que seja para Halloween! rs.


PS: esqueci de mencionar que nessa sequência zumbilândica, há também o Sense and Sensibility and the Sea Monsters... vai que alguém queira ler!

Tuesday, October 27, 2009


"(...)ele se viu diante da estranha opção de ir tomar seu lugar no buraco da janela da capela, nem que fosse apenas pelo prazer de fazer uma careta para aquela multidão ingrata. 'Mas não,' ele disse para si mesmo, 'isso seria indigno; vingança não! Lutaremos até o fim. O poder da poesia sobre as pessoas é enorme. Conseguirei trazê-los de volta. Veremos qual dos dois vencerá - caretas ou belas-letras."
(O Corcunda de Notre-Dame, Victor Hugo - pag. 50)


Estava lendo a entrevista do Secretário de Segurança do Rio de Janeiro sobre a violência na cidade - após a derrubada do helicóptero da PM pelos traficantes - a entrevista me fez lembrar desse trecho de "O Corcunda de Notre-Dame" com a sutil ironia de Victor Hugo sobre a Política do Pão e Circo.

Dá a Copa do Mundo, dá Olimpíadas e o brasileiros esquecem da Guerra Civil no RJ, esquecem a desmatação da Amazônia, a corrupção descarada em Brasília, do sistema de saúde falido, dos analfabetos funcionais...

E Victor Hugo lá atrás em 1830 (por aí) já ironizava os franceses por terem memória seletiva em relação aos assuntos que realmente importam para a nação... mas logicamente que Pão e Circo nos remete ao Séc. III durante Império Romano... dá os gladiadores, joga pão que os romanos esquecem toda a miséria que vivem e ainda adoram o imperador!

Não é de indignar que uma prática tão antiga ainda seja usada?
E o pior, a população ainda cai! Dizem que nada se cria, tudo se copia... Tá na hora de copiar outras idéias porque ESSA levou o Império Romano a decadência e a França a uma Revolução...

Revolução... talvez seja isso mesmo que nós, brasileiros, precisamos!