Monday, January 18, 2010

Storm Front (Jim Butcher)

O interessante de participar de um Bookclub é que você convive com pessoas de gosto totalmente diferente do seu. Somos 5 meninas (Beth, Andrea, Sami, Nari e Ju - eu), todas fanáticas por livros, todas com suas bibliotecas particulares que refletem suas preferências, todas com opiniões formadas sobre o que gostam e o que não gostam de ler e todas abertas para respeitar a opinião alheia - caso contrário, fugiríamos de Bookclubs. Um Bookclub te tira da tua zona de conforto. Ponto.

Beth gosta de livros de Scifi - sua biblioteca reflete isso - livros de Bruxas, Vampiros, Lobisomens... sobrenaturais, estão por toda parte e ela os devora com intensidade e prazer (porém seu gosto não se restringe a eles, ela também tem uma certa queda por clássicos). Por essa razão ela escolheu Storm Front do Jim Butcher para a nossa reunião de 15 de janeiro.

Storm Front, ainda não traduzido para o português, é o primeiro livro da série Dresden Files (12 livros no total), lançado em 2000 e que já rendeu uma série de TV americana (cancelada na segunda temporada).

"Meu nome é Harry Blackstone Copperfield Dresden. Não me responsabilizo pelo que acontecerá se pronuncia-lo por completo. Sou um mago. Trabalho num escritório no centro de Chicago. Pelo que sei, sou o único mago profissional que pratica abertamente no país" (pag. 2)
Dresden trabalha como detetive particular mas também  presta serviços para a Polícia de Chicago, tentando desvendar crimes incompreensíveis à razão humana. Na última semana, corpos foram encontrados com seus corações esfacelados, como se tivessem explodido - ela, uma prostituta do bordel Velvet Room - cujo proprietário é a vampira Bianca. Ele, Tommy Tomm, um dos homens de Johnny Marcone - conhecido e poderoso chefe do crime da cidade.

Dresden acredita que um mago super-hiper-ultra poderoso tenha sido responsável pelo crime, mágica estaria sendo usada para o mal - magia negra. Precisava descobrir o autor dos crimes e o motivo. Tudo seria mais fácil se o White Council (O Conselho Branco - um tipo de associação dos magos/bruxos/feiticeiros) não estivesse desconfiando do próprio Dresden e apontado Morgan para vigia-lo.

"O modo como um homem usa sua mágica demonstra que tipo de pessoa ele é, o que está escondido lá no fundo do seu ser" (pag. 291)
Uma nova droga circula pela cidade, chamada de ThreeEye (Terceiro Olho), dentre os efeitos alucinógenos estava a possibilidade de ver o terceiro mundo, aquele que se vê quando as máscaras caem dos olhos, o mundo sobrenatural.


Haveria alguma ligação entre os crimes e a nova droga?
"Mágica não deve ser usada pra isso. Não foi criada pra isso. Mágica veio da própria vida, da interação da natureza e dos elementos, da energia de todas as coisas viventes, e especialmente das pessoas" (pag. 291)
Ficção científica não agrada meu gosto literário mas li Storm Front com a mente aberta. A história é batida mas envolvente, não posso negar.

Dresden é engraçado, as mulheres são seu ponto fraco e, na minha opinião, o ponto alto da história é exatamente o lado cômico da coisa quando ele descreve o que vê e sente quando olha para uma mulher, não pode ver um rabo de saia, é mago mas não deixa de ser homem, mas no final não pega ninguém - cachorro que late não morde né!?
"(...) havia alguma coisa nela que atiçava meu motor, alguma coisa na maneira que ela inclinava a cabeça ou formava suas palavras que transpassava meu cérebro e ia diretamente para os meus hormônios" (pag. 126)
Mister é o gato (um mago com um gato, que clichê!) e tem Bob como "computador", um espírito centenário e mulherengo que vive em um crânio num laboratório de Dresden, e que guarda as receitas para suas poções mágicas. É, porque Dresden tem certa aversão à tecnologia, tudo entra em pânico quando ele se aproxima... elevadores são seus maiores inimigos.


"Sou leal às coisas simples, a lareira, minhas velas e lamparinas" (pag. 89)
O que também gostei na história é que Butcher foi tradicional aos fatos que já conhecemos sobre vampiros, magos, feiticeiros, bruxos, demônios, etc., não tentou inventar ou recriar novos padrões (como Christopher Moore em Bloodsucking Fiends). Outra coisa que me encanta nos livros de autores americanos (ok, ok os britânicos, os russos e até os irlandeses também fazem isso) é que eles sempre dão incentivo à leitura nas entrelinhas de suas histórias, não importa o gênero.

Como esse foi o primeiro livro lançado e Butcher não estava certo se a história seria um sucesso, ele colocou todos os elementos que podia: fadas, elfos, demônios, bruxos, vampiros, etc, etc... é uma mistura louca, mas de acordo com a história, estão todos interligados, são parte do mesmo mundo, mas não se pode negar que deixa a história bastante carregada. Porém, Jim Butcher sabe muitíssimo bem como prender o leitor, tem um talento incrível como contador de histórias e uma imaginação extremamente fértil.

Provavelmente esse é o único livro da série que lerei, apesar de eu ter devorado o livro em 2 dias (são 305 páginas) essa coisa supernatural continua não me atraindo... prefiro as imensas possibilidades do mundo real, especialmente se vier em vestidos de época e o charmoso sotaque inglês...

Quer saber mais sobre o autor? É só visitar o site do próprio: Jim Butcher

Saturday, January 16, 2010

Poema de Sábado

Ai, ai Casimiro de Abreu... o que me encanta nele é a simplicidade, a falta de sofisticação, a ingenuidade.
Foi filho bastardo, teve apenas educação primária, trabalhou duro para o pai mas descobriu nas palavras a sua força e deliciou o mundo com um único livro - As Primaveras.
De versos simples e românticos e de uma espontaneidade cativante, Casimiro é um dos meus poetas favoritos e hoje decidi compartilhá-lo com vocês!


Clara

Não sabes, Clara, que pena
eu teria se — morena
tu fosses em vez de clara!
Talvez… quem sabe… não digo…
mas refletindo comigo
talvez nem tanto te amara!

A tua cor é mimosa,
brilha mais da face a rosa
tem mais graça a boca breve.
O teu sorriso é delírio…
És alva da cor do lírio,
és clara da cor da neve!

A morena é predileta,
mas a clara é do poeta:
assim se pintam arcanjos.
Qualquer, encantos encerra,
mas a morena é da terra
enquanto a clara é dos anjos!

Mulher morena é ardente:
prende o amante demente
nos fios do seu cabelo;
— A clara é sempre mais fria,
mas dá-me licença um dia
que eu vou arder no teu gelo!

A cor morena é bonita,
mas nada, nada te imita
nem mesmo sequer de leve.
— O teu sorriso é delírio…
És alva da cor do lírio,
és clara da cor da neve!

(Casimiro de Abreu - 1839/1860)

Tuesday, January 12, 2010

Water for Elephants (Sara Gruen)

Fiquei curiosa pra ler esse livro depois de ver 3 pessoas na academia lendo-o enquanto caminhavam em suas esteiras (há quase 2 anos). Comprei e ele sentou na minha estante por mais 6 meses. Que desperdício!

A história já começa com um mistério, um desastre num circo, confusão, animais e humanos correm desesperadamente numa profusão de terror e instinto de sobrevivência. Stars and Stripes forever - A Marcha do Desastre acaba de ser tocada bela banda do circo... Um mau presságio.
"I meant what I said, and I said what I meant...  An elephant's faithful - one hundred per cent!"
"Eu penso no que falo, eu falo o que penso... um elefante é fiel - cem por cento!"
(Theodor Seuss Geisel, autor dos livros infantis do Dr. Seuss)
Jacob Jankowski é o narrador-personagem de Water for Elephants - Água para Elefantes, que por 17 anos guardou debaixo de sete chaves sua história como veterinário do circo "O mais espetacular espetáculo da Terra dos Irmãos Benzini". Teria levado a história para o o túmulo se não fosse pelo Sr. McGuinty, que tentando impressionar as senhoras da casa, disse ter levado água para elefantes de circo quando mais novo.
"Ela levantou a estaca bem alto no ar e depois a abaixou, partindo a cabeça dele como uma melancia. Seu cuco aberto, seus olhos arregalados, e sua boca congelada em forma de O. Caiu de joelhos e então desmoronou de frente em direção a confusão." (pag. 4)
Após perder os pais num acidente de carro quando estava se formando em Medicina Veterinária, Jacob descobre que a casa onde os pais moravam havia sido hipotecada para pagar por seus estudos. Sem dinheiro, sem herança e sem família, Jacob abandona o passado em busca de um futuro e é quando por acidente pega carona num trem sem saber que era um trem de circo.

Não quero encher minha resenha de detalhes e contar a história porque o livro vale muito a pena, uma vez que é o resultado de estudos sobre circos americanos da década de 20 e 30.  Sara Gruen fez um apanhado de notícias, registros históricos de museus e histórias contadas por integrantes de vários circos daquela época, e transforma-os em Water for Elephants, o livro.

Jacob conta a história quando já tem seus 90 e poucos anos e morando num asilo, a idade pesa em seu corpo e sua mente, mas nada apaga da memória o que viveu naqueles sete anos em que cuidou dos animais do circo dos Irmãos Benzini, lugar em que conheceu Marlena, sofreu nas mãos tiranas de August e Tio Al, e onde também aprendeu que os antagonismos e crueldades da vida no circo não são suficientes para destruir o caráter daqueles que têm senso de fidelidade e prezam a lealdade, sejam eles humanos ou animais.

O modo que a história foi escrita e o carisma de Jacob, fez-me lembrar de Paul Edgecomb, o velhinho que conta a história de John Coffey no Green Mile - À espera de um milagre, do Stephen King.
"A coisa toda é uma ilusão, Jacob, e não tem nada de errado nisso. É o que o público quer de nós. É o que eles esperam" (pag. 104)
A história tem mistério e um desfecho surpreendente (um dos poucos que não se prediz desde o início ou lá pela metade do livro), tem muito drama, tem crueldade e tirania. É cativante, é rica em detalhes com direito a fotos!

É emocionante, o modo como a história é contada dá um tom nostálgico à narrativa, é depressiva mas também é cômica e romântica, é uma montanha-russa de sentimentos e emoções. Foi um dos melhores livros que li em 2009!

Sobre a autora:
Sara Gruen também escreveu Riding Lesson e Flying Changes. Mora na Carolina do Norte com o marido, 3 filhos, 4 gatos, 2 bodes, 2 cachorros, e 1 cavalo.
Water for elephants ganhou o prêmio de Livro do Ano de 2007 pela Book Sense, Prêmio Fun Fearless Fiction da Cosmopolitan, Prêmio BookBrowse Diamond como Livro Mais Popular, Prêmio Friends of American Literature Ficção/Adulto, entre outros.

Para checar outras resenhas, é só clicar no título:

Saturday, January 9, 2010

Poema de Sábado

Como eu gostaria de encontrar mais livros de escritores brasileiros por aqui. Estou cansada de chegar na Border's ou Barnes & Nobles e só achar traduções de Paulo Coelho. Nos sebos ainda encontro Jorge Amado mas o que acontece com Cecília Meireles, Clarice Lispector, Drummond e Mário de Andrade, Bandeira, Sabino, Gullar, Telles, Veríssimo?

Final de ano sempre sinto saudades da minha terra amada e hoje senti vontade de voltar à minha Pasárgada, porque embora aqui eu seja feliz, pau-de-sebo aqui não existe, nem canjica ou mingau de munguzá, e as águas desse mar são frias demais para qualquer mortal Sul Americano. Que saudade da minha terra boa onde eu como peixe assado com farinha...

Poema do livro Bandeira a Vida Inteira, 1986 - pág. 90.


Vou-me embora pra Pasárgada
 
 
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

(Manuel Bandeira - 1886/1968)

Friday, January 8, 2010

Desafio Literário

Ai, ai queridos navegantes... eu sempre procuro ficar longe de desafios de qualquer tipo, quando o assunto envolve leitura então a coisa complicada ainda mais porque nunca consigo seguir listas pré-pensadas, leio meus queridos livros de acordo com meu humor e estado de espírito no dia.

Porém, visitando o blog The Novel World, a Nari - uma das devoradoras de livros do meu BookClub e que também corre a léguas de desafios - sugeriu esse desafio literário bem água-com-açúcar que começou no Hey Lady! Watcha readin'?.

O desafio chama OATES, de Joyce Carol Oates (autora de Um jardim de delícias, Levo você até lá, A falta que você me faz, etc.), e quem quiser participar também é super fácil!

Aqui as regras/detalhes:
  • Desafio vai de January 1, 2010 até Dezembro 31, 2010.
  • Qualquer um pode participar! Não precisa ter blog!
  • Esse desafio pode ser acumulado/deduzido de outros desafios.
  • Não precisa escolher livros antecipadamente, não há ordem ou tempo de leitura pré-determinados.
  • Os níveis podem ser mudados na metade do caminho, bem como os autores!
  • Escolher 1 escritor cujo SOBRENOME comece com uma das letras do acrônimo O.A.T.E.S.
Os meus, por enquanto:

O - Joyce Carol Oates (The Falls)
A - Casimiro de Abreu (Primaveras)
T - Içami Tiba (Quem ama, educa!)
E - T. S. Eliot (The waste land - de novo!)
S - Betty Smith (A tree grows in Brooklyn)

Níveis:

OATES leitor rapidinho - 1 livro de cada escritor (eu vou nesse!!!)
OATES leitor à moda antiga - 2 livros
OATES leitor carrinho de mão - 3 livros
OATES leitor nervos de aço - 4 livros
OATES leitor completo - 5+ livros

Quem quiser participar...
Para os blogueiros: copia as regras e o selo do blog e deixa um comentário aqui. Quando fizer a resenha sobre o livro, favor colocar o selo do desafio no post.

Monday, January 4, 2010

Her fearful symmetry (Audrey Niffenegger)

Escolha do BookClub para o mês de dezembro!

Acho que foi a primeira vez que as 5 integrantes do meu BookClub tiveram uma decisão unânime sobre um livro. Cheguei na reunião com aquele friozinho na barriga - será que fui a única a não gostar? Vou guardar meus comentários pro blog, talvez eu não deva ser tão crítica! - bem, nem precisei esperar 10 segundos para começar a ouvir as reclamações.

Quando terminei de ler o livro veio aquele alívio de: finalmente me livrei desse peso! Falei pro marido - um dos piores livros que já li. Não é como o caso de alguns livros que parei pela metade (Ecce Homo - Nietzche, e Os imãos Karamazov - Dostoyevsky) que desisti não porque a história não era boa, mas porque filosofia não é meu interesse e me cansa (Ecce Homo) e excessivo apelo ou crítica a religião não me atrai, fora a linha descritiva exacerbada (Os irmão Karamazov).

Her fearful symmetry foi super esperado e tinha tudo pra ser sucesso, e era o que os fãs esperavam de Niffenegger após o The Time Travaler's Wife - A esposa do viajante do tempo (resenha aqui). Porém a história fell short como disseram muitos.

Na minha opinião é uma história sem apelo, que no final eu não acreditei ter sido escrito pela mesma autora, é como se ela tivesse centenas de idéias e decidiu jogar tudo na panela e virou sopa de letrinhas com alfabeto chinês!

E o que a história aborda, então?

Edie e Elspeth são irmãs gêmeas nascidas em Londres, que por algum motivo romperam relações... Edie mudou para os EUA com o marido Jack e teve 2 filhas gêmeas (Júlia e Valentina, agora com 20 anos) - Elspeth não casa mas tem um romance "moderninho" com Robert, o guia do cemitério Highgate.

A história já começa com a morte de Elspeth, vítima de leucemia aos 44 anos, e nas próximas páginas a autora tenta criar o mistério em torno do rompimento das irmãs - Jack era noivo de Elspeth mas fugiu com Edie para os EUA, onde se casaram - Não se enganem queridos leitores!!!

Ao morrer, Elspeth deixa seus bens para as sobrinhas (que nunca viu na vida!) com uma pequena condição: Jack e Edie jamais poderão pisar no ap, nem desfrutar da fortuna em dindim. Nem preciso mencionar que a cláusula despertou a curiosidade das sobrinhas né? Que até então nem sabiam que tinham uma tia.

"Elspeth? (...) Como vou conseguir viver sem você? O problema não era o corpo; o corpo dele sobreviveria normalmente. O problema estava na palavra como: ele viveria, mas sem Elspeth o sabor, a maneira e o modo de viver estavam perdidos para ele. Ele teria que re-aprender a solidão". (Robert - Pag. 15)

As gêmeas tomam posse da herança em 1 ano, quando mudam para Londres - o apartamento fica num prédio de 3 andares próximo ao Cemitério Highgate - e são esses os cenários da história basicamente:
1º andar mora Robert, ainda de luto pela morte da namorada, evita conhecer as gêmeas;
3º mora Martin, o único personagem realmente interessante na história (opinião pessoal!);
2º andar é o herdado pelas gêmeas... mas alguém espera por elas no apartamento - Elspeth, ou melhor, o fantasma de Elspeth que está preso ao lugar onde ela mais passava tempo -  no início ela era apenas uma bolinha, mas ganha força com o tempo e aos poucos vai se materializando (transparentemente - existe isso?!) e aprendendo as táticas fantasmagóricas - acender luzes, mover folhas de papel, portas, etc., até que um dia consegue escrever uma mensagem num piano empoeirado e a comunicação Julia/Valentina/Robert x Elspeth começa.

Quem assistiu o filme Ghost - do outro lado da vida e Sexto Sentido, percebe que a autora copiou várias idéias de lá (assim como Patrick Swayze, Elspeth perambulava pelo ap tentando ser notada, aqui com a desvantagem que ela não conseguia sair do ap). A idéia de que fantasmas deixam o ambiente frio, quando você se arrepia é porque um fantasma está perto. E o final me fez lembrar de À espera de um milagre (mas aqui não direi o porquê!)

Ninguém a ouvia, a comunicação era feita através da OUIJA - aquele da brincadeira com o copo!
Ok, falemos das sobrinhas...
Eram chamadas de gêmeas-espelho, ou seja, Valentina era fisicamente o inverso de Julia... o sinal no rosto direito de Julia era no esquerdo de Valentina (pag. 34). Os órgãos de Valentina também eram invertidos. Julia era a mandona, a 6-minutos-mais-velha, dominadora e curiosa. Valentina era a frágil, doente, submissa mas cativante. No início a proximidade das duas encanta, que pai não quer as filhas super amigas? Mas aos poucos vira opressivo, percebe-se que é mais parasitismo que simbiose.

Julia faz Valentina seguir todos os seus passos, desistiu de várias faculdades, nunca quis procurar um emprego, não tinha planos para o futuro, e fazia a coitada da Valentina fazer o mesmo. A coisa piora quando Valentina engata um romance com Robert. Não suportando a idéia de ser colocada em segundo plano, cobra atenção absoluta da irmã. Valentina se sente sufocada (quem não se sentiria?) e busca sua indenpendência a todo custo e desabafa com a tia-fantasma, Elspeth.

Elspeth não estava feliz com o relacionamento de Valentina e Robert, fantasma também sente ciúmes (claro! Elspeth descreve a vida após a morte como solitária, chata, fria, vazia. Faria qualquer coisa para voltar à vida e ter Robert de volta - qualquer coisa! - isso dá alguma dica????).

A maneira que a história acaba, para mim, deixou os personagens sem propósito, além do fato de que eles nem foram desenvolvidos adequadamente, com exceção de Martin - como mencionei, o único personagem interessante da história - o querido Martin era o autor de palavras-cruzadas para jornais e revistas e sofria de TOC, daqueles que têm mania de limpeza, lavando as mãos o tempo todo com água sanitária até sangrar, que nunca deixa o apartamento por medo de ser contaminado com a sujeira do mundo, passa horas tomando banho e limpando a casa. Sua esposa Marijke o abandona um pouco antes da chegada das gêmeas, parte para Amsterdã.

O relacionamento à distância dos dois, pra mim, é um dos pontos altos da história. O estranhamento pelas peculiaridades da doença, a força de vontade de Martin, a ajuda de Julia, a perseverança de Marijke, fazem o leitor torcer para Martin vencer os desafios do TOC - se o livro fosse sobre a vida de Martin seria muito mais interessante!

Os pontos positivos: nunca imaginei que houvesse um cemitério tão cheio de História como o Highgate e isso foi bem abordado pela autora, Karl Marx é um dos famosos por lá enterrado, fiquei até curiosa pra visitá-lo quando for a Londres. Também gostei muitíssimo dos diálogos super cabeça de Martin e Marijke em outros idiomas, que vai do alemão ao português (sim, o nosso!).

Em fim, as idéias foram fracas e amadoras - para não dizer pobres!
Bem decepcionante para os que amaram "The Time Traveler's Wife".

Obs: Comentários contrários são bem vindos, não se acanhe se gostou do livro e não concorda comigo!
Resenha do New York Times (em inglês)

Thursday, December 31, 2009

Resumo do Ano - 2009

2009 foi extremamente proveitoso, não li todos os livros que planejava mas li obras não inclusas na lista!

Foram 54 posts (55 com esse!), li 25 livros, desisti de 2 leituras, assisti 43 filmes no cinema, 2 viagens e 4kg a mais (esse detalhe não precisa enfatizar!) e não posso esquecer que consegui entrar num bom Clube do Livro com reuniões uma vez por mês! Excelente indeed.

Não me arrependo e leria de novo!!! - Ficção: The Book Thief (A menina que roubava livros) e Water for Elephants (Água para Elefantes).

Não me arrependo e leria de novo!!! - Não-Ficção: The man who loved books too much (o homem que amava livros demais).

Preferia não ter lido?: Pride and Prejudice and Zombies (Orgulho e Preconceito e Zumbis).

Li mas não convenceu: By the light of my father's smile (Pela luz do sorriso de meu pai).

Decepção: Her Fearful Symmetry

Agradeço a visita de todos nesse ano de 2009 e espero compartilhar muitos outros posts com vocês em 2010. Tenham um excelente Ano Novo, com livros de montão, pensamentos positivos e muito amor!

Ju P. Haghverdian =)


Eis as 25 obras lidas e suas respectivas resenhas:

- Water for Elephants (Sara Gruen)

- Her fearful symmetry (Audrey Niffenegger)

- A Christmas Carol (Charles Dickens)

- The man who loved books too much (Allison H. Bartlett)

- The hunchback of Notre-Dame (Victor Hugo)

- Say you're one of them (Uwen Akpan)

- Pride and Prejudice and Zombies (Jane Austen e Seth Grahame-Smith)

- The Time Traveler's Wife (Audrey Niffenegger)

- By the Light of My Father's Smile (Alice Walker)

- The Great Gatsby (F. Scott Fitzgerald)

- My Sister's Keeper (Jodi Picoult)

- Lolita (Vladimir Nabokov)

- The Guernsey Literary and Potato Peel Pie Society (Mary Ann Shaffer and Annie Barrows)

- Madame Bovary (Gustave Flaubert)

- Memoirs of a gueisha (Arthur Golden)

- Sense and Sensibility (Jane Austen)

- A thousand splendid suns (Khaled Hosseini)

- The island (Victoria Hislop)

- No! I don't want to join a book club (Virginia Ironside)

- The book of laughter and forgetting (Milan Kundera)

- At first sight (Nicholas Sparks)

- A divina comedia - PARAISO (Dante Alighieri)

- A divina comedia - PURGATORIO (Dante Alighieri)

- A divina comedia - INFERNO (Dante Alighieri)

- Pride and Prejudice (Jane Austen)

- Eat, Pray, Love (Elizabeth Gilbert)

- The book thief (Markus Zusak)


Eis os filmes vistos no cinema:

- Seven Pounds

- Marley & Me

- Gran Torino

- Taken

- He is just not that into you

- Push

- Pink Panther

- The reader

- Wachmen

- Slumdog Millionaire

- Knowing

- Fast and Furious

- The soloist

- X-men origins: Wolverine

- Star Trek

- Terminator

- Up

- Pelham 123

- Hangover

- Ice Age 3

- Transformers 3

- Bruno

- The Proposal

- The ugly truth

- G. I. Joe: The Rise of Cobra

- District 9

- G-Force

- Under the sea

- Inglorious Basterds

- Gamer

- All about Steve

- 9

- The Time Traveler's Wife

- Surrogate

- Capitalism: A Love Story

- Couples Retreat

- Law Abiding Citizen

- Julie & Julia

- The man who stares at goats

- The blind side

- Old Dogs

- 2012

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Saturday, December 26, 2009

Poema de Sábado

Even such is Time

Even such is Time, which takes in trust
É assim o tempo, que toma posse de
Our youth, and joys, and all we have;
Nossa juventude, e alegrias, e tudo que temos;
And pays us but with age and dust,
E nos paga com nada mais que idade e poeira,
Which, in the dark and silent grave,
Os quais, no escuro e no túmulo silencioso,
When we have wandered all our ways,
Após termos andado nossos caminhos,
Shuts up the story of our days:
Conclui a história de nossos dias:
And from which earth and grave and dust
E da terra, do túmulo e da poeira
The Lord shall raise me up, I trust.
o Senhor deverá me ressucitar, acredito.

(Sir Walter Raleigh - 1552/1618)

Friday, December 25, 2009

Feliz Natal!

À todos os queridos visitantes do A Ship made of books, os desejos de um Natal maravilhoso, cheio de alegria, crianças correndo, comidas gostosas e união!
Momentos felizes,

Memórias felizes...

Feliz Natal!

Monday, December 21, 2009

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Eis uma super dica de filme para ver no findi!




O filme é incrível, esperei tanto, tanto pra ver que pensei que fosse ficar decepcionada.

É, a história é meio batida (e tem outros detalhes que poderíamos desconsiderar)... NÓS, os humanos racionais após acabarmos com as reservas no nosso planeta, partimos para alienar o planeta Pandora,  infiltramo-nos no meio de um povo que achamos ser inferior, aprendemos o idioma e os costumes deles e ganhamos a sua confiança pra enfiar a faca em suas costas - tudo porque o minério embaixo de seu solo vale milhões por kilo. Previsível!

Mas a tecnologia empregada, as cenas de ação, e como a Isabela Boscov mencionou no seu blog/coluna na VEJA... as CORES são impressionantes, maravilhosas, fiquei totalmente encantada!
 
Atores e animação juntos sem cortes, sem efeito especial barato, valeu muito a pena os 5 anos gastos na preparação do filme e 14 anos no total, desde a concepção das idéias ao produto final, um marco na história dos filmes de animação.

Sunday, December 20, 2009

Poema de Sábado

Peço mil perdões pela falta de tempo! Nosso poema de sábado vem no domingo devido a toda essa correria de final de ano.

O poema escolhido de hoje é do livro The Collected Poems de Sylvia Plath, finalmente uma mulher!

Sylvia Plath, nasceu nos EUA em 1932 e faleceu em Londres. Apesar de ser conhecida primeiramente por seus poemas, também escreveu The Bell Jar, um romance auto-biográfico, e histórias para crianças. Seu primeiro poema foi publicado quando tinha apenas 8 anos, mesmo período em que perde o pai por complicações após a amputação de uma perna (devido ao diabetes).

Muda para Nova York para trabalhar na revista Mademoiselle, mas a decepção das expectativas frustradas a levam à primeira tentativa de suicídio. Casa com o poeta Ted Hughes, muda para a Londres ao descobrir que está grávida. O aborto espontâneo da primeira gravidez está presente em diversas linhas de seus poemas, bem como o divórcio após tantas traições do marido.

1963, enquanto as crianças dormem, Sylvia liga o gás do fogão e enfia a cabeça no forno, suicídio?!

Escolhi o poema Lament (Lamento) em que Sylvia desabafa a perda do pai. Como a maioria de seus poemas, Lament tem rimas simples, pois Plath tinha aversão aos versos estranhos, e a repetição de versos é característica presente em grande parte de suas poesias, bem como esse quê de melancolia.


Lament

The sting of bees took away my father
A picada de abelhas me levou meu pai
who walked in a swarming shroud of wings
que caminhou encoberto por um enxame de asas
and scorned the tick of the falling weather.
e desdenhou do barulho dos pingos da chuva.

Lightning licked in a yellow lather
Como raios lambidos em espuma amarela
but missed the mark with snaking fangs:
que errou pois o alvo com presas de cobra:
the sting of bees took away my father.
a picada de abelhas me levou meu pai.

Troucing the sea like a raging bather,
Enfrentando o mar como um banhista raivoso,
he rode the flood in a pride of prongs
ele dirigiu a enchente com tridentes
and scorned the tick of the falling weather.
e desdenhou do barulho dos pingos da chuva.



A scowl of sun struck down my mother,
Enfurecidos raios de sol marcaram minha mãe,
tolling her grave with golden gongs,
deteriorando seu sepulcro com gongos dourados,
but the sting of bees took away my father.
mas a picada de abelhas me levou meu pai.

He counted the guns of god a bother,
Considerou as armas de deus um enfado,
laughed at the ambush of angels' tongues,
riu das armadinhas das línguas dos anjos,
and scorned the tick of falling weather.
e desdenhou do barulho dos pingos da chuva.

O ransack the four winds and find another
Ah vasculha os quatro ventos e encontra outro
man who can mangle the grin of kings:
homem que possa desfigurar o sorriso dos reis:
the sting of bees took away my father
a picada de abelhas me levou meu pai
who scorned the tick of the falling weather.
que desdenhou do barulho dos pingos da chuva.

Tuesday, December 15, 2009

A Christmas Carol (Charles Dickens)

Visitei a Feira de Natal do Charles Dickens em San Francisco no último domingo. Não poderia ir a feira sem ter lido um dos contos de Natal escrito por ele, por isso (e porque esse foi um dos livros escolhidos pelo Clube do Livro do qual faço parte). A feira foi impressionante, muitos visitantes foram vestidos à caráter, com roupas de época e ainda tentando falar com sotaque britânico. Nunca vi tanta gente tão envolvida com a preparação de uma feira. Merece aplausos!

A Christmas Carol (Um cântico de Natal, em português) conta a história do Sr. Scrooge, um velhinho avarento, rancoroso, mal-humorado e que não tem interesse algum no Natal, Humbug é a expressão que marca dua falta de humor. Desdenha de todo o alvoroço feito pelas pessoas quando chega essa época e solta os cachorros em cima de seu empregado, Bob Cratchit, por usar o Natal como desculpa para ser pago sem trabalhar.

Enquanto todos celebram o Natal, Sr. Scrooge (após recusar o convite do único sobrinho, Fred para ceiar com a família) tem seu jantar sozinho e vai para cama.
"Feliz Natal! Que direito tu tens de ser feliz? Que razão tens para ser feliz? Tu és pobre." (pag. 4)
O que ele não espera era a visita do fantasma do seu parceiro de trabalho, Marley, morto há sete anos, na noite de Natal.


Marley veio para aconselhar Sr. Scrooge a mudar sua atitude, sem muitas explicações diz que o amigo receberá a visita de 3 fantasmas. A princípio Sr. Scrooge pensa ser um sonho, depois trata a situação com ironia e comicidade.

"É requerido de cada homem," diz o fantasma, "que o espírito que nele há perambule entre os homens, e viaje longe e vastamente; e se esse espírito assim não progride na vida, ele é condenado a fazer após sua morte (...) Condenado a perambular pelo mundo e testemunhar o que não pode compartilhar, mas que provavelmente compartilharia em vida e seria feliz!" (pag. 15-16)

O espírito de Marley viaja incessantemente por todos esses anos "um descanso sem paz, incessante tortura do remorso". Em vida seu espírito nunca foi além do estreito limite de seu trabalho com Contador "sem saber que nenhum arrependimento pode consertar o mal uso de uma oportunidade perdida". (pag. 17)

Primeiro Fantasma - Fantasma do Natal Passado:
Faz uma retrospectiva do passado do Sr. Scrooge, levando-o à sua infância, percebe-se que a família de Sr. Scrooge nunca deu muita importância ao Natal, se não fosse por sua irmã, a pequena Fan, Scrooge passaria muitos dos Natais sozinho na escola.

Segundo Fantasma - Fantasma do Presente:
O fantasma mostra a Scrooge o que as outras pessoas estão fazendo na noite de Natal, enquanto Scrooge prefere ficar sozinho em sua casa, seus conhecidos celebram o Natal. Sr. Scrooge vê a casa de seu empregado Bob, apesar de ser pobre, a família se reune e prepara um bela ceia com os recursos que têm, celebrando a união e a vida de pequeno Tim (filho mais novo de Bob que sofre de paralisia) - Bob ainda menciona o nome do patrão, com uma certa compaixão.
Sr. Scrooge também tem a oportunidade de ver o Natal na casa de seu único sobrinho (filho da pequena Fan)... estão todos reunidos felizes, unidos, o sobrinho lembra do tio e diz sentir por ele não estar lá celebrando com eles, a noite termina com um animado jogo - deixando Scrooge cheio de remorso e desejando estar lá.
A felicidade está presente em todos os lares visitados naquela noite.

Terceiro Fantasma -Fantasma do Futuro:
Sr. Scrooge treme ao ver o fantasma, é o único que não conversa com Scrooge, vem vestido de morte. Mostra a Sr. Scrooge o futuro que o espera, caso morra vândalos saquearão seu sepulcro, roubarão os bens que Sr. Scrooge passou tantos anos acumulando, poucos falarão de sua morte, comentarão como um fato corriqueiro, logo será substituído e esquecido, o pequeno Tim por falta de maiores recursos sucumbe à sua doença, sua morte deixa Bob totalmente desolado. Sr. Scrooge questiona o fantasma, quer saber se ainda há tempo para mudança, se aquele homem no sepulcro é ele mesmo, mas nada lhe é respondido.

Quando Scrooge acorda, parece que anos se passaram mas ele realiza que não foi nada mais que algumas horas. Seu coração transformado busca ação imediata. Scrooge é um outro homem e corre contra o tempo para celebrar o Natal e abençoar a ceia de muitos outros.


"Estou leve como uma pena, feliz como um anjo, tão feliz quanto um garotinho.Estou tão fútil quanto um bêbado. Um feliz Natal a todos! Um Feliz Ano Novo ao mundo inteiro! Ei aí! Olá! Hello!"

Saturday, December 12, 2009

Poema de Sábado



Poema no livro Best Poems of English Language por Harold Bloom.
Vamos voltar aos românticos do séc. XVIII, William Wordsworth (1770-1850) é inglês mas morou longos anos na França, e como muitos poetas românticos, teve uma vida de tragédias... perdeu os pais muito cedo, foi forçado a se afastar dos irmãos, na fase adulta amou por anos e anos uma única mulher, com quem casou muitíssimo tarde. Seu irmão John morreu afogado na mesma época que perdeu prematuramente seus 2 únicos filhos. Seus poemas refletem os sentimentos dessa vida, sua admiração pela natureza e seu amor pela terra natal.


I travelled among unknown men

I travelled among unknown men,
Viajei por entre homens desconhecidos,
In lands beyond the sea;
Em terras além do mar;
Nor, England! did I know till then,
Não, Inglaterra! não sabia até então
What love I bore to thee.
Quanto amor tinha por ti.

'Tis past, that melancholy dream!
É passado, aquele sonho melancólico!
Nor will I quit thy shore
Tampouco partirei eu das tuas margens
A second time; for still I seem
Uma segunda vez; porque ainda pareço
To love thee more and more.
Amar-te mais e mais.

Among thy mountains did I feel
Entre tuas montanhas senti
The joy of my desire;
A alegria do meu desejo;
And she I cherished turned her wheel
E aquela que agradei virou sua direção
Beside and English fire.
Em direção ao fogo inglês.

Thy morning showed, thy nights concealed,
Tua manhã mostrou, tuas noites esconderam,
The bowers where Lucy played;
Os portos onde Lucy brincara;
And thine too is the last green field
E teu também é o último campo verde
That Lucy's eyes surveyed.
Que os olhos de Lucy olhara.

(William Wordsworth - 1801/1807)

Thursday, December 10, 2009

Escola joga livros no lixo!

Acabei de ler essa notícia no site da Abril.

Por José Maria Tomazela

Sorocaba, SP - Dezenas de livros, entre eles clássicos da literatura mundial, estavam sendo jogadas no lixo por funcionários da Escola Estadual Ernesto Monte, em Bauru, a 345 km da capital paulista. Os exemplares estavam acondicionados em sacos plásticos e parte deles foi amontoada na sarjeta da calçada da escola, na Praça das Cerejeiras. Alguns, parcialmente queimados, tinham sido lançados numa caçamba de entulho.

O fotógrafo João Roberto Alcará, de 49 anos, que passava pelo local, ficou intrigado com a cena. Ele fez fotos do que considerava "um descaso com a cultura" e interpelou os funcionários.

Ao verem que ele fazia fotos, os funcionários ainda tentaram arrastar os sacos para o interior da escola. Alcará apanhou alguns exemplares, entre eles o livro "A Escola dos Robinsons", de Júlio Verne, editado em 1938. Um manuscrito na capa indica que a obra tinha sido ofertada à escola, em 1939, por Antonio Garcia. O livro traz ainda o carimbo da biblioteca da escola.

(leia a notícia completa aqui).

Depois dizem que eu sou muito dura com meu próprio povo mas tem como não se indignar com um fato desses? Lembro que na Universidade (Federal do Amazonas - UFAM) tínhamos um zelo enorme pelos poucos livros disponíveis na nossa biblioteca porque sabíamos o pouco incentivo financeiro dado pelo governo federal para a compra de livros, especialmente em inglês, francês e até mesmo português - o curso de Letras é sempre minorizado mesmo, os cursos Medicina, Direito, Engenharia têm uma biblioteca vasta!
 
Se a própria escola não dá valor aos livros que têm, que importância à eles será dado pelas crianças? E isso foi registrado em apenas uma escola, imagina tantas outras que devem fazer o mesmo sem o conhecimento do público.
 
Absurdo!

Monday, December 7, 2009

The man who loved books too much (Allison Hoover Bartlett)

Quão apaixonado por livros você é?
O que você faria por um livro raro?
Primeira edição autografada do seu escritor favorito?


"I can resist everything except temptation - Posso resistir a tudo menos à tentação"
(Oscar Wilde)
The man who loved books too much (O homem que amava livros demais) conta  histórias de vários apaixonados por livros, mas não apenas livros, falo de livros raros, históricos, colecionadores que pagam $50 mil, $100 mil por obras raríssimas.

"Pouquíssimas pessoas parecem perceber que livros têm sentimento"
(Eugene Field, autor de The Love Affairs of a Bibliomaniac)

Allison H. Bartlett pesquisou por quase 3 anos um ser misterioso que comprava livros raros de colecionadores nos EUA usando cartões de créditos roubados - John Gilkey. Atrás de Gilkey, investigando seus roubos e tentando capiturá-lo, temos Sanders, outro apaixonado por livros e membro da ABAA (Antiquarian Booksellers' Association of America).

"Conheço homens que torraram suas fortunas, foram em longas viagens por meio mundo, esqueceram amizades, chegaram a mentir, enganar, e roubar, tudo para conseguir um livro"
(A.S. W. Rosenbach, negociador de livros do sec. XX)
O que me prendeu na história, além do fato de aprender mais sobre livros raros e ser uma história real, foi que tudo se passou aqui na Califórnia (Norte da Califórnia). Gilkey nasceu em Modesto, trabalhou na Saks (loja de grifes famosas na Union Square em San Francisco - de onde roubava os números de cartões de crédito dos clientes) e um dos hotéis para onde ele solicitou o envio é aqui em Palo Alto, em frente ao Stanford Mall... onde trabalhei por 6 meses (10 minutos da minha casa!).

É uma delícia quando se lê uma história em que se tem familiaridade com o cenário, com o plot!


"O norte da Califórnia é terra fértil para qualquer amante de livros, e não existe escassez de colecionadores" (pag. 109)
O que levou Bartlett a escrever a história? Após a morte de um amigo, um livro raro - Kräutterbuch, 1630 - foi encontrado em seu apartamento com um bilhete pedindo que o retornassem para a biblioteca. Nenhum registro sobre o livro foi encontrado em nenhuma biblioteca do país, e Sanders sugeriu o que poderia ter acontecido - O livro deve ter sido roubado! Até então a autora não tinha idéia do tamanho do problema, quem teria a idéia de roubar livros? Muitos! Dezenas! Milhares!



Bartlett visitou várias feiras de livros raros em Nova York, San Francisco e Salt Lake City em busca de informações e histórias para o livro. E eu não tinha idéia do quão raro é um livro raro: uma combinação de escassez, importância e condição. Quando uma adaptação para o cinema é lançada, a venda das primeiras edições dos livros sobe entre os colecionadores (pag. 19) mas os escritores famosos estão sempre em alta.

Exemplos:
- Primeira edição de Pinoquio, em italiano - à venda por $80 mil (isso mesmo, 80 mil dólares!);
- 2 cartas ilustradas de L. Frank Baum (autor de O Mágico de Oz) - à venda na feira por $45 mil;
- Panfleto encontrado por um colecionador em Massachusetts num Sebo por $15 em 1988, que mais tarde descobriu-se ser uma cópia do primeiro texto de Edgar A. Poe (Tamerlane e Outros Poemas) escrito quando tinha apenas 16 anos - vendido por $198 mil;
- Primeira edição de Lolita do Vladimir Nabokov, autografada para Graham Greene - leiloada por $264 mil;
- Primeira edição de Utopia de Thomas More - vendido por $245 mil.


"O roubo de livros é mais disseminado que o roubo de obras de arte" (pag. 37)

Outras curiosidades?
- Muitos colecionadores nem lêem os livros que colecionam - "Não julge um livro por seu conteúdo"  (pag. 20);
- Al Pacino, Steve Martin, Diane Keaton são alguns dos colecionadores famosos;
- Thomas Jefferson Fitzpatrick, professor de botânica em 1930: morreu aos 83 anos - comprou tantos, mas tantos livros que seu corpo foi encontrado em um berço em sua cozinha, rodeado por 90 toneladas em livros; (pag. 195)
- Thomas Jefferson (3º presidente dos EUA) - lendário por seu amor por livros - aos 5 anos já havia lido todos os livros da biblioteca de seu pai. Em 1814, vendeu sua coleção de 6,700 livros para a Livraria do Congresso de Washington, após a mesma ter sido queimada pelo exército britânico.
- Desde 1800 há registros na história sobre roubo de livros por seus adoradores.

"Todo homem deve morrer, cedo ou tarde, mas bons livros devem ser conservados" (pag. 204 -Don Vicent, colecionador de livros, executado em Barcelona em 1836 por matar outro colecionador por ter oferecido maior aposta que a sua num leilão de livros - sua história serviu de inpiração para Bibliomania, de Gustave Flaubert)

Falemos então de Gilkey.
Gilkey chamou a atenção de Bartlett porque estava na lista dos procurados da ABAA por quase 2 anos, a estimativa é de que entre 1999 e 2003 havia roubado por volta de $100 mil em livros de negociadores nos EUA, e recentemente havia sido preso. Procurado pela autora, Gilkey decidiu ceder uma entrevista, entrevista que duraria quase 3 anos, e aos poucos Bartlett foi moldando o perfil do adorador de livros.

Gilkey não tinha o perfil de um criminoso. Os livros roubados não seguiam um certo padrão, como se fossem escolhidos aleatoriamente, os valores variavam (muitos nem eram tão valiosos), bem como gêneros e  períodos, e o mais interessante, nenhum dos livros roubados apareceu à venda na internet. Sanders estava convencido que ele roubava por amor.

Gilkey, na minha opinião, sofre de extremo egocentrismo. Quer ter o que não pode e culpa o mundo por suas privações - "se o hotel que eu paguei com um cartão de crédito roubado não devolve 'meu' dinheiro porque menti que a descarga quebrou, vou roubar todas as toalhas por vingança!". Ele rouba livros porque acredita que sua coleção o fará ser admirado por outros, que subirá de status social se tiver uma biblioteca com livros raros, não importa o preço que pague por seus erros ou se vai ser preso, não leva em consideração que em muitas das livrarias, os colecionadores levaram anos e anos juntando dinheiro e montando suas coleções - não apenas para vendê-los, mas para exposição para aqueles que não têm oportunidade de comprá-los ou possuí-los.

Todas aquelas pessoas amam livros tanto ou mais que Gilkey, a diferença entre eles está nos valores morais.

"Muitos dos amantes de livros que nos visitam, nunca tinham visto livros como esses, e as chances são de que nunca os verão novamente para o resto de suas vidas. Queremos que esses livros estejam com pessoas que os amem, que paguem por eles, que os apreciem (...) Quando ele (Gilkey) roubou aqueles livros, ele roubou de mim, dele (aponta para cliente), dela (aponta para a filha)"
(Lane Heldfond - vítima de John Gilkey - pag. 215)
O livro é interessantíssimo, cheio de dicas de boas livrarias por aqui pelo Norte e um pouco mais para o Sul da CA (endereços anotados para visitas em breve!), cheio de curiosidades, histórias de pessoas que marcaram a história devido ao seu amor e dedicação aos livros.

Quem quiser saber mais sobre história ou a autora, é só visitar o site: The man who loved books too much
Título dos livros roubados por John Gilkey: Treasure Island

Saturday, December 5, 2009

Poema de Sábado



Mais um poema do livro The immortal Poems of the English Language, por Oscar Williams.
Escolhi esse porque além de engraçado, mostra uma outra face dos poetas. Nem todos são ultra-românticos como Goethe para morrer de amor e por amor... parafraseando Vinícius "que seja eterno enquanto dure, posto que é chama".
Um ótimo sábado a todos os apaixonados por poesia que passam por esse navio!






The Constant Lover

Out upon it, I have loved
Sobretudo, eu tenho amado
Three whole days together!
por três dias completos!
And am like to love three more,
E  possivelmente amarei por mais três
If it prove fair weather.
Se o tempo estiver bom.

Time shall moult away his wings
Tempo mudará suas asas
Ere he shall discover
Antes que se descubra
In the whole wide world again
 Nesse vasto mundo novamente
Such a constant lover.
Tão constante amante.

But the spite on't is, no praise
Mas a maldade nisso é, que nenhuma exaltação
Is due at all to me:
Deve ser dada a mim:
Love with me had made no stays,
Amor em mim não fez morada,
Had it any been but she.
Se tivesse sido pois ela.

Had it been but she,
Se tivesse sido pois ela,
And that very very face,
E aquele mesmo mesmo rosto,
There had been at least ere this
Teria ali existido pelo menos antes deste
A dozen dozen in her place.
Dezenas e dezenas em seu lugar.

(Sir John Suckling - 1609/1642)