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Saturday, March 31, 2012

Poema de Sábado

Ária para Assovio

Inelutavelmente tu
Rosa sobre o passeio
Branca! e a melancolia
Na tarde do seio.

As cássias escorrem
Seu ouro a teus pés
Conheço o soneto
Porém tu quem és?

O madrigal se escreve:
Se é do teu costume
Deixa que eu te leve.

(Sê... mínima e breve
A música do perfume
Não guarda ciúme.)

Rio, 1936

Vinicius de Moraes,
Nova Antologia Poética, pag. 14

Saturday, August 27, 2011

Poema de Sábado

Soneto de Londres

Que angústia estar sozinho na tristeza
E na prece! que angústia estar sozinho
Imensamente, na inocência! acesa
A noite, em brancas trevas o caminho

Da vida, e a solidão do burburinho
Unindo as almas frias à beleza
Da neve vã; oh, tristemente assim
O sonho, neve pele natureza!

Irremediável, muito irremediável
Tanto como essa torre medieval
Cruel, pura, insensível, inefável

Torre; que angústia estar sozinho! ó alma
Que ideal perfume, que fatal
Torpor te despetala a flor do céu?

Londres, 1939

Vinícius de Moraes, Livros de Sonetos,
pag. 29 

Saturday, August 13, 2011

Poema de Sábado

Soneto de Florença

Florença... que serenidade imensa
Nos teus campos remotos, de onde surgem
Em tons de terracota e de ferrugem
Torres, cúpulas, claustros: renascença

Das coisas que passaram mas que urgem...
Como em teu seio pareceu-me densa
A selva oscura onde silêncios rugem

Que tristes sombras nos teus céus toscanos
Onde, em meu crime e meu remorso humanos
Julguei ver, na colina apascentada

Na forma de um cipreste impressionante
O grande vulto secular de Dante
Carpindo a morte da mulher amada...

Vinícius de Moraes, Livro de Sonetos

Sunday, January 30, 2011

Poema de Sábado (no Domingo)

Soneto ao Inverno

Inverno, doce inverno das manhãs
Translúcidas, tardias e distantes
Propício ao sentimento das irmãs
E ao mistério da carne das amantes:

Quem és, que transfigura as maçãs
Em iluminações dessemelhantes
E enlouqueces as rosas temporãs
Rosa-dos-ventos, rosa dos intantes?

Por que ruflaste as tremulantes asas
Alma dos céu? o amor das coisas várias
Fez-te migrar - inverno sobre casas!

Anjo tutelar das luminárias
Preservador de santas e de estrelas...
Que importa a noite lúgubre escondê-las?

Londres, 1939

(Vinícius de Moraes, do livro
 Livros de Sonetos, pag. 28)

Tuesday, October 19, 2010

Aniversário de Vinicius de Moraes

Em 19 de outubro de 1913 nascia Vinicius de Moraes. Pensando o que escrever sobre Vinicius, percebi que não há palavras que descrevam sua importância e seu talento... ele é excesso, é amor ao extemo, daqueles que se arrastam e choram rios de lágrimas, tudo por amor.

Quando o filme sobre ele foi lançado, lembro da voz de Tônia Carrero descrevendo Vinicius como "um camarada que viveu de paixões... Vinicius era capaz de tudo, qualquer baixeza para conquistar uma mulher" enquanto Adriana Calcanhoto canta "Eu sei que vou te amar, desesperadamente...", Vinicius é isso, é amor à moda antiga, amor sem limites, exagerado, desesperado!

Ternura

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora.

(do livro Nova Antologia Poética, pag. 20)

Saturday, September 4, 2010

Poema de Sábado

Conha e cavalo-marinho.

Pálpebras cerradas
Ao poder violeta
Sombras projetadas
Em mansuetude
Sublime colóquio
Da forma com a eternidade.

Conha e cavalo-marinho.

(Vinícius de Moraes,
Nova Antologia Poética,
pag. 82)

Saturday, June 26, 2010

Poema de Sábado

"Tédio bom, tédio conselheiro, tédio
          Da vida que não é
E para a qual há sempre bom remédio
          Do bar do "Rebelais"."

(Vinícius de Moraes, Nova Antologia Poética, pag. 200)

Saturday, March 6, 2010

Poema de Sábado

O escândalo da Rosa

Oh rosa que raivosa
Assim carmesim
Quem te fez zelosa
O carme tão ruim?

Que anjo ou que pássaro
Roubou tua cor
Que ventos passaram
Sobre o teu pudor

Coisa milagrosa
De rosa de mate
De bom para mim

Rosa glamourosa?
Oh rosa que escarlate:
No mesmo jardim!

(Vinícius de Moraes, Nova Antologia Poética)

Saturday, February 20, 2010

Poema de Sábado

A Rosa de Hiroxima

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.

(Vinícius de Moraes - Nova Antologia Poética, Companhia das Letras)

Saturday, January 30, 2010

Poema de Sábado

Hoje lembrei de Vinícius.... Vinícius de Moraes que embalou minha vida pré-adulta quando o coração é ainda é imaturo demais para diferenciar paixões e amores. Vinícius que embalava as páginas dos meus diários dando um toque de maturidade nos sentimentos que não conseguia expressar, como se as palavras saíssem de suas linhas como um soprar do vento... leve, simples...


Soneto do amor total

Amo-te tanto meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te enfim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

(Vinícius de Moraes 1913/1980)