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Saturday, June 15, 2013

Poema de Sábado

Acredito que estava da 6ª série quando declamei esse poema numa peça da escola na semana do Meio Ambiente. Lembro que competi com um garoto pelo papel e ganhei porque consegui encenar e entonar melhor as frases do poema de Bandeira - vocês não tem noção da menina tímida que era! Memorizei cada linhazinha por mais de um mês e ensaiamos semanas e semanas para essa apresentação. Enquanto eu declamava Bandeira, meus colegas de classe se movimentavam pelo palco encenando, como se minhas palavras estivessem tomando forma bem ali, diante de mim e dos espectadores. Minha mão suada, minhas pernas tremendo, olhava para minha professora esperando o ok para começar. Comecei. Lembro vagamente de ver alguém sinalizando para eu levantar o microfone mais perto da boca. Recitei essas linhas tão intensamente, veio tão de dentro de mim que no final ajoelhei no chão ao dizer as últimas palavras... ''era um homem''. Esse poema vive comigo até hoje, tantas vezes durante esses mais de dez anos me peguei recitando essas linhas na minha mente e lembrando de alguém fazendo o gesto para levantar o microfone... e eu nervosa mas bravamente declamando Manuel Bandeira.

O bicho

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.


Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.


O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.


O bicho, meu Deus, era um homem.

Saturday, April 20, 2013

Poema de Sábado

In the Garret
No Sótão

(...)
Four little chests all in a row,
Quatro bauzinhos enfileirados,
Dim with dust, and worn by time,
Escurecidos com poeira, e gastos pelo tempo,
Four women, taught by weal and woe
Quatro mulheres, ensinadas por conforto e aflição
To love and labor in their prime.
A amar e trabalhar no seu auge.
Four sisters, parted for an hour,
Quatro irmãs, separadas por uma hora,
None lost, one only gone before,
Nenhuma perdida, uma apenas partiu antes,
Made by love's immortal power,
Feitas pelo poder do amor imortal,
Nearest and dearest evermore.
Próximas e queridas sempre.
Oh, when these hidden stores of ours
Oh, quando esses nossos segredos
Lie open to the Father's sight,
Abertos forem aos olhos do Pai,
May they be rich in golden hours,
Possam eles ser ricos  em momentos dourados,
Deeds that show fairer for the light,
Obras que se mostram mais juntas diante da luz,
Lives whose brave music long shall ring,
Vidas cuja música brava tocará por longo tempo,
Like a spirit-stirring strain,
Como um espírito que sacode a tensão,
Souls that shall gladly soar and sing
Almas que alegremente  planarão e cantarão
In the long sunshine after rain.
Pelos raios do sol depois da chuva.


Poema by Jo March, 
do livro Little Women (Louisa May Alcott), 
pags. 452-453

Saturday, April 13, 2013

Poema de Sábado

In the Garret
No Sótão

Four little chests all in a row,
Quatro bauzinhos enfileirados,
Dim with dust, and worn by time,
Escurecidos com poeira, e gastos pelo tempo,
All fashioned and filled, long ago,
Decorados e preenchidos, anos atrás,
By children now in their prime.
Por crianças agora no seu auge.
Four little keys hung side by side,
Quatro chavezinhas penduradas lado a lado,
With faded ribbons, brave and gay
Com laços desbotados, bravos e felizes
When fastened there, with childish pride,
Quando ali colocados, com orgulho de criança,
Long ago, on a rainy day.
Anos atrás, num dia chuvoso.
Four little names, one on each lid,
Quatro nomezinhos, um em cada tampa,
Carved out by a boyish hand,
Encravados por uma mão com jeito de menino,
And underneath there lieth hid
E lá embaixo jaz escondido
Histories of the happy band
Histórias da banda feliz
Once playing here, and pausing oft
Que um dia lá brincou, e pausando frequentemente
To hear the sweet refrain,
Para ouvir o doce refrão,
That came and went on the roof aloft,
Que vinha e ia no telhado acima,
In the falling summer rain.
Da chuva de verão que caía.

Poema by Jo March, 
do livro Little Women (Louisa May Alcott), 
pags. 450-451

Saturday, March 2, 2013

Poema de Sábado

LXVII  - Da felicidade

Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura,
Tendo-os na ponta do nariz!

Mario Quintana,
Espelho Mágico, pag. 47

Saturday, February 2, 2013

Poema de Sábado... para Valentina

Um retrato

Seus olhos grandes, redondos e pretos
Tempos depois ainda ficavam pregados na gente
Como botões...

Mario Quintana 
(A cor do Invisível, pag. 25)

Saturday, May 12, 2012

Poema de Sábado

Semana passada assisti The Raven, de James McTeige, com John Cusack. O filme fictício busca interpretar os últimos dias da vida de Edgar Alan Poe, que como sabemos, desapareceu por um certo período e foi encontrado poucos dias antes de sua morte, perambulando delirando e alucinando pelas ruas de Baltimore.

Em homenagem a Poe, escolhi um trecho do poema mencionado no filme... quem ainda não viu, corre, ainda dá tempo!

Annabel Lee

I was a child and she was a child,
Eu era uma criança e ela era uma criança,
In this kingdom by the sea:
Nesse reino a beira do mar:
But we loved with a love that was more than love—
Mas amávamos com um amor muito maior que amor—
I and my ANNABEL LEE;
Eu e minha ANNABEL LEE;
With a love that the winged seraphs of heaven
Com um amor que os anjos do céu
Coveted her and me.
Cobiçaram ela e eu.

(…)

The angels, not half so happy in heaven,
Os anjos, não felizes no paraíso,
Went envying her and me—
Decidiram invejar ela e eu—
Yes!— that was the reason (as all men know,
Sim!— esse foi o motivo (como todo homem sabe, 
In this kingdom by the sea)
Nesse reino a beira do mar)
That the wind came out of the cloud by night,
E o vento veio das nuvens a noite,
Chilling and killing my ANNABEL LEE.
Congelando e matando minha ANNABEL LEE.

(…)

For the moon never beams, without bringing me dreams
Porque a lua nunca brilha, sem trazer-me sonhos
Of the beautiful ANNABEL LEE;
Da bela ANNABEL LEE;
And the stars never rise, but I feel the bright eyes
E as estrelas nunca aparecem, sem que eu sinta os olhos brilhantes
Of the beautiful ANNABEL LEE;
Da bela ANNABEL LEE;
And so, all the night-tide, I lie down by the side
E assim, em toda a maré noturna, eu me deito ao lado
Of my darling—my darling—my life and my bride,
da minha amada—minha amada—minha vida e minha noiva,
In the sepulchre there the sea,
Naquele sepulcro a beira do mar,
In her tomb by the sounding sea.
No seu túmulo a ouvir o barulho do mar.



Saturday, April 14, 2012

Poema de Sábado

X. Mar Português


Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso,  ó mar!


Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa,
A mensagem, pag. 29

Saturday, March 31, 2012

Poema de Sábado

Ária para Assovio

Inelutavelmente tu
Rosa sobre o passeio
Branca! e a melancolia
Na tarde do seio.

As cássias escorrem
Seu ouro a teus pés
Conheço o soneto
Porém tu quem és?

O madrigal se escreve:
Se é do teu costume
Deixa que eu te leve.

(Sê... mínima e breve
A música do perfume
Não guarda ciúme.)

Rio, 1936

Vinicius de Moraes,
Nova Antologia Poética, pag. 14

Saturday, March 10, 2012

Poema de Sábado

Hoje é outro dia

Quando abro cada manhã a janela do meu quarto
É como se abrisse o mesmo livro
Numa página nova...

Mario Quintana,
A cor do invisível, pag. 21

Saturday, March 3, 2012

Poema de Sábado

Essa lembrança que nos vem

Essa lembrança que nos vem às vezes...
folha súbida
que tomba
abrindo na memória a flor silenciosa
de mil e uma pétalas concêntricas...
Essa lembrança... mas de onde? de quem?
Essa lembrança talvez nem seja nossa, 
mas de alguém que, pensando em nós, só possa
mandar um eco do seu pensamento
nessa mensagem pelos céus perdida...
Ai! tão perdida
que nem possa saber mais de quem!

Mario Quintana, 
A cor do Invisível, pag. 112.

Sunday, December 25, 2011

Natal

Natal... Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

Fernando Pessoa, 
A mensagem, pag. 88

Saturday, December 10, 2011

Poema de Sábado

Love

LOVE is anterior to life,
AMOR é anterior à vida,
Posterior to death,
Posterior à morte,
Initial of creation, and
Inicial à criação, e 
The exponent of breath.
O expoente de respirar.

Emily Dickinson,  
Emily Dickinson Poems, 
pag 192

Saturday, December 3, 2011

Poema de Sábado

Fosse o mundo um paraíso

Fosse o mundo um paraíso...
— paraíso de verdade! —
morrerias sem saber
o que é a felicidade...

Mario Quintana, 
A cor do invisível,
pag. 105

Saturday, November 26, 2011

Poema de Sábado

Hope
Esperança

HOPE is the thing with feathers
ESPERANÇA é essa coisa com penas
That perches in the soul,
Que se hospeda na alma,
And sings the tune without the words,
E canta o som sem as palavras 
And never stops at all,
E nunca nunca para,

And sweetest in the gale is heard;
E o mais doce na ventania se ouve;
And sore must be the storm
E ferida deve estar a tempestade
That could abash the little bird
Por confundir o passarinho
That kept so many warm.
Que aqueceu a tantos.

I've heard it in the chillest land,
Pude escutá-lo nas terras mais frias,
And on the strangest sea;
E nos mares mais estranhos;
Yet, never, in extremity,
Porém, nunca, no desspero,
It asked a crumb of me.
Pediu-me sequer um grão.

Emily Dickinson,  
Emily Dickinson Poems, pag. 80

Saturday, November 12, 2011

Poema de Sábado

Da perfeição da vida

Por que prender a vida em conceitos e normal?
O Belo e o Feio... O Bom e o Mau... Dor e Prazer...
Tudo, afinal, são formas
E não degraus do Ser!

Mario Quintana, Espelho Mágico
pag. 36

Saturday, October 22, 2011

Poema de Sábado

Canção de Outono

O outono toca realejo,
No pátio da minha vida,
Velha canção, sempre a mesma, 
Sob a vidraça descida...

Tristeza? Encanto? Desejo?
Como é possível sabê-lo?
Um gozo incerto e dorido
De carícia a contrapelo...

Partir, ó alma, que dizes?
Colher as horas, em suma...
Mas os caminhos do Outono
Vão dar em parte nenhuma!

Mario Quintana,
Canções, pag 31.

Saturday, October 15, 2011

Poema de Sábado

Upon Julia's Clothes
Sobre as roupas de Julia

Whenas in silks my Julia goes,
Enquanto em seda minha Julia se vai,
Then, then (methinks) how sweetly flows
Então, então (parece-me) quão docemente   flutua
That liquefaction of her clothes.
Aquela liquefação de suas roupas.

Next, when I cast mine eyes and see
Depois, quando bruscamente viro e vejo
That brave vibration each way free,
Aquela brava vibração  livre por todos os lados,
O how that glittering taketh me!
Oh  como aquele brilho se apropria de mim!

Robert Herrick, 1648
The Best Poems of the English Language,
pag. 158

Saturday, October 8, 2011

Poema de Sábado

Da discreta alegria

Longe do mundo vão, goza o feliz minuto
Que arrebataste às horas distraídas.
Maior prazer não é roubar um fruto
Mas sim ir saboreá-lo às escondidas.

Mario Quintana,
Espelho Mágico, pag. 30

Saturday, September 17, 2011

Poema de Sábado

Estafa de Amor

Sentir no coração correr em gotas
O suor intenso dessa igual paixão,
É imaginar, nesse amor, a imensidão
De muitas e muitas aventuras...

E sem parar de amar, te amando
É como se o mundo não adormecesse
E sem amanhã, sem noite, sem fim,
Amar sem nunca descansar do amor!

E incansavelmente amando, querida
Nem percebemos a estafa desse amor
E quando exausto, o coração gritou
Meu organismo explodiu em alegrias

É que no íntimo de nós dois amantes,
O vírus da paixão fertilizou a vida
E quando nossos corpos se encontraram
O amor, na sua magnificência se consolidou.

Gaitano Antonaccio, 
Só Amor Poesias, pag. 47

Saturday, August 27, 2011

Poema de Sábado

Soneto de Londres

Que angústia estar sozinho na tristeza
E na prece! que angústia estar sozinho
Imensamente, na inocência! acesa
A noite, em brancas trevas o caminho

Da vida, e a solidão do burburinho
Unindo as almas frias à beleza
Da neve vã; oh, tristemente assim
O sonho, neve pele natureza!

Irremediável, muito irremediável
Tanto como essa torre medieval
Cruel, pura, insensível, inefável

Torre; que angústia estar sozinho! ó alma
Que ideal perfume, que fatal
Torpor te despetala a flor do céu?

Londres, 1939

Vinícius de Moraes, Livros de Sonetos,
pag. 29