De tanto ouvi falar das controvérsias de Emma Bovary e a polêmica do real intuito de Flaubert ao escrever a história, decidi ler o livro e tirar minhas próprias conclusões.
Madame Bovary... por onde começo?
A história começa e termina com a vida de Charles Bovary. Charles foi, desde criança, average! Nunca foi o melhor, também não era o pior. Aquele sempre em cima do muro. Introvertido, na média, foi acostumado desde pequeno a ser mandado, a obedecer, a nunca tomar decisões por si, cresceu solto pelos campos do interior, enquanto as outras crianças estudavam, Charles perambulava.
O pai, Sr. Bovary, quase sempre bêbado, pouco se importava com educação, nunca se deu o trabalho de enviar o filho a escola, o que só acontece quando Charles completa 12 anos, e por causa dos arranjos da mãe, Sra. Bovary, a grande incentivadora, nunca desistiu do sonho de ver o filho ser alguém. O caráter de Charles é compreendido em seu primeiro dia de aula, atrapalhado e tímido, a professora pergunta seu nome: Charbovari.
Quando Charles entrou para a escola de Medicina (antes mesmo de terminar os estudos básicos) fica evidente sua ignorância, dos livros pouco compreendia, não importa o quão atento tivesse, não entendia patavinas das aulas assistidas. Levou a sério no início, até gazetar a aula prática no hospital, no próximo dia outra aula... Não mais voltou.
Com o esforço da mãe, Charles volta ao estudo e termina a faculdade para virar um médico medíocre de uma cidadezinha do interior. A mãe decide que o filho precisa casar. É ela quem encontra a esposa, a viúva de um oficial de justiça, feia e magra, de 45 anos e boa pensão.
Conhece Emma quando presta serviços ao pai Sr. Rouault de Les Bertaux, que havia quebrado a perna. Emma Rouault, uma adolescente do interior educada em colégio de freiras, a mãe falecera há 2 anos, governa a fazenda do pai, que Charles acreditava ter posses. Pouco conhece do mundo e do pouco que conhece, aprendeu lendo livros - romances, para ser mais precisa. Achava Charles inteligente, por ser médico e por ler. Charles, encantado pela beleza, doçura, inteligência e elegância de Emma, não consegue esconder seu interesse pela jovem, Sr. Rouault vendo em Charles um bom pretendente para a filha, tenta mantê-lo por perto.
A esposa de Charles, enciumada pelas frequentes visitas do marido a Les Bertaux mesmo após a recuperação do paciente, aumenta as reclamações em relação a sua saúde, morre algum tempo depois e em menos tempo ainda acontece o casamento de Emma e Charles.
O desencanto de Emma acontece nos primeiros meses de casada. Charles era completamente apaixonado e encantado pela esposa, admirava tudo em Emma, que por sua vez começou a criar uma aversão e antipatia pelo marido. Imaginava a vida de casada como um romance, cheio de aventuras e emoção, perguntava-se se não teria um meio, por chance do destino, de conhecer um outro homem e imaginava-se nesses eventos irreais, nessa vida diferente, com esse marido que não conhecia, como seria? Nenhum deles se parecia com o marido que tinha.
"Meu Deus, porque casei?" (...) Mas sua vida era tão fria
quanto um sótão exposto ao lado norte, e tediosa, aquela aranha silenciosa fazia teias em cada canto escuro do seu coração" (Pag. 63).
Responsável pelas finanças do marido, Emma aproveita-se da posição para tentar aliviar seu tédio e rotina, muda o estilo do cabelo por diversas vezes, faz assinatura de revistas de moda francesas, compra vestidos da moda, chales, lenços, livros e livros (romances), decide aprender italiano, compra dicionários, gramáticas. Tenta ler livros mais sérios, História e Psicologia. Redecora a casa, o guarda-roupa de novo. Toda bem vestida, as vezes passava a dia inteiro sentada no sofá... fazendo nada. Quando Charles é convidado para um jantar na casa do Visconde, Emma sente, pela primeira vez, o gostinho da corte francesa. O luxo, a pompa, a elegância dos vestidos e da maneira das mulheres ali presentes... sente inveja daquela vida, é isso o que quer pra si. Lembra daquela noite por dias e dias, desejando reviver aquele momento, mas logo sua vida volta ao tédio de sempre. Anos se passam e Emma não dá a Charles um herdeiro.
Charles considera Emma uma esposa perfeita, sempre elegantemente vestida, cheirosa, a casa e o jantar bem servido... quando nota a mudança de atitude de Emma, acredita que a esposa esteja doente, chora, escreve e pede pela companhia da mãe. Sra. Bovary o aconselha a ser pulso-firme, acredita que os livros contaminam os pensamentos de Emma.
"Lendo novelas, livros demoníacos, livros contra
religião em que eles fazem graça de pastores e citam Voltaire (...) Uma pessoa sem religião sempre acaba mal." (pag. 133)
Decidem mudar de cidade, novos ares (segundo Charles) farão bem para a saúde da esposa. Charles aceita emprego em Yonville, Sr. Homais, o farmacêutico da cidade corre risco de ter sua licença cassada por estar atuando como médico sem permissão. Emma está grávida.
Homais é tudo o que Charles não é, corajoso, inteligente e sempre em busca de novos conhecimentos, ler compulsivamente e escreve uma coluna para o jornal Rouen Beacon. Está sempre atualizado com as novidades científicas. Imagino Homais como um homem hiperativo, daqueles que não consegue para quieto e se parar, sua mente está a milhões por hora.
Emma conhece Léon, estudante de Direito, apaixonado por Literatura e Paris, tornam-se amigos inseparáveis. Léon logo fica atraído por Emma que finge não saber dos sentimentos do amigo. Admira Léon, fisicamente ele (também) é tudo o que Charles não é, veste-se bem, é elegante, inteligente, bonito, ama ler, mas não acredita estar apaixonada por ele... "Amor, acreditava ela, deveria chegar com tudo ao mesmo tempo com trovões e relâmpagos (...) e mergulhar o coração inteiro num abismo... Ela não sabia que a chuva cria lagos no telhado de uma casa quando a calha está obstruída, e ela continuou segura em sua ignorância até encontrar uma rachadura na parede" (pag. 111)
Por vezes imagina como seria ter um amante, e orgulha-se disso, quer se sentir desejada por outros homens. Arruma-se e perfuma-se para encontrar Léon, ler livros pensando em discuti-los com Léon. Estão sempre juntos, quando não se encontram no restaurante, encontram-se na casa de Emma, com a desculpa de que Léon veio visitar Berthe (a filha de Emma e Charles) despertando comentários (e fofocas) dos outros moradores da cidade. Charles nunca desconfia. Léon torturava-se a planejar um modo de declarar seu amor por Emma, já não conseguindo esconder seus sentimentos e por temer não ser correspondido, Léon decide partir para Paris.
Emma já não toma conta da filha, passa seus dias reclusa em seu quarto, lendo seus livros... começando e deixando-os pela metade. Novamente passa a gastar o dinheiro da família renovando seu guarda-roupa, renovando a casa com o que vê nas revistas, na ultima moda em Paris. Sr. Lheureaux após várias tentativas, convence Emma a comprar suas mercadorias trazidas de Rouen, nunca aceita os pagamentos, sempre fiz que acertarão depois. Emma cai nas armadilhas de Lheureaux e endivida o marido.
Conhece Roldolphe Boulanger, um rico solteirão, proprietário de uma fazenda nas proximidades. Acostumado a ter qualquer mulher que desejasse, Rodolphe encantando por Emma, decide seduzí-la. Aproxima-se de Chalres, descobre o covarde e ignorante que é, e usa da "inocência" do marido para ter acesso à esposa. O que atrai Emma é o conhecimento de mundo de Rodolphe, sua vida na corte francesa, é culto, intelectual... Quando o fato é consumado, Emma se olha no espelho e vê em si uma mulher diferente. Uma mulher que trai e sente prazer com isso. O romance começa bem, são discretos, Rodolphe a trata como ela sempre desejou ser tratada até Emma estar completamente apaixonada por ele. Quando Rodolphe percebe que Emma é como todas as outras mulheres quando apaixonadas - romântica, sonhadora, boba - enjoa do romance, começa a tratá-la com indiferença e as vezes até com grosseria. Emma a princípio não nota, mas quando começa a ser evitada por Rodolphe, tenta fazer o mesmo. Dão um tempo, agem como meros conhecidos quando se encontram. Até se entregarem um ao outro novamente.
Emma gasta o dinheiro do marido comprando presentes para Rodolphe, endividando a família e assinando promissórias secretamente. Foge no meio da noite para encontrar o amante... encontram-se também no jardim da sua própria casa durante as madrugadas, com o avanço da intimidade entre os dois, Emma planeja fugir com Rodolphe, iriam para Paris, viajariam, conheceriam lugares. Marcam a data, Emma gasta outro tanto comprando o necessário para a viagem. Rodolphe, apesar de ter um sentimento por Emma, não pensa em abrir mão da sua vida de solteiro e sustentar Emma e sua filha, vai adiando o sonhado dia, viaja, desmarca, remarca, adia novamente, remarcam, e quando não mais consegue desculpas para adiar, deixa os planos correrem. Emma recebe uma carta no dia da fuga, no sótão ler as palavras de Rodolphe que não quer estragar a vida da amada, partirá sem ela e talvez um dia sentarão como amigos e rirão de tudo que viveram.
Emma cai em profunda depressão, meses na cama para desespero de Charles. O padre da cidade aproveita a oportunidade pra influenciar Emma a seguir sua religião... e tem sucesso... Emma se torna uma religiosa, comprando objetos religiosos, mudando sua postura, passa horas na igreja "rezando", as pernas doloridas de ficar em pé... a espera de uma resposta sem ter feito a pergunta.
Quando nota uma melhora, leva Emma para Rouen para distração, a conselho de Homais. No teatro, Emma reencontra Léon, no dia seguinte Charles parte e Emma fica. Léon e Emma começam um romance. Com a desculpa de ter aulas de piano, Emma viaja para Rouen toda Quinta para encontrar Léon. Mais promissórias são assinadas enquanto Emma compra presentes para o amante. A princípio Léon pagava pelo hotel mas como não tinha muitos recursos é Emma quem passa a financiar as despesas totais das visitas. Meses se passam e Emma começa a enjoar do romance, vira uma rotina mas não tem coragem de terminar o relacionamento. Charles quase descobre a farsa de Emma quando um dia encontra a suposta professora e esta diz nunca ter conhecido Emma, a esposa consegue provar o contrário ao marido. Ignorante de todos os fatos, Charles nem imagina o tamanho da dívida feita pela esposa.
Lheureaux encontra Emma e Léon em Rouen e a chantageia. Com todas as promissórias em mãos, Lheureaux contrata um advogado para, em Corte, exigir o pagamento das dívidas. Ao receber a Citação Judicial exigindo o pagamento ou teriam os bens cassados, Emma se desespera, implora a Lheureaux para cancelar a Ação, negado. Chega a se humilhar a Rodolphe, negado. Pede para Léon emprestar do chefe.
A conclusão... sem ter de onde conseguir o dinheiro para pagar Lheureaux, Emma vai a casa de Homais, o farmacêutico, toma arsênico e agoniza até a morte.
Após a morte de Emma, Charles se deixa levar pela vida... já não atende seus pacientes, perde contato com a sociedade local, vai perdendo aos poucos os pertences, a mãe já não o ajuda porque mesmo após descobrir as traições de Emma, Charles ainda a tem como perfeita. Sente-se culpado por não ter conseguido fazer Emma amá-lo. Charles morre pouco tempo depois, a filha (Berthe) é enviada para os cuidados da avó, que também morre algum tempo depois... como o avó (pai de Emma) está velho e paralítico, Berthe foi enviada para os cuidados de uma tia pobre, que enviou a menina para trabalhar numa fazenda de algodão para sobreviver.
Eu não simpatizei com Emma desde o início: imatura, sonhadora, inocente (no início) e inexperiente, almejando um mundo de ilusões inatigíveis, sem conseguir separar realidade e ficção, deseja o romance dos livros e acredita ser possível, busca (o que não é ruim). Com o passar do tempo vira uma pessoa dissimulada, incontrolável, não sabendo lidar com seus sentimentos nem o dos outros... o fato de ela gostar de Literatura não me fez mudar de idéia, piorou quando se percebe que ela usa a os livros pra fugir da sua realidade e aceitar como verdade, no caso de Emma, os livros são vistos como influência negativa e de certa forma prejudiciais a sua daúde.
Não posso deixar de citar seu comentário sobre o prazer de ler, e creio que jamais alguém o explicou de melhor forma: "Sem deixar seu assento você passeia por paisagens imaginárias, e seus pensamentos se misturam com a história, prolongando-se por detalhes ou saltando adiante com a trama. Sua imaginação se confunde com os personagens, e parece que eles são parte do seu próprio coração, batendo dentro de suas roupas." (pag. 97)
No fim, Emma decide buscar o mesmo destino de Anna Karenina (Tolstoy) e Edna Pontellier (Chopin)... é de se esperar que uma mulher insegura, egoísta e covarde busque tal destino, Emma não sabe enfrentar a realidade. Podendo escolher dizer a verdade, confessar a Charles suas falhas e receber seu perdão, e ambos buscar uma solução para o problema... Emma deixa claro que jamais faria diferente. Emma tinha certeza que Charles a perdoaria e é exatamente isso o que não suporta. O fato de Charles não ter iniciativa, de ser covarde e aceitar sua vida medíocre e simples. Emma odeia Charles por não desejar ter mais ou ser mais, fato piorado pela terrível experiência da cirúrgia do pobre Hipólito, que no fim teve de ter a perna amputada. Até aquele ponto, Emma ainda tentou buscar um motivo para "gostar" do marido, após o incidente, o marido é visto como um nada.
Alguns estudiosos dizem que os personagens em Madame Bovary foram baseados em pessoas reais, Gustave Flaubert realmente teria viajado por todos os lugares mencionados e experienciado alguns dos momentos, e investigado fatos de terceiros para tê-los no livro.
Flaubert é bastante descritivo, os cenários são minuciosamente datalhados, o leitor se sente na história. Sente-se pena por alguns, indignação por outros, é uma confusão de sentimentos que faz da obra uma delícia de ler. As vezes se torna cansativo porque o livro é longo e Flaubert realmente encheu as páginas com detalhes, levei quase 1 mês lendo mas vale a pena!
* Livro da Lista Rory Gilmore.
* Livro da Lista Rory Gilmore.