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Wednesday, June 30, 2010

A tree grows in Brooklyn (Betty Smith)

Gente, terminei de ler esse livro ontem e, mesmo sendo a escolha do Bookclub para o mês de junho (e a reunião ainda nem aconteceu), tive que vir aqui comentar com vocês.

É a primeira obra que leio de Betty Smith, e agradeço muitíssimo a Nari por ter escolhido um livro tão rico para discussão.

A tree grows in Brooklyn, Uma árvores cresce no Brooklyn - Título oficial em português: Laços Humanos conta a história da família Nolan... mais precisamente de uma menininha chamada Francie, a filha mais velha de Johnny e Katie Nolan.

Os Nolan são uma família super pobre, ambos pais de Johnny e Katie vieram da Irlanda antes da Primeira Guerra em busca de uma vida melhor na América, fazendo do Brooklyn sua morada. Acontece que a vida na América não é o sonho que se desejava, o cenário é de miséria, fome, escassez de toda e qualquer forma mas não de união familiar.

"Francie achava que todos os livros do mundo estavam naquela biblioteca e ela havia planejado ler todos os livros do mundo. Ela estava lendo um livro por dia em ordem alfabética e nem mesmo pulando os livros secos. Ela lembrava que o primeiro autor foi Abbot. (...) Mas Francie era uma leitora. Lia tudo que achava: bobagens, clássicos, tabelas e lista de compras". (pag. 22)
Johnny é o galã que toda mulher desejava... Katie encantada com a voz de veludo e o charme do irlandês loiro de olhos azuis, rouba Johnny da amiga e os dois casam quando ela tem apenas 17 anos, e ele 19... a vida é dura, cheia de sacrifícios mas ali há amor... até que Katie engravida e Johnny não sabe lidar com o fato de que será pai mesmo ainda sentindo-se, ele mesmo, uma criança. É quando o vício do alcool bate à sua porta, acompanhando-o daí por diante.

Katie é figura materna e paterna para os filhos, ela é o esteio da família mas tem Neely como seu favorito. Johnny apesar de ausente, é adorado pelos filhos, principalmente por Francie... sua presença em casa é marcada por música, por belas canções, por compreensão... ele é a parte sensível, Katie o braço forte.

"(...) 'Eu bebo porque eu tenho responsibilidades que não posso suportar'. Houve uma pausa longa. Então ele sussurrou, 'Não sou um homem feliz. Tenho uma esposa e filhos e acontece que eu não sou do tipo que trabalha duro. Nunca quis uma família." (pag. 35)
Um ano após Francie, nasce Neely... Katie que já havia tomado as rédeas da família, trabalha em dobro, dia e noite limpando casas, escovando chão e ainda assim, mantendo a família junta, os filhos lendo um trecho da Bíblia e de Shakespeare cada noite... sim, porque Katie acredita que o futuro dos filhos apenas mudará se eles tiverem EDUCAÇÃO, foi esse o conselho dado por sua mãe Mary, que mesmo sendo analfabeta, buscou uma vida melhor para suas três filhas - Evy, Sissy e Katie, mesmo com a violência e machismo do marido Thomas.

"Educação! é isso! É educação que faz a diferença! Educação os colocará fora dessa vida de miséria e sujeira. Prova? A senhorita Jackson foi educada, a McGarrity não foi. Ah! Isso que Mary Rommely, sua mãe, tem tentado dizer todos esses anos. Só que sua mãe não soube usar a palavra clara: educação!" (pag. 207)
A história é encantadora, muito fácil de se identificar... muitas partes me deixaram arrepiadas e com lágrimas nos olhos, principalmente pela luta de Katie para que os filhos não sofressem o que ela sofreu, para que, através da educação, seus filhos tivessem uma vida melhor, com base para buscar novos caminhos... Francie e Neely foram os primeiros membros da família Nolan a receber um diploma de ensino fundamental... um orgulho que dinheiro nenhum pode pagar... e a faculdade? Será este um sonho possível?

A tree grows in Brooklyn é um livro que faço questão que meus filhos leiam e indico para pais e filhos... é uma obra maravilhosa, de uma intensidade e sensibilidade indescritíveis... de uma sabedoria popular e simples mas com uma profundidade ilimitada. Betty Smith entrou para minha lista de escritores favoritos e essa obra, particularmente, entrou para minha lista dos dez melhores!

A obra teve uma adaptação para o cinema, lançado em 1945, e virou musical na Broadway em 1951.

Wednesday, April 28, 2010

The Age of Innocence (Edith Wharton)

Escolha do Bookclub para o mês de abril, The Age of Innocence - A Época da Inocência, em português - ganhou o prêmio Pulitzer de Melhor Romance do Ano em 1921.

A história de The Age of Innocence começa em 1870 e tem a alta sociedade Nova Iorkina como ambiente. Wharton retrata tanto os conflitos particulares quanto o mundo exterior de seus personagens, seus papéis e influências na sociedade em que circulam, onde escolhas pessoais são restritas à classe e expectativas.

Existe uma tristeza constante nas entrelinhas, o leitor percebe desde o início que não é o indivíduo que controla suas ações e suas vontades naquele cenário, mas que ele é controlado pelas expectativas da sua família, pelo círculo social, e pelos padrões pré-estabelecidos.

Newland Archer e May Welland guardam a notícia do noivado para ser dada em momento oportuno mas a chegada da Condessa Olenska, prima de May, antecipa a notícia - a Condessa havia deixado o marido e a casa na Europa e voltado aos Estados Unidos, porque não mais aguentava aquele casamento sem amor e respeito. Era certo que a sociedade Nova Iorkina viraria as costas para a Condessa, afinal o lugar dela era ao lado do marido, não importa o quão ruim o casamento seja, há de se manter as aparências.

Outro detalhe é que os anos vividos em Paris transformam a Condessa em uma mulher européia, o que significa que ela tem idéias avançadas demais para a sociedade americana. Ela é independente, não segue padrões sociais, ela discute artes, música e literatura. Ela recusa ajuda financeira da família e do marido e mora em meio aos pobres. Ela vive a vida com a liberdade que muitas mulheres anseiam mas não têm coragem de assumir.

Quando a notícia do noivado de Archer e Welland vem à tona, a sociedade entende que a família Archer apóia a família Welland, a reputação de ambas continua intacta e a presença da Condessa é aceita. Até aí tudo bem, se não fosse pelo pequeno fato de que Newland e a Condessa se apaixonam... e é em torno dessa questão que a história se desenvolve... Newland Archer teria coragem de ir contra os preceitos sociais e assumiria seu amor por Olenska?

Através da narrativa de Wharton, o leitor percebe como valores são passados de geração para geração, como os filhos seguem os exemplos dos pais e copiam seus atos e comportamentos no futuro, e quão limitada e bitolada era a visão social da época, mas a vida real corre por baixo desse mundo de superfícies perfeitas.

Newland Acher acredita que May tem sua própria personalidade, que seus atos são baseados em suas próprias experiências, mas o casamento mostra que May é uma mera réplica da mãe e ainda pior, May não consegue quebrar a concha protetora em que vive, acredita que a sociedade é perfeita como é, que o mundo gira em torno do círculo social em que frequenta e dos amigos que convida para os jantares da família.

Aquela não era uma sociedade onde se apontava dedos, não havia acusações ou meia culpa. O conhecimento dos fatos era implícito. E o resultado para escândalos era educado, restrito, e devastador por dentro mas de cabelos perfeitos e as roupas impecáveis. Superficialidade.
"(...) e mais uma vez cresceu dentro dele a realidade de que casamento não é a âncora segura que ele foi ensinado a acreditar, mas uma viagem a mares desconhecidos" (pag. 36)

Geralmente as histórias têm um só climax mas The Age of Innocence tem vários, são tantos altos e baixos, tantos momentos em que o leitor pensa "é agora que a coisa vai!" e acaba não indo que no final eu comecei a achar que a história não tinha climax nenhum!

Alguns podem detestar o final, para mim foi frustrante logo que terminei e até mesmo quando discutimos o livro, mas analisando por outro ponto de vista não havia outro final possível, se Wharton tivesse terminado a história de um modo diferente não representaria a realidade daquele meio.

A história tem o final que deveria ter, mesmo com as mudanças e os avanços sociais e tecnológicos, o comportamento humano é inato e não se muda e Edith Wharton escreve com conhecimento de causa, uma vez que ela mesma viveu nesse círculo e sofreu na pele as limitações do código de honra social da época... o mundo pode mudar mas a mentalidade é a mesma!

"(...) Eu sempre digo a Ellen: Cuidado com a monotonia; monotonia é a mãe de todos os pecados mortais" (pag. 173)

Thursday, April 22, 2010

...

Sexta passada tivemos reunião do Bookclub, discutimos The age of Innocence da Edith Wharton que comentarei em breve.

Marcamos a reunião na Livravria Kepler's... uma livrariazinha charmosa no centro de Menlo Park, conhecida por sempre abrir espaço para escritores locais (da Bay Area ou californianos) fazendo lançamento de seus livros - alguns anos atrás essa livraria não aguentou a pressão da concorrência (Barnes&Nobles e Borders) e teve que fechar as portas... uma grande perda para a comunidade de Menlo Park e os viciados em livros. Em pouquíssimo tempo, as portas foram re-abertas graças a doações de moradores e empresas locais que até hoje contribuem financeiramente para manter a livraria aberta. Nós agradecemos!
Mas então... a atração da noite girou em torno do Christopher Moore que lançou recentemente Bite Me. Há alguns meses atrás eu comentei sobre Bloodsucking Fiends aqui, outra obra dele.

Achei no blog Estante de Livros uma lista dos livros dele em português (eu aqui só tenho em inglês, sorry!), eis aqui:

- Guia Prá­tico para Cui­dar de Demô­nios

 - Coyote Blue

- Blo­od­suc­king Fiends: A Love Story

 - Island of the Sequi­ned Love Nun

 - The Lust Lizard of Melan­choly Cove

 - Cor­deiro: O Evan­ge­lho Segundo Biff, o Amigo de Infân­cia de Jesus Cristo
 - Fluke, or, I Know Why the Win­ged Whale Sings

 - O Anjo Mais Estú­pido

- O Anjo estúpido 2

 - A Dirty Job

 - Minha Besta

- O Bobo

 - Bite Me: A Love Story

Christopher Moore lança Bite Me.
Mais um livro sobre vampiros - satirizando os vampiros, sejamos mais corretos! Uma de suas marcas é fazer piada com o que muitos levam a sério mas não é um humor negro, barato... é inteligente, faz rir sem ser forçado, e um detalhe que eu gosto em suas obras é que ele mistura personagens de outros livros seus, se o personagem encaixar na história nova ele põe no bolo - ele "contrata para o novo trabalho" como Christopher mencionou no lançamento de Bite Me, que por sua vez é a sequência do livro You Suck... Moore foi engraçadíssimo (como não poderia deixar de ser), super gentil e atencioso com todos... e eu saí de lá com  minha edição autografada!


Friday, March 26, 2010

Anna Karenina (Leo Tolstoy)

Ontem tivemos reunião do Bookclub para discutir Anna Karenina, a conversa foi super animada... com um livro tão extenso havia assunto de sobra para comentar.

Levin e Dolly foram os personagens que todas nós gostamos:
Dolly - apesar da sua situação, para nós representou a única mulher realmente forte na história. Ela não aceitava o comportamento de Oblonsky, sentia-se humilhada de certo, e até chegou a invejar a vida nova de Anna, mas sua família vinha em primeiro lugar, e logo percebeu que apesar da luxúria e aparente felicidade que Anna vivia, tudo não passava de superficialidade... tomou para si a responsabilidade de educar os filhos, tentou amenizar ao máximo os efeitos dos gastos excessivos do marido e, apesar de ter cedido algumas vezes, decidiu reinvidicar as finanças de suas posses. Sentimos que no final da história, sua personagem foi meio que deixada de lado, o que é uma pena.

Levin - é curioso compará-lo com seus outros dois irmãos... Levin é o menos sociável e supostamente, o menos inteligente de todos por não querer se envolver com os problemas sociais que aflingiam seu país ou até mesmo sua vizinhança. Por nunca ter tido uma família sua, desejava infinitamente aquele aconchego das relações íntimas familiares, pensava que sua felicidade seria plena após casar-se... infelizmente não é assim que a coisa funciona. O vazio que realmente ocupa espaço em Levin é o vazio de perguntas não respondidas... porque estou aqui? existe um poder supremo? porque as pessoas acreditam tão piamente em algo que não veem? existe Deus? porque religião? Levin é inexperiente e impulsivo, o que fica bem claro após seu casamento e as discussões bobas que trava com Kitty.

Kitty foi uma das personagens mais completas (na nossa opinião)... acompanha-se o seu desenvolvimento durante a história... de uma garotinha fútil, que não vê a hora de arranjar um marido, para uma esposa, madura, que toma as rédeas em situações extremas, ela tem uma força e um vigor que surpreende, apesar de parecer frágil.

O personagem mais autêntico é Oblonsky - tem uma auto-estima contagiante e um carisma como poucos, apesar de ser um pai e marido negligente e irresponsável. O interessante é que Oblonsky se aceita como é, tem ciência de suas raízes fracas, sabe que não pertence realmente a uma família tradicional aristocrática mas não se diminui por causa disso. Sabe que seu posto na sociedade, seu emprego, foi conseguido por influência de terceiros mas não se envergonha e toma vantagem da situação, é um cara-de-pau à moda antiga.

Anna Karenina foi detestada por todas nós. Beth e Carmen detestaram Anna desde as primeiras páginas. Concluimos que Anna nem é a personagem principal da história, mas é interessante acompanhar seu declínio social e moral no decorrer dos capítulos. Concordamos que Anna, na verdade, não chegou a amar Vronsky... o que ela amava era a idéia de estar apaixonada, de ter a liberdade de escolher com quem viver, com quem se relacionar. Respondendo a pergunta do questionário do livro:

"Divórcio e um novo casamento teriam ajudado Anna Karenina? Se Anna tivesse vivido em nosso tempo, sua história seria diferente?" Se Anna casasse com Vronsky não acreditamos que mudaria muita coisa, porque Vronsky deixou bem claro no início da história que um relacionamento sério não era para ele, ele era um homem do mundo, das festas, da farra. Eles seriam felizes no início (como foram nos primeiros meses do relacionamento), mas logo depois Vronsky se cansaria (como aconteceu) porque a mágica da conquista teria passado. Se Anna vivesse em nosso tempo mas tivesse a mesma mentalidade, sua situação não seria muito diferente. Lógico que ela teria a liberdade de se livrar de um casamento ruim, mas com a mesma mentalidade, ela não saberia o que fazer com sua liberdade.

O personagem mais fraco: Alexey Karenin. Ele é um personagem curioso porque apesar de ocupar um cargo de poder, onde toma decisões importantes por seu país, Karenin nunca toma nenhuma decisão em sua própria vida. Começando por seu casamento com Anna Karenina, que foi forçado pela tia dela. Daí, quando começa notar o romance entre Anna e Vronsky, prefere ficar calado e deixar as coisas acontecerem até que Anna confessa tudo. Com a desculpa de preservar sua posição social, Karenin permite que Anna continue seu affair com Vronsky e assim por diante. De certo que Anna arruinou a vida do marido, mas ele foi permissivo. Depois de Anna veio Lidya Ivanova... sempre alguém tomando as decisões por ele, Alexey era sempre coadjuvante da sua própria história.

Decepção: Tolstoy ter totalmente excluído da história a personagem de Varenka. Se não desenvolveria o resto da história dela, porque colocá-la na história então? Deixou uma grande interrogação, até porque era um personagem com conteúdo, tinha uma história de vida interessante... fora que a situação com o irmão de Levin foi frustrante... teria feito mais sentido ter continuado a história dela com Sergey do que ter apagado ela do livro, como se nunca tivesse existido.

Se quiser ler meus primeiros comentários sobre a obra, clique aqui.
Para saber mais sobre a vida de Tolstoy, clique aqui.

* Livro da Lista Rory Gilmore.

Monday, February 8, 2010

Bloodsucking Fiends (Christopher Moore)

Segundo livro escolhido por Beth para Janeiro para o Bookclub!

Outro livro sobre vampiros, esse envolve apenas os seres bebedores de sangue com uma pitada de muito bom humor e uma história de amor.

Thomas Flood muda de Indiana para San Francisco para tentar a vida de escritor. Pega a estrada com seu carrinho mais-velho-que-o-vovô que pifa logo que chega a Chico City e é ajudado por um misterioso chinesinho que cruza seu caminho e  oferece um quartinho barato por $50 por semana... com a ajuda do Imperador de San Francisco, consegue um emprego no Safeway, uma rede de supermercados, para o turno da madrugada e logo se junta aos Animais (o grupo de colegas de trabalho). Com as manhãs e tardes livres, escrever não será difícil!

Por um acaso do destino ele esbarra em Jody que há poucos dias havia sido atacada, transformando em vampira e recebido uma considerável quantia em $$ do vampiro mordedor... Ela precisava de ajuda para sobreviver na nova vida, sem condições de sair durante o dia, precisava de alguém que a ajudasse no seu período de hibernação. Ele precisava desesperadamente de um lugar decente para morar (uma vez que os chineses ilegais com quem dividia o quarto o estavam cortejando buscando um casamento para conseguir o desejado greencard - afinal San Francisco não é conhecida como a cidade dos homos?).

Meio que sem querer querendo os dois começam um relacionamento... Ele com a certeza de que teria o coração partido já imagina as histórias que escreverá em virtude da desilusão amorosa que sente estar a caminho, o fato de Jody ser uma vampira não o incomoda - há namoradas que usam drogas, outras que fumam... a dele bebe sangue e dorme o dia inteiro, fazer o quê? Esse pequeno detalhe é quase nada comparado com o imenso prazer carnal que Jody o proporciona... afinal vampiros são conhecidos por sua sexualidade, não é? E o pobre Thomas que nunca teve uma mulher na vida, sente-se no paraíso!

Um corpo escondido no freezer vira amigo-confidente de Thomas. Jody vira cobaia de Thomas que tenta comprovar se as teorias sobre vampiros que lê em livros são verdadeiras ou falsas. O vampiro centenário que mordeu Jody brinca de esconde e esconde com ela. O Imperador de San Francisco vira caçador de vampiros e tenta desvendar os crimes que vêm acontecendo, a polícia segue suas próprias pistas, e por aí vai.

Christopher Moore é um dos autores mais cômicos que já li e faz sátira do que muitos deixariam passar despercebido, quem lê Bloodsucking Fiends realmente não se entendia... eu que não sou fã de livros vampirescos gostei da história porque Moore tem um humor inteligente e não há nada como um escritor que te faz rir com tiradas simples e inteligentes. Outro fato que me prendeu à história foi a familiriaridade com o cenário, é o segundo livro que leio que tem a Bay Area como cenário e a história fica tão mais envolvente quando você reconhece o ambiente que o autor menciona, eu amo!

Christopher Moore é autor de onze livros, nasceu em Ohio, mudou para Califórnia aos 19, já teve as mais variadas profissões - de garçom à corretor de imóveis, de auditor de hotel à DJ e todas suas experiências são refletidas em seus personagens. Hoje como escritor, divide sua vida entre San Francisco e Hawaii. Para saber mais sobre o autor e suas obras, visite o site Christopher Moore

Monday, January 18, 2010

Storm Front (Jim Butcher)

O interessante de participar de um Bookclub é que você convive com pessoas de gosto totalmente diferente do seu. Somos 5 meninas (Beth, Andrea, Sami, Nari e Ju - eu), todas fanáticas por livros, todas com suas bibliotecas particulares que refletem suas preferências, todas com opiniões formadas sobre o que gostam e o que não gostam de ler e todas abertas para respeitar a opinião alheia - caso contrário, fugiríamos de Bookclubs. Um Bookclub te tira da tua zona de conforto. Ponto.

Beth gosta de livros de Scifi - sua biblioteca reflete isso - livros de Bruxas, Vampiros, Lobisomens... sobrenaturais, estão por toda parte e ela os devora com intensidade e prazer (porém seu gosto não se restringe a eles, ela também tem uma certa queda por clássicos). Por essa razão ela escolheu Storm Front do Jim Butcher para a nossa reunião de 15 de janeiro.

Storm Front, ainda não traduzido para o português, é o primeiro livro da série Dresden Files (12 livros no total), lançado em 2000 e que já rendeu uma série de TV americana (cancelada na segunda temporada).

"Meu nome é Harry Blackstone Copperfield Dresden. Não me responsabilizo pelo que acontecerá se pronuncia-lo por completo. Sou um mago. Trabalho num escritório no centro de Chicago. Pelo que sei, sou o único mago profissional que pratica abertamente no país" (pag. 2)
Dresden trabalha como detetive particular mas também  presta serviços para a Polícia de Chicago, tentando desvendar crimes incompreensíveis à razão humana. Na última semana, corpos foram encontrados com seus corações esfacelados, como se tivessem explodido - ela, uma prostituta do bordel Velvet Room - cujo proprietário é a vampira Bianca. Ele, Tommy Tomm, um dos homens de Johnny Marcone - conhecido e poderoso chefe do crime da cidade.

Dresden acredita que um mago super-hiper-ultra poderoso tenha sido responsável pelo crime, mágica estaria sendo usada para o mal - magia negra. Precisava descobrir o autor dos crimes e o motivo. Tudo seria mais fácil se o White Council (O Conselho Branco - um tipo de associação dos magos/bruxos/feiticeiros) não estivesse desconfiando do próprio Dresden e apontado Morgan para vigia-lo.

"O modo como um homem usa sua mágica demonstra que tipo de pessoa ele é, o que está escondido lá no fundo do seu ser" (pag. 291)
Uma nova droga circula pela cidade, chamada de ThreeEye (Terceiro Olho), dentre os efeitos alucinógenos estava a possibilidade de ver o terceiro mundo, aquele que se vê quando as máscaras caem dos olhos, o mundo sobrenatural.


Haveria alguma ligação entre os crimes e a nova droga?
"Mágica não deve ser usada pra isso. Não foi criada pra isso. Mágica veio da própria vida, da interação da natureza e dos elementos, da energia de todas as coisas viventes, e especialmente das pessoas" (pag. 291)
Ficção científica não agrada meu gosto literário mas li Storm Front com a mente aberta. A história é batida mas envolvente, não posso negar.

Dresden é engraçado, as mulheres são seu ponto fraco e, na minha opinião, o ponto alto da história é exatamente o lado cômico da coisa quando ele descreve o que vê e sente quando olha para uma mulher, não pode ver um rabo de saia, é mago mas não deixa de ser homem, mas no final não pega ninguém - cachorro que late não morde né!?
"(...) havia alguma coisa nela que atiçava meu motor, alguma coisa na maneira que ela inclinava a cabeça ou formava suas palavras que transpassava meu cérebro e ia diretamente para os meus hormônios" (pag. 126)
Mister é o gato (um mago com um gato, que clichê!) e tem Bob como "computador", um espírito centenário e mulherengo que vive em um crânio num laboratório de Dresden, e que guarda as receitas para suas poções mágicas. É, porque Dresden tem certa aversão à tecnologia, tudo entra em pânico quando ele se aproxima... elevadores são seus maiores inimigos.


"Sou leal às coisas simples, a lareira, minhas velas e lamparinas" (pag. 89)
O que também gostei na história é que Butcher foi tradicional aos fatos que já conhecemos sobre vampiros, magos, feiticeiros, bruxos, demônios, etc., não tentou inventar ou recriar novos padrões (como Christopher Moore em Bloodsucking Fiends). Outra coisa que me encanta nos livros de autores americanos (ok, ok os britânicos, os russos e até os irlandeses também fazem isso) é que eles sempre dão incentivo à leitura nas entrelinhas de suas histórias, não importa o gênero.

Como esse foi o primeiro livro lançado e Butcher não estava certo se a história seria um sucesso, ele colocou todos os elementos que podia: fadas, elfos, demônios, bruxos, vampiros, etc, etc... é uma mistura louca, mas de acordo com a história, estão todos interligados, são parte do mesmo mundo, mas não se pode negar que deixa a história bastante carregada. Porém, Jim Butcher sabe muitíssimo bem como prender o leitor, tem um talento incrível como contador de histórias e uma imaginação extremamente fértil.

Provavelmente esse é o único livro da série que lerei, apesar de eu ter devorado o livro em 2 dias (são 305 páginas) essa coisa supernatural continua não me atraindo... prefiro as imensas possibilidades do mundo real, especialmente se vier em vestidos de época e o charmoso sotaque inglês...

Quer saber mais sobre o autor? É só visitar o site do próprio: Jim Butcher

Monday, January 4, 2010

Her fearful symmetry (Audrey Niffenegger)

Escolha do BookClub para o mês de dezembro!

Acho que foi a primeira vez que as 5 integrantes do meu BookClub tiveram uma decisão unânime sobre um livro. Cheguei na reunião com aquele friozinho na barriga - será que fui a única a não gostar? Vou guardar meus comentários pro blog, talvez eu não deva ser tão crítica! - bem, nem precisei esperar 10 segundos para começar a ouvir as reclamações.

Quando terminei de ler o livro veio aquele alívio de: finalmente me livrei desse peso! Falei pro marido - um dos piores livros que já li. Não é como o caso de alguns livros que parei pela metade (Ecce Homo - Nietzche, e Os imãos Karamazov - Dostoyevsky) que desisti não porque a história não era boa, mas porque filosofia não é meu interesse e me cansa (Ecce Homo) e excessivo apelo ou crítica a religião não me atrai, fora a linha descritiva exacerbada (Os irmão Karamazov).

Her fearful symmetry foi super esperado e tinha tudo pra ser sucesso, e era o que os fãs esperavam de Niffenegger após o The Time Travaler's Wife - A esposa do viajante do tempo (resenha aqui). Porém a história fell short como disseram muitos.

Na minha opinião é uma história sem apelo, que no final eu não acreditei ter sido escrito pela mesma autora, é como se ela tivesse centenas de idéias e decidiu jogar tudo na panela e virou sopa de letrinhas com alfabeto chinês!

E o que a história aborda, então?

Edie e Elspeth são irmãs gêmeas nascidas em Londres, que por algum motivo romperam relações... Edie mudou para os EUA com o marido Jack e teve 2 filhas gêmeas (Júlia e Valentina, agora com 20 anos) - Elspeth não casa mas tem um romance "moderninho" com Robert, o guia do cemitério Highgate.

A história já começa com a morte de Elspeth, vítima de leucemia aos 44 anos, e nas próximas páginas a autora tenta criar o mistério em torno do rompimento das irmãs - Jack era noivo de Elspeth mas fugiu com Edie para os EUA, onde se casaram - Não se enganem queridos leitores!!!

Ao morrer, Elspeth deixa seus bens para as sobrinhas (que nunca viu na vida!) com uma pequena condição: Jack e Edie jamais poderão pisar no ap, nem desfrutar da fortuna em dindim. Nem preciso mencionar que a cláusula despertou a curiosidade das sobrinhas né? Que até então nem sabiam que tinham uma tia.

"Elspeth? (...) Como vou conseguir viver sem você? O problema não era o corpo; o corpo dele sobreviveria normalmente. O problema estava na palavra como: ele viveria, mas sem Elspeth o sabor, a maneira e o modo de viver estavam perdidos para ele. Ele teria que re-aprender a solidão". (Robert - Pag. 15)

As gêmeas tomam posse da herança em 1 ano, quando mudam para Londres - o apartamento fica num prédio de 3 andares próximo ao Cemitério Highgate - e são esses os cenários da história basicamente:
1º andar mora Robert, ainda de luto pela morte da namorada, evita conhecer as gêmeas;
3º mora Martin, o único personagem realmente interessante na história (opinião pessoal!);
2º andar é o herdado pelas gêmeas... mas alguém espera por elas no apartamento - Elspeth, ou melhor, o fantasma de Elspeth que está preso ao lugar onde ela mais passava tempo -  no início ela era apenas uma bolinha, mas ganha força com o tempo e aos poucos vai se materializando (transparentemente - existe isso?!) e aprendendo as táticas fantasmagóricas - acender luzes, mover folhas de papel, portas, etc., até que um dia consegue escrever uma mensagem num piano empoeirado e a comunicação Julia/Valentina/Robert x Elspeth começa.

Quem assistiu o filme Ghost - do outro lado da vida e Sexto Sentido, percebe que a autora copiou várias idéias de lá (assim como Patrick Swayze, Elspeth perambulava pelo ap tentando ser notada, aqui com a desvantagem que ela não conseguia sair do ap). A idéia de que fantasmas deixam o ambiente frio, quando você se arrepia é porque um fantasma está perto. E o final me fez lembrar de À espera de um milagre (mas aqui não direi o porquê!)

Ninguém a ouvia, a comunicação era feita através da OUIJA - aquele da brincadeira com o copo!
Ok, falemos das sobrinhas...
Eram chamadas de gêmeas-espelho, ou seja, Valentina era fisicamente o inverso de Julia... o sinal no rosto direito de Julia era no esquerdo de Valentina (pag. 34). Os órgãos de Valentina também eram invertidos. Julia era a mandona, a 6-minutos-mais-velha, dominadora e curiosa. Valentina era a frágil, doente, submissa mas cativante. No início a proximidade das duas encanta, que pai não quer as filhas super amigas? Mas aos poucos vira opressivo, percebe-se que é mais parasitismo que simbiose.

Julia faz Valentina seguir todos os seus passos, desistiu de várias faculdades, nunca quis procurar um emprego, não tinha planos para o futuro, e fazia a coitada da Valentina fazer o mesmo. A coisa piora quando Valentina engata um romance com Robert. Não suportando a idéia de ser colocada em segundo plano, cobra atenção absoluta da irmã. Valentina se sente sufocada (quem não se sentiria?) e busca sua indenpendência a todo custo e desabafa com a tia-fantasma, Elspeth.

Elspeth não estava feliz com o relacionamento de Valentina e Robert, fantasma também sente ciúmes (claro! Elspeth descreve a vida após a morte como solitária, chata, fria, vazia. Faria qualquer coisa para voltar à vida e ter Robert de volta - qualquer coisa! - isso dá alguma dica????).

A maneira que a história acaba, para mim, deixou os personagens sem propósito, além do fato de que eles nem foram desenvolvidos adequadamente, com exceção de Martin - como mencionei, o único personagem interessante da história - o querido Martin era o autor de palavras-cruzadas para jornais e revistas e sofria de TOC, daqueles que têm mania de limpeza, lavando as mãos o tempo todo com água sanitária até sangrar, que nunca deixa o apartamento por medo de ser contaminado com a sujeira do mundo, passa horas tomando banho e limpando a casa. Sua esposa Marijke o abandona um pouco antes da chegada das gêmeas, parte para Amsterdã.

O relacionamento à distância dos dois, pra mim, é um dos pontos altos da história. O estranhamento pelas peculiaridades da doença, a força de vontade de Martin, a ajuda de Julia, a perseverança de Marijke, fazem o leitor torcer para Martin vencer os desafios do TOC - se o livro fosse sobre a vida de Martin seria muito mais interessante!

Os pontos positivos: nunca imaginei que houvesse um cemitério tão cheio de História como o Highgate e isso foi bem abordado pela autora, Karl Marx é um dos famosos por lá enterrado, fiquei até curiosa pra visitá-lo quando for a Londres. Também gostei muitíssimo dos diálogos super cabeça de Martin e Marijke em outros idiomas, que vai do alemão ao português (sim, o nosso!).

Em fim, as idéias foram fracas e amadoras - para não dizer pobres!
Bem decepcionante para os que amaram "The Time Traveler's Wife".

Obs: Comentários contrários são bem vindos, não se acanhe se gostou do livro e não concorda comigo!
Resenha do New York Times (em inglês)

Tuesday, December 15, 2009

A Christmas Carol (Charles Dickens)

Visitei a Feira de Natal do Charles Dickens em San Francisco no último domingo. Não poderia ir a feira sem ter lido um dos contos de Natal escrito por ele, por isso (e porque esse foi um dos livros escolhidos pelo Clube do Livro do qual faço parte). A feira foi impressionante, muitos visitantes foram vestidos à caráter, com roupas de época e ainda tentando falar com sotaque britânico. Nunca vi tanta gente tão envolvida com a preparação de uma feira. Merece aplausos!

A Christmas Carol (Um cântico de Natal, em português) conta a história do Sr. Scrooge, um velhinho avarento, rancoroso, mal-humorado e que não tem interesse algum no Natal, Humbug é a expressão que marca dua falta de humor. Desdenha de todo o alvoroço feito pelas pessoas quando chega essa época e solta os cachorros em cima de seu empregado, Bob Cratchit, por usar o Natal como desculpa para ser pago sem trabalhar.

Enquanto todos celebram o Natal, Sr. Scrooge (após recusar o convite do único sobrinho, Fred para ceiar com a família) tem seu jantar sozinho e vai para cama.
"Feliz Natal! Que direito tu tens de ser feliz? Que razão tens para ser feliz? Tu és pobre." (pag. 4)
O que ele não espera era a visita do fantasma do seu parceiro de trabalho, Marley, morto há sete anos, na noite de Natal.


Marley veio para aconselhar Sr. Scrooge a mudar sua atitude, sem muitas explicações diz que o amigo receberá a visita de 3 fantasmas. A princípio Sr. Scrooge pensa ser um sonho, depois trata a situação com ironia e comicidade.

"É requerido de cada homem," diz o fantasma, "que o espírito que nele há perambule entre os homens, e viaje longe e vastamente; e se esse espírito assim não progride na vida, ele é condenado a fazer após sua morte (...) Condenado a perambular pelo mundo e testemunhar o que não pode compartilhar, mas que provavelmente compartilharia em vida e seria feliz!" (pag. 15-16)

O espírito de Marley viaja incessantemente por todos esses anos "um descanso sem paz, incessante tortura do remorso". Em vida seu espírito nunca foi além do estreito limite de seu trabalho com Contador "sem saber que nenhum arrependimento pode consertar o mal uso de uma oportunidade perdida". (pag. 17)

Primeiro Fantasma - Fantasma do Natal Passado:
Faz uma retrospectiva do passado do Sr. Scrooge, levando-o à sua infância, percebe-se que a família de Sr. Scrooge nunca deu muita importância ao Natal, se não fosse por sua irmã, a pequena Fan, Scrooge passaria muitos dos Natais sozinho na escola.

Segundo Fantasma - Fantasma do Presente:
O fantasma mostra a Scrooge o que as outras pessoas estão fazendo na noite de Natal, enquanto Scrooge prefere ficar sozinho em sua casa, seus conhecidos celebram o Natal. Sr. Scrooge vê a casa de seu empregado Bob, apesar de ser pobre, a família se reune e prepara um bela ceia com os recursos que têm, celebrando a união e a vida de pequeno Tim (filho mais novo de Bob que sofre de paralisia) - Bob ainda menciona o nome do patrão, com uma certa compaixão.
Sr. Scrooge também tem a oportunidade de ver o Natal na casa de seu único sobrinho (filho da pequena Fan)... estão todos reunidos felizes, unidos, o sobrinho lembra do tio e diz sentir por ele não estar lá celebrando com eles, a noite termina com um animado jogo - deixando Scrooge cheio de remorso e desejando estar lá.
A felicidade está presente em todos os lares visitados naquela noite.

Terceiro Fantasma -Fantasma do Futuro:
Sr. Scrooge treme ao ver o fantasma, é o único que não conversa com Scrooge, vem vestido de morte. Mostra a Sr. Scrooge o futuro que o espera, caso morra vândalos saquearão seu sepulcro, roubarão os bens que Sr. Scrooge passou tantos anos acumulando, poucos falarão de sua morte, comentarão como um fato corriqueiro, logo será substituído e esquecido, o pequeno Tim por falta de maiores recursos sucumbe à sua doença, sua morte deixa Bob totalmente desolado. Sr. Scrooge questiona o fantasma, quer saber se ainda há tempo para mudança, se aquele homem no sepulcro é ele mesmo, mas nada lhe é respondido.

Quando Scrooge acorda, parece que anos se passaram mas ele realiza que não foi nada mais que algumas horas. Seu coração transformado busca ação imediata. Scrooge é um outro homem e corre contra o tempo para celebrar o Natal e abençoar a ceia de muitos outros.


"Estou leve como uma pena, feliz como um anjo, tão feliz quanto um garotinho.Estou tão fútil quanto um bêbado. Um feliz Natal a todos! Um Feliz Ano Novo ao mundo inteiro! Ei aí! Olá! Hello!"