Sunday, April 10, 2011

Poema de Sábado (no domingo)

O bailarino

Não sei dançar.
Minha maneira de dançar é o poema.

(Mario Quintana, A cor do Invisível, pag. 82)

Saturday, April 2, 2011

Poema de Sábado

Jardim Interior

Todos os jardins deviam ser fechados,
Com altos muros de um cinza muito pálido,
onde uma fonte
pudesse cantar
sozinha
entre os vermelhos dos cravos.
O que mata um jardim não é mesmo
alguma ausência
nem o abandono...
O que mata um jardim é esse olhar vazio
de quem por eles passa indiferente.


(Mario Quintana, A cor do Invisível, 
pag. 31)

Saturday, March 26, 2011

Poema de Sábado

Poemas Inconjuntos

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

Fernando Pessoa - Poemas 
Completos de Alberto Caeiro

Thursday, March 24, 2011

The Book Borrower (Alice Mattison)

Decidi comprar esse livro pelo óbvio motivo: o título dizia que livros estavam envolvidos!
Como eu não leio o resumo da contra-capa, não tinha a menor idéia de que se tratava a história... e para minha surpresa, Toby Ruben, a book borrower (aquela que empresta algo - nesse caso, livros), apenas menciona emprestar 3 ou 4 livros durante a história toda.

O modo como a história foi escrita é interessante. A história de Toby Ruben é contada paralelamente à história de Jessie, que por sua vez é a protagonista da história do livro que Toby está lendo... livro este que foi escrito pela irmã de Jessie, Miriam. Meio que uma biografia não-autorizada da irmã, que fora, quando jovem, acusada de causar uma rebelião que resultou na morte de sua irmã mais nova, Sarah.

Jessie cresceu no seio de uma família de imigrantes judeus. O pai fazia parte da união de trabalhadores da companhia ferroviária. Jessie cresceu freqüentando as reuniões e ouvindo seu pai discursar. Mais tarde, o pai de desvencilha da união mas não sem antes plantar a semente em Jessie, que ainda adolescente, abandona a família e passa ser integrante ativa no partido dos trabalhadores, reivindicando melhores salários, organizando greves e manifestações.

A história paralela começa com a Toby inexperiente - acabara de ser mãe pela primeira vez, tentando balancear a rotina de mãe, esposa, dona-de-casa, os livros meio que viram um recurso para fugir da sua realidade, até que Toby conhece Deborah, e o leitor acompanha o desenvolvimento daquela amizade... e é Deborah quem empresta o livro da "Garota do Bonde", o livro que conta a história de Jessie.

"E ainda assim Gussie Lipkin insisti em sua inocência no crime em que fora acusada: homicídio. Ter matado sua própria irmã" (pag. 114)

Mais que o conflito interno da Jessi (que mais tarde virou Gussie Lipkin), a história compartilha com o leitor um pouco das experiências dessas três mulheres em meio a uma sociedade em transição. E em meio a todas essas mudanças externas, a amizade de duas mulheres transcende os anos, os altos e baixos, decepções e crises.

Não vou dizer que The Book Borrower me prendeu a atenção, também nem sei o que estava esperando ao ler o livro, o que posso dizer que gostei na leitura foram os fatos históricos, perceber as transições no decorrer da história, as mudanças comportamentais dos personagens conforme as mudanças sociais, o amadurecimento emocional. Mas a história em si, não sei, deixou-me com a sensação de que alguma coisa estava faltando. Talvez porque não consegui me identificar com nenhum dos personagens ou sentir uma certa familiaridade com os fatos, não consegui sentir a história como deveria... estarei eu perdendo minha sensibilidade literária?

"Me liga, Jessie. Eu acho que mataste a Sarah. Eu te perdôo apesar de tudo. Me liga" (pag. 264)

Monday, March 21, 2011

Ape House (Sara Gruen)




"Rose a observou, como se a analisando. E até que decidiu quebrar o silêncio. "Semana passada eles infectaram um filhote de chimpanzé com leucemia colocando o veneno na mamadeira dele. Outros são sujeitos a cuidar do gramado, lidar com produtos químicos, cosméticos - vai nomeando. Alguns são viciados em drogas, outros trancados em quartos sem ventilação externa em que eles enchem com fumaça de cigarro. Um dos chimpanzés teve todos os dentes arrancados para que alguém tivesse a oportunidade de praticar diferentes técnicas de implantes dentário nele." (pag. 130)


Eu tinha certeza que esse livro da Gruen seria bom. Water for Elefants foi um dos meus livros favoritos de 2010, não apenas por ter sido uma história rica, mas porque a riqueza da história foi baseada em meses e meses de estudo de campo. O que me encanta na Sara é essa técnica toda dela de criar suas histórias/ romances com relatos históricos.

Sara Gruen não nos decepciona nessa nova empreitada em Ape House, A Casa dos Primatas em português. Fiquei ainda mais impressionada e fã dessa escritora ao saber do tanto de pesquisa e estudo envolvidos na escrita de Ape House. Sara Gruen viajou para o Canadá para estudar um pouco de Linguística, e só após tal estudo, Sara foi permitida a interagir com os primatas... e essa experiência incrível foi relatada através de John, um dos protagonistas da história.

Ape House conta a história de Isabel Duncan, que trabalha como pesquisadora e cientista do Great Ape Language Lab em Kansas. Isabel vem desenvolvendo pesquisas sobre a linguagem e o comportamento dos primatas... e esse é um dos pontos super interessantes do livro - o modo como os primatas se comunicam com os humanos através da linguagem de sinais, como eles pensam, interagem e aprendem com os humanos e trocam conhecimento... e o quanto se assemelha ao nosso modo de agir.

A pesquisa de Isabel causa curiosidade em jornais e revistas especializadas, e é aqui que John Thigpen entra na história. John e a equipe do The Philadelphia Inquirer viajam para Kansas para entrevistar Isabel e interagir com os primatas... horas após a entrevista, o laboratório é bombardeado - tudo leva a entender que foi um incidente causado por um grupo de protestantes em defesa dos animais. Isabel é hospitalizada em estado grave, e os primatas desaparecem sem deixar rastro...

"Ela havia se apaixonado por um seqüestrador, torturador, e assassino. Ela se abriu para ele, fez amor com ele, estava se preparando para dividir o resto da sua vida com ele, e até mesmo pensou em filhos. Ele havia compartilhado com ela apenas o que ele queria que ela acreditasse sobre o seu trabalho, e ingenuamente, ela acreditou." (pag. 138)

Após semanas em recuperação, Isabel finalmente deixa o hospital e tenta descobrir o que aconteceu com os primatas... e é durante essa busca por resposta que o ladro negro da história vai se desenvolvendo. O que se esconde por trás das pesquisas de laboratório, dos testes feitos em animais, e muitos outros fatores que nem chegam aos olhos do público. E o que fazer para denunciar? Para não se deixar intimidar pela poderosa indústria?

Sara Gruen denuncia em Ape House, o modo cruel com que tratamos os animais, os atos mais desumanos e vergonhosos a que esses animais são submetidos em nome da "Ciência". Ler Ape House causa aperto no coração e revolta, vergonha de pertencer a uma raça que se diz racional, mas é capaz de atos tão absurdamente primitivos.

"Muito das cenas envolvendo os primatas nesse livro são também baseadas em fatos - como o incêndio no Zoológico da Philadelphia, o gorila (Binti Jua) que salvou a vida de uma criança, os tipos de experimentos feitos em chimpanzés e as condições a que são submetidos, os tratamentos e o abandono dos chimpanzés da Força Aérea Americana - embora eu tenha tomado a liberdade de escrever de forma fictícia os nomes, datas e lugares. Muitas das piores condições já foram denunciadas, mas eles demonstram o modo com que temos tratados nossos parentes mais próximos - como "tubos de ensaio cabeludos" é como o Dr. Fouts diz."

Resta saber se assim como Water for Elefants, Ape House vai virar filme... se Hollywood terá coragem de mostrar nas telas do cinema os fatos relatados na história de Sara, batendo de frente com uma indústria que Hollywood mesmo incentiva. Virando filme ou não, Ape House conta uma história magnífica, surpreendente, daquelas que não se quer parar de ler.


Saturday, March 19, 2011

Poema de Sábado

Faz tempo que não passo por aqui, tenho sido um tanto relapsa com meu blog. Mas hoje cá estou compartilhando com vocês meu poema de sábado.

Primavera

Surgiram as pétalas do sol!
Era um novo dia que despontava!
Havia tantos pássaros nos ares
Que se confundiam nas nuvens

Lá fora, uma procissão suave,
De cores confusas, vivas
Em algazarra medonha e acesa
Rumava para a casa das flores!

Entrei nesse desfile e extasiei-me...
Estavam todos alegres, cantando
Eram rosas, violetas, jasmins, tulipas
Cravos, lírios, margaridas,
Desfilando pelos campos verdejantes,
E num coro infinito e multicolor
Despertavam em delírio, a natureza!
É que chegara doce, linda, a primavera!

(Gaitano Antonaccio, Estafa de Amor)

Saturday, February 26, 2011

Poema de Sábado

Desire
Desejo

Ah, in the past, towards rare individuals
Ah, no passado, para com poucos indivíduos
I have felt the pull of desire:
Senti aquele fogo do desejo:
Oh come, come nearer, come into touch!
Oh veja, aproxime-se, toque-me!
Come physically nearer, be flesh to my flesh-
Aconchegue-se, seja pele na minha pele-

But say little, oh say little,
Mas diga pouco, oh não fale nada,
and afterwards, leave me alone.
e depois de tudo, deixe-me sozinho.
Keep your aloneness, leave me my aloneness,
Deixe comigo sua solidão, e me deixe com a minha solidão,
I used to say this, in the past, but now no more.
Era isso o que dizia, no passado, mas agora não mais.

It has always been a failure
Isso tem sido sempre um grande fracasso
They have always insisted on love
Elas sempre acabam insistindo no amor
and on talking about it
e em falar sobre ele
and on the me-and-thee and what we meant to each other.
e no você-e-eu e o que significamos um para o outro.

So now I have no desire any more
Então não mais tenho desejo algum
Except to be left, in the last resort, alone, quite alone.
A não ser o de que me deixem, como último recurso, aqui sozinho.

(D. H. Lawrence,
do livro Erotic Works
of D. H. Lawrence, pag 557)

Sunday, February 20, 2011

A Thin Man (Dashiell Hammet)

"Alto -mais de 1,60m de altura- e um dos homens mais magros que eu já vi na vida. Ele deve ter uns 50 anos agora, e os cabelos já estavam ficando grisalhos na última vez que o vi. A primeira impressão que tive é de que ele precisava cortar o cabelo, bigode ralo, e unhas roidas." (pag. 9)

Se mistério é o seu estilo, The Thin Man - O Homem Sombra, em português - é um livro que não se pode perder. Com uma mistura de James Bond e Sherlock Holmes, Nick Charles, o nosso protagonista, não demora muito para causar no leitor uma sensação de familiriadade, como se as aventuras de Nick, relatadas aos poucos no decorrer da história, tivessem sido testemunhadas por nós leitores, em outros livros do autor - o que, infelizmente, não é o caso, uma vez que, The Thin Man é o único livro de Hammett em que Nick Charles aparece.

O livro virou seriado de TV na década de 50 e também gerou uma série de filmes em que o personagem acabou sendo desenvolvido, mas não na versão original de Hammett.

Nick Charles é um detetive "aposentado" que gasta seus dias de casado desfrutando da vida boa que a fortuna da esposa, Nora,  proporciona ao casal. Logo que chegam a Nova Iorque para passar as festas de fim de ano, Nick se vê no centro de uma trama misteriosa - Julia Wolf, a secretária / ex-amante de Clyde Wynant é encontrada morta pela a ex-mulher do próprio. O que Mimi Jorgensen fazia no apartmento de Julia? Qual motivo teriam para assina-la? Quem seria o assassino?

Nari foi quem decidiu escolher The Thin Man para o nosso BookClub de Janeiro, e essa foi a primeira obra que li do Dashiell Hammett. Hammett tem um estilo que me agrada bastante, ele é casual e coloquial sem vulgaridade, sem ser pejorativo. Nick Charles tem o charme do agente 007, causa efeito nas mulheres ao seu redor daquele mesmo modo que Bond faz, mas tem a sutileza e inteligência do Holmes. Eu não consegui descobrir quem foi o assassino, só me caiu a ficha quase no final da história!

Sem se envolver, mas já envolvidos, Nick e Nora, entre copos de whiskey, encontros e conversas, veem a história se desenrolar e tantas outras descobertas serem feitas. Tudo isso, enquanto aos poucos, o leitor fica conhecendo o Nick Charles dos velhos tempos, e o legado deixado pelo famoso detetive.
"(...)E a propósito, eu não tenho tido tempo: tenho estado muito ocupado administrando os teus bens, para ter certeza que não percas todo aquele dinheiro que me fez te pedir em casamento" (pag. 13)

Saturday, February 12, 2011

Poema de Sábado

Das Ilusões

Meu saco de ilusões, bem cheio tive-o.
Com ele ia subindo a ladeira da vida.
E, no entanto, após cada ilusão perdida...
Que extraordinária sensação de alívio!

(Mario Quintana, do livro Espelho Mágico,
 pag. 31)

Saturday, February 5, 2011

Poema de Sábado

XXIX

Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
Do que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.

Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso quando pareço não concordar comigo,
Reparem bem para mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés -
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma...

Tuesday, February 1, 2011

"Mas foi a copulação cara-a-cara dos bonobos, sexo grupal, sexo oral, e a masturbação que causou a maior estranheza, porque relembravam a sexualidade humana tão de perto. Em público, até mesmo os espectadores mais contidos se abriam em gargalhadas nervosas, ou no mais profundo silêncio e desviavam o olhar. Muito frequentemente víamos cientistas sentados em suas cadeiras ficarem vermelhos, controlando-se para manter aquela expressão de 'Não vou desviar o olhar. Não estamos chocados'".
(Ape House - A casa dos primatas, Sara Gruen, pag. 177)

Sunday, January 30, 2011

Poema de Sábado (no Domingo)

Soneto ao Inverno

Inverno, doce inverno das manhãs
Translúcidas, tardias e distantes
Propício ao sentimento das irmãs
E ao mistério da carne das amantes:

Quem és, que transfigura as maçãs
Em iluminações dessemelhantes
E enlouqueces as rosas temporãs
Rosa-dos-ventos, rosa dos intantes?

Por que ruflaste as tremulantes asas
Alma dos céu? o amor das coisas várias
Fez-te migrar - inverno sobre casas!

Anjo tutelar das luminárias
Preservador de santas e de estrelas...
Que importa a noite lúgubre escondê-las?

Londres, 1939

(Vinícius de Moraes, do livro
 Livros de Sonetos, pag. 28)

Monday, January 24, 2011

The Mystery of Edwin Drood (Charles Dickens)

Antes mesmo de começar a história, fiquem logo sabendo, queridos leitores, que a história não tem final. Rs. O Mistério de Edwin Drood foi o último livro escrito por Charles Dickens, que morreu antes que a história fosse concluída, em Junho de 1870, fazendo que com que o Mistério de Edwin, continuasse eternamente não-resolvido.

A primeira parte da história gira em torno do noivado arranjado de Edwin Drood e Rosa Bud. Arranjado pelo pai de Rosa à beira da morte, quando os dois ainda eram infantes. Edwin é adorado pelo tio John Jasper, que criou o sobrinho desde a morte de seus pais, adorado de tal forma que Jasper mantem um diário de todos os fatos e passos de Drood. Rosa Bud, após virar órfã, foi enviada para o convento de Miss Twinkleton, de onde só sairia após o casamento com Drood quando atingisse a maioridade.

Meses antes do possível dia do casamento de Edwin e Rosa, Neville e Helena Landless chegam à cidadezinha. A história dos dois é logo espalhada, perderam os pais cedo, foram criados por um amigo carrasco da família, cresceram selvagens e com poucos recursos, foram passados de mão em mão até que Sr. Honeythunder veio entregá-los nas mãos do Reverendo Crisparkle. Neville é daqueles que não leva desaforo para casa, não tolera desrespeito e hipocrisia - o que bate de frente com o esnobe Edwin Drood - cabe aqui uma explicação do caráter de Drood... ele, apesar de protagonista, não é um personagem com quem o leitor simpatiza muito - pelo menos eu não simpatizei com ele - ele tem um ar de superioridade, não é nada humilde, e trata com desdém os que não são de seu círculo.

"Neville Landless já bastante impressionado pela pequena Rosebud (que a tradução seria Botão de Rosa),  sentia-se indignado pelo fato de que Edwin Drood (obviamente inferior a ela) carregava esse prêmio com tão pouco valor. Edwin Drood já bastante impressionado por Helena, sentia-se indignado que o irmão de Helena (obviamente inferior a ela) portava-se tão confortávelmente, excluindo-o completamente da situação" (pag. 69)
Neville se apaixona pela delicada e desprotegida Rosa na primeira e única vez que a vê. Edwin é cativado pela forte e determinada Helena Landless. Neville desde já detesta Edwin e o sentimento é mútuo, e não demora muito para que os dois, após uma discussão que quase acaba em morte, virem inimigos mortais. Helena é entregue às mãos de Miss Twinkleton, e logo, logo, torna-se a melhor amiga de Rosa.

A reviravolta na história acontece quando Rosa decide desmanchar o noivado com Edwin, poucos meses antes do dia "D". Edwin desaparece do mapa no dia seguinte, e aqui nasce o maior mistério do século XIX! Teria Edwin sido morto? Teria ele partido por conta própria? Quem o teria assassinado? Seus pertences foram encontados no rio do centro da cidade, e o primeiro suspeito, logicamente, foi Neville Landless.

The Mystery of Edwin Drood foi o livro escolhido para o BookClub de Dezembro, para ser discutido na Feira de Natal do Charles Dickens. No entanto, nenhuma de nós conseguiu terminar de ler a tempo para a feira... na verdade, a narrativa é bem lenta, os diálogos super longos que chegam a ficar chatos e cansativos, não conseguia ler mais que 4, 5 páginas por noite. A história tem de altos e baixos mas nenhum deles prendem muito a atenção do leitor. O fato de o final não ter um final, permite que a imaginação corra solta (e para mim, esse foi o fato mais excitante da história!)... a Edição que comprei tem uma segunda parte "não-oficial" - O Julgamento de John Jasper - o que conclui expeculando que tio de Edwin, John Jasper, tenha sido o assassino.

Eu pensei em dois possíveis finais:
1. Edwin Drood não morreu, partiu covardemente por não tolerar a idéia de que ele levou um chute no traseiro daquela criatura que ele pensava não ter pensamentos próprios... era orgulhoso demais para aceitar o fato de que, depois de todos esses anos se preparando para carregar aquele peso, terminaria sem ela e sem o dinheiro da herdeira. Estaria provavelmente viajando pelas ilhas caribenhas, bebendo Piña Colada.

2. Se Edwin Drood realmente morreu, Helena Landless foi a culpada. Neville era aberto demais, falava o que pensava, e como diz o ditado: "Cão que late, não morde!" Todos sabiam o quanto os dois não se gostavam, mas Neville não teria sido capaz de matar Edwin. Helena, por sua vez, seria o assassino perfeito. Por várias vezes durante a história, Helena foi mencionada como uma mulher de personalidade forte, que mesmo parecendo frágil, era única pessoa que conseguia controlar o compartamento do irmão. O motivo? Ela sabia que Neville estava apaixonado por Rosa. Tornou-se a melhor amiga de Rosa, aos poucos conseguiu convercer a amiga de que casar com Edwin não era o que Rosa queria, Drood havia dito a Rosa que deixaria a cidade...


E vocês, o que acham?

"Suportei tudo isso em silêncio. Por todo o tempo em que foste dele, ou pelo tempo que eu pensei que foste dele, escondi meu segredo honradamente. Não escondi?" (pag. 206)

Saturday, January 22, 2011

Poema de Sábado

Do Belo

Nada, no mundo, é, por si mesmo, feio.
Inda a mais vil mulher, inda o mais triste poema,
Palpita sempre neles o divino anseio
Da beleza suprema...

(Mario Quintana,
do livro Espelho Mágico,
pág. 29)

Saturday, January 15, 2011

Poema de Sábado

Ontem recebi meus presentes de Natal do meu pai... demorou quase 2 meses para chegar mas eu não perdi as esperanças! Entre tantos livros e coleções de meus autores favoritos, recebi a coleção do poeta Amazonense Gaitano Antonaccio, e para minha surpresa, cada um dos 12 livros dele vieram autografados e carinhosamente dedicados a mim! Nem preciso dizer quão feliz e surpresa fiquei, nem consegui controlar as lágrimas pela honra de agora possuir suas obras, sabendo que Antonaccio sabe o quanto admiro suas linhas e poemas de amor.

Compartilho com vocês hoje o poema "Você é vida" que li pela primeira vez aos 14 anos de idade, quando tomei posse do meu primeiro livro de poesias do Gaitano Antonaccio - Estafas de Amor - e instantaneamente passei a ser admiradora. Gaitano, estou imensamente agradecida pela atenção e carinho.

Você é Vida

Você é qual a doce primavera
Desaparece, mas ressurge sempre
Mais bonita, mais excitante!

Mulher com voz de menina
Jeito de criança, vaporosa e ágil,
Trejeito de inocência na maturidade,
Fêmea com excesso de feminidade.

Sílfide alegre como as flores,
Esplendorosa como as estrelas,
Trepidante como as ondas, e,
Suave, como o andar das nuvens.

Possui a temperatura do sol
E a emoção de um imenso mar.

Espero que nessa paisagem confusa,
Você não esqueça o meu amor,
Porque amo mais você que a vida.

E você sem dúvida, é vida!...

Monday, January 10, 2011

Let the Right One In (John Adjive Lindqvist)

Esse livro foi escolha do BookClub para o mês de Novembro. Eu comprei o livro relutante para ler a história, havia visto o trailer do filme, o que já havia me desencorajado a ler - outro livro sobre vampiros! - e o filme parecia ser bem macabro - detesto filmes de suspense/terror -  por puro medo mesmo, noites sem dormir! rs.

Oskar é um adolescente rejeitado por seus colegas de classes, que o humilham e o espacam sempre que têm oportunidade. Acuado e sozinho, Oskar precisa arranjar um meio para externalizar suas frustrações e a raiva guardada dentro de si durante todos esses anos de rejeição. É durante uma das noites em que se mete no meio da floresta para descontar suas angústias em troncos de árvores que Oskar conhece Eli, a nova vizinha do apartamento ao lado.
"(...) Fará com que ele peça, implore por sua vida, grite como um porco, mas em vão. A faca terá as últimas palavras e a terra beberá o seu sangue. Oskar havia lido essas palavras num livro e gostou delas. A terra beberá o seu sangue." (pag. 22)
Enquanto a amizade de desenvolve, crimes acontecem em outras cidadezinhas próximas a Blackeberg. Adolescentes são encontrados mortos de maneira bizarra, cruéis. A mãe de Oskar, super protetora, controla os passos do filho, sem saber que o perigo mora, literalmente, ao lado.

Desde o início Oskar notou que Eli tinha algo de diferente. Usava o mínimo de roupa mesmo quando os termômetros marcavam temperatura abaixo de zero. Na primeira vez que encontrou Eli, havia um odor insuportável vindo da nova amiga. As janelas do apartamento da vizinha eram todas cobertas, Eli só aparecia a noite e nunca esclarecia que tipo de relacionamento tinha com Hakan, o homem com quem morava, que Oskar assumiu ser o pai. Fora que parecia tão madura e inteligente para uma menininha de 12 anos.

O livro não tem nada de assustador. O que me incomodou na história foi o fato de haver prostituição infantil e pedofilia. Os primeiros capítulos são nojentos, de mau gosto - fator nº 01 que excluído do filme. Quem assiste apenas o filme não consegue entender o que ELI realmente é, menino/menina/hermafrodita? E o livro explica como e quando Eli se tornou o que é - fator nº 02 excluído do filme. A leitura é crua, o vocabulário coloquial, vai direto ao ponto. As histórias paralelas do livro, que eu pensei que iriam levar a alguma conclusão no destino dos protagonistas, no final não têm nenhuma ligação com os mesmos, a não ser pelo fato de que Eli ou se alimentou, ou tentou se alimentar de um deles.

Eu não assisti o filme, mas de acordo com as minhas 2 companheiras que assistiram o filme - uma delas, Jéssica, foi a que escolheu o livro para o BookClub, o filme é melhor que o livro (uma exceção à regra!) por excluir da história aqueles momentos "Ah, que vergonha! e Ah, que nooojo!" - fatores 01 e 02 que citei anteriormente.

No final da história o leitor tem que fazer uma retrospectiva de todos os eventos para julgar e decidir quais os reais motivos por trás do último ato de Eli. Eu, particularmente, não vi o final cheio de romantismo. Pra mim, seus atos foram calculados. Eli fez o que fez porque não tinha mais Hakan para ajudá-la e logo, logo alguém precisaria alimentar aquela fera.

"Deixe alguém entrar e ele te machucará. Esse é um dos motivos pelo qual ela mantinha seus relacionamentos curtos. Não os deixe entrar. Uma vez dentro, eles têm mais chances de te machucar. Conforte-se. Conseguirás viver com a angústia contanto que a angústia seja só sua. Contanto que não tenha esperança." (pag. 220)

Sunday, January 9, 2011

Resumo do Ano - 2010

Cá estou eu, bem atrasada para compartilhar com vocês meu resumo do ano. 2010 foi um ano de novas experiências, BookClub continuou firme e não tão forte com essa vida corrida que todas nós levamos mas conseguimos assegurar algumas boas reuniões e algumas boa e não tão boas leituras.

Li 31 livros e desisti de 1 (escolha do Clube do Livro, todas nós desistimos porque não dava para forçar!).

01. Wuthering Heights (Emily Brontë)

02. Bloodsucking Fiends (Christopher Moore)

03. Storm Front (Jim Butcher)

04. O vendedor de Sonhos e a Revolução dos Anônimos (Augusto Cury)

05. A Cabana (William P. Young)

06. Love the one you're with (Emily Giffin)

07. Lua Nova (Stephenie Meyer)

08. Three Cups of Tea (Greg Mortenson & David O. Relin)

09. Anna Karenina (Leo Tolstoy)

10. Amar, verbo intransitivo (Mário de Andrade)

11. The age of Innocence (Edith Wharton)

12. Ciranda de Pedra (Lygia Fagundes Telles)

13. East of Eden (John Steinbeck)

14. As Três Marias (Rachel de Queiroz)

15. The girl with the dragon tattoo (Stieg Larsson)

16. Jacob's Room (Virginia Woolf)

17. Alice's Adventures in Wonderland & Through the Looking-glass (Lewis Carroll)

18. The Tale of Murasaki (Liza Dalby)

19. A tree grows in Brooklyn (Betty Smith)

20. Life of Pi (Yann Martel)

21. Girl with a pearl earring (Tracy Chevalier)

22. The Shadow of the Wind (Carlos Ruiz Zafón)

23. The Falls (Joyce Carol Oates)

24. Boom! (Mark Haddon)

25. The girl who played with fire (Stieg Larsson)

26. Clarice na Cabeceira (Clarice Lispector)

27. Captive (Clara Rojas)

28. Lost in Austen (Emma Campbell Webster)

29. Literacy and Longing in L.A. (Jennifer Kaufman & Karen Mack)

30. The curious incident of the dog in the night-time (Mark Haddon)

31. Let the Right One In (John Ajvide Lindqvist)

Não me arrependo e leria de novo!!! - Ficção: A tree grows in Brooklyn e ambos da Coleção do Stieg Larsson.

Não me arrependo e leria de novo!!! - Não-Ficção: Three Cups of Tea (Greg Mortenson & David O. Relin)

Preferia não ter lido!: Lua Nova (Stephenie Meyer)

Li mas não convenceu: Captive - "Eu, prisioneira das Farc"  (Clara Rojas)

Decepção: The Falls - "As Cataratas" (Joyce Carol Oates)

O melhor do ano: The Shadow of the Wind - "A sombra do Vento" (Carlos Ruiz Zafón)

E que venha 2011 e todas as suas surpresas de leitura!

Thursday, December 23, 2010

Final de Ano e afins

Gente do céu, eu abandonei meu blog completamente esse mês. Que vergonha!
Dezembro deve ser o mais corrido para todo mundo, ainda não consegui terminar de ler o livro escolhido para o BookClub de Dezembro - The Mistery of Edwin Drood, sendo que a primeira reunião já aconteceu (e nenhuma de nós conseguiu ler o livro todo) e a segunda reunião tá chegando e eu não estou nem na metade.

Mas eu amo Dezembro, amo essa época de Natal. Amo as casas decoradas, as luzes, o frio, a empolgação de todos, as comidas, a troca de presentes... é minha temporada favorita - "It's the most wonderful time of the year"...
E com Dezembro também temos a Feira de Natal do Charles Dickens, que já está virando tradição no BookClub. Esse é o segundo ano que participo, e como regra, temos que ler um livro do Charles Dickens para discutirmos durante a feira de Natal. Ano passado comentei com vocês aqui e aqui, esse ano levei comigo o marido e a enteada e foi muitíssimo bom. Compartilho a foto tirada com as minhas companheiras do Clube do Livro, nem todas estão aí porque não poderam comparecer.

E vocês, amam Dezembro também? Onde passarão o Natal? Em casa? Viajando?
Desabafem, compartilhem!

Friday, December 10, 2010

Aniversário de Clarice Lispector

Em 10 de dezembro de 1920 nascia Haia Lispector, nossa querida Clarice Lispector.
Nem preciso ser repetitiva e dizer o quanto gosto da Clarice, seus textos, a história da sua vida.
Clarice Lispector consegue colocar em palavras o que não conseguimos nem organizar em pensamento. Sua escrita introspectiva que vasculha fundo a problemática existencialista cativa seus leitores... quem consegue não gostar de Clarice?!

Então vamos deixar de blablabla e nos deliciar com um poema de Clarice...

Estrela perigosa


Estrela perigosa
Rosto ao vento
Marulho e silêncio
leve porcelana
templo submerso
trigo e vinho
tristeza de coisa vivida
árvores já floresceram
o sal trazido pelo vento
conhecimento por encantação
esqueleto de idéias
ora pro nobis
Decompor a luz
mistério de estrelas
paixão pela exatidão
caça aos vagalumes.
Vagalume é como orvalho
Diálogos que disfarçam conflitos por explodir
Ela pode ser venenosa como às vezes o cogumelo é.

No obscuro erotismo de vida cheia
nodosas raízes.
Missa negra, feiticeiros.
Na proximidade de fontes,
lagos e cachoeiras
braços e pernas e olhos,
todos mortos se misturam e clamam por vida.
Sinto a falta dele
como se me faltasse um dente na frente:
excrucitante.
Que medo alegre,
o de te esperar.

Saturday, December 4, 2010

Poema de Sábado

Music I Heard

Music I heard with you was more than music,
Música que contigo ouvi foi mais que música,
And bread I broke with you was more than bread;
E pão que contigo compartilhei foi mais que pão;
Now that I am without you, all is desolate;
Agora que sem ti estou, tudo é vazio;
All that was once so beautiful is dead.
Tudo que o dia bonito foi morreu.

Your hands once touched this table and this silver,
Tuas mãos um dia essa mesa e talheres tocou,
And I have seen your fingers hold this glass.
E teus dedos eu vi a segurar essa taça.
These things do not remember you, beloved,
Essas coisas não lembrar-te-ás, amada,
And yet your touch upon them will not pass.
E ainda assim teu toque neles ficará.

For it was in my heart you moved among them,
Pois foi em meu coração que por eles mover-te,
And blessed them with your hands and with your eyes;
Abençoando-os com tuas mãos e olhos;
And in my heart they will remember always,-
E em meu coração para sempre será lembrado,-
They knew you once, O beautiful and wise.
Que um dia te conhecemos, Oh sábia mais bela.

Conrad Aiken,  1889-1973