Saturday, April 14, 2012

Poema de Sábado

X. Mar Português


Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso,  ó mar!


Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa,
A mensagem, pag. 29

Saturday, March 31, 2012

Poema de Sábado

Ária para Assovio

Inelutavelmente tu
Rosa sobre o passeio
Branca! e a melancolia
Na tarde do seio.

As cássias escorrem
Seu ouro a teus pés
Conheço o soneto
Porém tu quem és?

O madrigal se escreve:
Se é do teu costume
Deixa que eu te leve.

(Sê... mínima e breve
A música do perfume
Não guarda ciúme.)

Rio, 1936

Vinicius de Moraes,
Nova Antologia Poética, pag. 14

Friday, March 23, 2012

When She Woke (Hillary Jordan)


“Quando ela acordou, ela estava vermelha. Não de vergonha, não por queimadura do sol, mas o sólido, vermelho berrante de uma placa de trânsito. Ela viu suas mãos primeiro. Ela as observou em frente aos seus olhos. (...) Ela sabia o que a esperava— já havia visto muitos Vermelhos antes, logicamente, pela rua e na vid— mas ainda assim, ela não estava preparada para ver a sua própria pele transformada.” (pag. 01)


Gente, desde que terminei de ler esse livro em Outubro venho me preparando para essa resenha. When She Woke - Quando ela Acordou - foi escolhido pela Nari do meu BookClub, que recebeu uma cópia da editora antes da publicação para review. Todas nós gostamos da história, ou da maioria dela...  um dos poucos livros que não faltou assunto para conversa.

When She Woke relata o drama de Hannah Payne, numa América futurística controlada pela religião. Guerras devastaram países, e 'O grande Flagelo' deixou metade das mulheres estéreis. Los Angeles nada mais é do que uma grande bola radioativa. Com o sistema penitenciário falido, a crise obriga enormes cortes no orçamento. E para aliviar o sistema penitenciário e esvaziar as prisões,  o governo americano cria a 'melocromia', onde aqueles que cometem crimes têm sua pele tonalizada de acordo com o crime cometido—pequenas contravenções: Amarelo; crimes sexuais: Azul; Homicidas: Vermelho.

“Pelo menos ela ainda tinha seus olhos para lembrá-la quem era: Hannah Elizabeth Payne. Filha de John e Samantha. Irmã de Rebecca. Homicida de uma criança, sem nome. Hannah se pergunta se aquela criança herdaria os olhos melancólicos do pai e sua boca suave, sua sobrancelha arqueada e grossa e a pela alva.” (pag. 7)

Hannah se apaixona e acaba tendo um romance com o Reverendo Super-Famoso, Aidan Dale. Engravida e decide fazer um aborto numa clínica clandestina. Aborto é tratado como homicídio pelo novo Código Penal americano.

Hannah cresceu numa família cristã extremista, envolve-se com o reverendo de sua igreja - casado. Aidan,  devido a um ato-falho cometido antes do casamento, contraiu uma DST, ainda sem cura na época. A doença foi transmitida a esposa, que, pelo tempo que a cura foi encontrada, já havia perdido os ovários e nunca pôde ter filhos.


“Quero saber o nome dele. O nome do homem que te desonrou e te mandou abortar teu bebê.
Hannah balançou a cabeça involuntariamente, lembrando do dos lábios de Aidan em sua pele, beijando a curva de seu braço, a curva macia de seus pés; puxando suas pernas aparte para que sua boca tomasse posse de cada parte escondida de seu corpo. Para ela, aquilo não era desonra. Para ela parecia uma forma de adoração.”
(pag. 23)


É quando Hannah deixa a prisão que se dá conta do peso de ser Vermelha, a sociedade fecha suas portas para os 'cromos'. Não há onde morar, não há emprego. Uma nova era de segregação baseada na cor da pele. Rejeitada pela mãe, sem auxílio da irmã, Hannah conta com a ajuda limitada do pai para enfrentar sua nova realidade. Até ser encontrada pelos Novembristas, uma organização secreta que advoca o direito de escolha da mulher, nesse caso, o direito ao aborto, e condena o fato desse ato ser considerado e punido como homicídio.

Hannah se vê num dilema: aceita a proposta dos Novembristas - fugir para o Canadá onde se submeterá a um procedimento médico que a livrará da monocromia - ou, fica no Texas e cumpre sua sentença pelo crime cometido. Fugir  significa abandonar a família, Aidan, sem nunca olhar para trás, esquecer Hannah Payne e recomeçar do zero. Ficar é alimentar a esperança por Aidan, é enfrentar as acusações da mãe, a repressão do cunhado, o desapontamento do pai, e viver por quinze anos sendo lembrada diariamente daquela vida que não permitiu nascer.

Hillary Jordan não nega sua inspiração em The Scarlet Letter - A Letra Escarlate - do Nathaniel Hawthorne. Hannah Payne, assim como Hester Prynne, desafia a família, suas crenças e a sociedade, e sacrifica a si mesma, para proteger a identidade do homem que ama. Aidan Dale, bem como Arthur Dimmensdale, fica dividido entre sua posição como Ministro da Fé e o amor por Hannah. Porém a semelhança termina por aí. Na minha opinião, When She Woke trás muitos tópicos para discussão, a história é forte e controversa, leva-se um pouco de tempo para entender o estado em que a sociedade se encontra e se adaptar aos novos termos usados, mas não se consegue parar de ler. No entanto, há alguns tópicos que me incomodaram.


De certo Jordan tem como intuito realmente chocar o leitor e deixar claro que a Hannah daquele momento já não era mais a mesma Hannah do início da história, e que 'aquele' fato a afastaria definitivamente de qualquer possibilidade de existir Aidan e Hannah, mas acredito que a história poderia ter existido sem 'aquele' detalhe... quem ler vai entender mais tarde. Na minha opinião, já haviam elementos discutíveis o bastante na obra e aquela situação foi desnecessária. 


Outro detalhe é que os personagens masculinos são ou fracos, covardes, ou violentos - até os membros masculinos Novembristas submetem-se às imposições femininas. Também achei que Religião é mostrada de forma tão pejorativa que por vezes soa ofensivo. Incômodos a parte, valeu a pena a experiência de Quando ela Acordou, recomendado! ...  E quando terminei, bateu uma saudade daquelas de A Letra Escarlate e lembrei que ainda não comentei sobre essa obra aqui no blog. Hora de marcar um encontro com Hawthorne!


Sunday, March 18, 2012

My Horizontal Life (Chelsea Handler)

A primeira palavra que me vem a cabeça quando penso nesse livro é: LOUCURA!
A segunda é: HILÁRIO!
A terceira: SEXO!

Não é comum ouvir mulheres sexualmente ativas falando abertamente e contando ao mundo quão ativas elas são. Chelsea Handler com toda convicção não é uma delas. My Horizontal Life - Minha Vida na Horizontal, conta algumas das aventuras sexuais da comediante e apresentadora americana começando nos tempos do Ensino Médio, e se você pensa que ela só conta as experiências boas, com os carinhas bonitões... não se engane. Chelsea não tem pudor nem vergonha, compartilha as experiências mais embaraçosas e, muitas vezes, nojentas, de seus one-night stands “uma noite apenas”, com seus queridos leitores.

Quem me sugeriu o livro foi o marido, que decidiu comprar numa de suas viagens a trabalho quando esqueceu o Ipod — entenda bem, o marido não é fã de sentar e ler um livro, ele tem uma espécie de formiguinha interna sabe? Por isso ele prefere livros em audio, pela comodidade... então, se ele comprou o livro, e chegou a terminá-lo, só poderia ser por dois motivos: 1. Era muito, mas muito engraçado; 2. Falava muito sobre sexo. Ele disse que era o número um, mas após ler o livro, tenho certeza que a resposta era o número dois! — “Ela é uma whore e alcoólatra, mas é engraçada.” disse o marido.

“Nem por um segundo eu cheguei a pensar que ele teria um pipi pequeno. ‘Pequeno’ é uma palavra generosa quando se tenta descrever uma coisa do tamanho de uma salsicha enlatada. Essa coisa era menor do que meu dedão do pé. Não era nem parecido com um pênis, parecia mais um pedaço extra de pele. Fiquei mortificada. Eu tinha que arranjar um jeito de sair dali.” (pag. 72)

Mas claro, nem só de sexo fala o livro. Chelsea também dedica alguns capítulos contando de forma sátira, como foi crescer como a caçula numa família de seis filhos, de pai judeu e mãe mormon. Os conflitos com o pai, o relacionamento com os irmãos, e amigos. Como não poderia ser diferente, a história é contada de forma extremamente coloquial e direta, com muito cinismo e comicidade, Chelsea não deixa barato e faz muita piada de si e das situações em que se mete tentando saciar seu vício por sexo.

“Ver sua mãe pelada não é uma situação fácil de se recuperar. Ver sua mãe pelada e pulando de um lado para o outro de uma cama tamanho king, usando um chapeuzinho de enfermeira enquanto seu pai, também pelado, persegue-na com um lenço enrolado no pescoço, é motivo para se implorar para ser posto para adoção.” (pag. 2)

Saturday, March 17, 2012

The Story of a Shipwrecked Sailor (Gabriel Garcia Marquez)

“28 de Fevereiro de 1955, chegou com a notícia de que oito membros da tripulação do destroyer Caldas, pertencente à Marinha Colombiana, haviam caído no mar e desaparecido durante uma tempestade em águas caribenhas. O navio viajava de Mobile, Alabama, nos Estados Unidos, onde estava ancorado para reparos, para o porto de Cartagena na Colombia, onde chegou duas horas após a tragédia. (...) Uma semana depois, no entanto, um dos tripulantes reaparece quase morto numa praia deserta no nordeste da Colombia, após sobreviver durante dez dias sem comida ou água num bote salva-vidas. Seu nome era Luis Alejandro Velasco.” (pag. vi)

Em seis horas diárias de entrevistas durante vinte dias, Marquez questionou, explorou, e testou as respostas de Velasco em busca de contradições e falsas afirmações, resultando num relato conciso e concreto de seus dez dias à deriva. Para surpresa de Marquez, no quarto dia de entrevista, quando pede que Velasco descreva a tempestade que causou o desastre, ele responde com um sorriso: “Nunca houve uma tempestade.” (pag. vii)

“Um bote salva-vidas não tem proa ou popa, é quadrado e por vezes navega de lado, imperceptivelmente vira de um lado pro outro. Como não há ponto de referência, não se sabe se está movendo para frente ou para trás. O oceano é o mesmo em todas as direções. Então eu não sabia se o bote havia mudado de curso ou apenas navegava em círculos.” (pag. 43)

Primeiro o desespero, depois a certeza de que resgate aparecerá em breve,  esperança... quando as horas passam, escurece, amanhece, vem o frio, a fome, a sede, o perigo, o desespero novamente, a espera, a dor, as lembranças, a incerteza. Com o tempo todos os sentimentos se repetem num círculo vicioso e já não se sabe se se espera pela morte ou pela vida. Desistência.

“A verdade, nunca publicada até então, era a de que o navio, abatido violentamente pelo vento em mar-aberto, havia jogado sua carga mal-assegurada e seus oito marinheiros no mar. Essa revelação significava que três ofensas seríssimas haviam sido cometidas: primeiro, é ilegal o transporte de mercadorias em um destroyer; segundo, o excesso de peso não permitiu que o navio manobrasse para resgatar os marinheiros; e terceiro, a carga era contrabando — geladeiras, televisões, e máquinas de lavar.” (pag. viii)

Relato de Um Náufrago é uma reconstrução jornalística de Marquez baseado no que lhe foi dito pelo sobrevivente do naufrágio. O que Marquez não contava é que sua investigação dos fatos causaria tumulto e perseguição política, ao ter segredos da Marinha Colombiana revelados ao público bem naquele tenso período do regime ditatorial colombiano. Talvez a verdade nunca tivesse vindo a tona se o destroyer tivesse manobrado e conseguido resgatar seus tripulantes. E Marquez jamais teria sido envolvido na história de Velasco. E como consequência, o El Espectador não teria sofrido represálias, resultando no fechamento do jornal meses depois das publicações. No entanto, mesmo com toda a pressão, ameaças, e tentativas de suborno, Luis Alejandro Velasco, nunca voltou atrás em nenhuma palavra de sua história. 

Saturday, March 10, 2012

Poema de Sábado

Hoje é outro dia

Quando abro cada manhã a janela do meu quarto
É como se abrisse o mesmo livro
Numa página nova...

Mario Quintana,
A cor do invisível, pag. 21

Saturday, March 3, 2012

Poema de Sábado

Essa lembrança que nos vem

Essa lembrança que nos vem às vezes...
folha súbida
que tomba
abrindo na memória a flor silenciosa
de mil e uma pétalas concêntricas...
Essa lembrança... mas de onde? de quem?
Essa lembrança talvez nem seja nossa, 
mas de alguém que, pensando em nós, só possa
mandar um eco do seu pensamento
nessa mensagem pelos céus perdida...
Ai! tão perdida
que nem possa saber mais de quem!

Mario Quintana
A cor do Invisível, pag. 112.

Sunday, February 5, 2012

The Five People you Meet in Heaven (Mitch Albom)

Primeiras linhas:

“Essa história é sobre um homem chamado Eddie e ela começa no fim, com Eddie morrendo sob a luz do sol. Pode parecer estranho começar a história no final. Mas todos os finais são também começos. Apenas não sabemos disso naquele exato momento.”

Eddie trabalhou como mecânico num parque de diversões durante quase toda sua vida, e ali morreu, no seu aniversário de 83 anos, tentando salvar uma garotinha quando um dos brinquedos do parque quebra e começa a despencar de metros e metros de altura. Sem saber se realmente havia salvado a criança, Eddie chega ao Paraíso e toma conhecimento de seu fim trágico...  e é quando Eddie é introduzido à primeira pessoa que ele deverá encontrar, e que lhe explicará um pouquinho do porquê de Eddie encontrar cinco pessoas antes de desfrutar do verdadeiro paraíso.

“Todos os pais causam danos em seus filhos. Não há como evitar. (...) Os danos causados pelo pai de Eddie foram, no início, danos de negligência. Quando infante, Eddie raramente foi carregado pelo pai, quando criança, ele foi na maioria das vezes puxado pelo braço, mais com irritação do que com amor. A mãe de Eddie estava ali para dar carinho; seu pai estava ali para disciplinar.” (pag. 104)

Algumas dessas pessoas afetaram de certa forma, talvez não intencionalmente, a vida de Eddie. Outras tiveram sua vida afetada, direta ou indiretamente por ele. Como no caso da primeira pessoa, o Homem Azul, que morreu num acidente de carro após  desviar de um garotinho que atravessou a rua desavisado correndo atrás de uma bola. Eddie.

Ou no caso de Ruby, a esposa do dono do parque, chamado Ruby Pier em sua homenagem. Parque em que Eddie se viu obrigado a trabalhar após voltar da guerra, substituindo o pai como mecânico. O parque foi pivô de muitas brigas entre Eddie e seu pai, e por fim, responsável pela morte do nosso protagonista também.

A história de Eddie é contada paralelamente, de forma que os capítulos de intercalam com o presente e o passado. O interessante é que cada capítulo sobre o passado começa no dia do aniversário de Eddie, começando com o aniversário de 5 anos.

“Hoje é aniversário de Eddie
Ele tem 51. Um sábado. É seu primeiro aniversário sem Marguerite. Ele faz Sanka num copo de papel, e come dois pedaços de torrada com margarina. Nos anos após o acidente de sua esposa, Eddie evitou qualquer tipo de celebração de aniversário, dizendo, 'Porque tenho que ser lembrado daquele dia?'” (pag. 183)

The five people you meet in Heaven é uma leitura curta e agradável. O que gostei é que, apesar de trazer um tema que talvez não agrade a muitos leitores, ou que é visto como religioso, Albom escreveu a história de forma imparcial, não há menção de Deus, de inferno, não há cunho religioso. O paraíso é descrito como um lugar de liberação, de se livrar dos pesos de erros cometidos durante a vida, e que você nem mesmo se deu conta que cometeu. E não é apenas sobre erros, o paraíso de Albom também serviu para Eddie entender e se livrar de suas agonias, arrependimentos, e permitir também que aquelas pessoas que causaram algum tipo de dano a ele, tivessem a chance de se desculpar, ou de contar o seu lado da história. Gostei da história pela simplicidade com que foi escrita, e pela maneira cordial em que foi contada mesmo trazendo sentimentos tão pesados de dor.

Eu havia visto o filme há alguns anos, e nem me toquei quando decidi ler a história. Ao começar a ler, achei a história bem familiar, daí lembrei ter visto o filme que traz Jon Voight como Eddie, e é bastante fiel ao livro.



“'SACRIFÍCIO', disso o capitão. 'Você fez um. Eu fiz um. Todos nós fazemos. Mas você ficou com raiva por causa do seu. Você ficou pensando o tempo todo sobre aquilo que perdeu.
Você não entende. Sacrifício é parte da vida. É o que deve ser. Pequenos sacrifícios. Grandes sacrifícios. Uma mãe trabalha para que seu filho possa ir a escola. A filha volta para casa para tomar conta do pai doente.
Um homem vai para guerra...” (pag. 93)

Saturday, January 14, 2012

Resumo de 2011


Feliz Ano Novo, bloggeiros!!!!

Finalmente consegui um tempinho para correr aqui e fazer meu primeiro post de 2012. Meu coração apertado porque não estou conseguindo dar tanta atenção ao meu querido blog ultimamente, mas vida de gente grande é assim mesmo. As vezes me cobro demais e fico chateada por não conseguir tempo para sentar e escrever um post decente sobre os livros maravilhosos que tenho lido, no entanto, leitura para mim não é obrigação, é um hobby, um ato de prazer... e penso o mesmo sobre minhas resenhas aqui do blog.

Mas vamos então ao resumo de 2011. Eis aqui os lidos - desisti de 1 - A Lucky Child (Thomas Buergenthal):

Não me arrependo e leria de novo!!! - Ficção: The Girl who Kicked the Hornet's Nest (Stieg Larsson) When She Woke (Hillary Jordan)

Não me arrependo e leria de novo!!! - Não-Ficção: I am Nujood, Age 10 and Divorced

Preferia não ter lido!: The Book Borrower (Alice Mattison)

Li mas não convenceuThe Almost Moon (Alice Sebold)

Decepção: Não teve nenhum livro que realmente me arrependi de ler, vou escolher o que desisti A Lucky Child (Thomas Buergenthal), não porque o livro é ruim mas porque escolhi a hora errada para ler. Natal é mês de sentimentos positivos, e ler sobre o Holocausto no Natal não é a melhor escolha.

O melhor do ano: essa foi uma escolha difícil, mas escolho The Angel's Game (Carlos Ruiz Zafon)
Zafón na lista pelo segundo ano consecutivo!

E que venha 2012 e todas as suas surpresas de leitura!

Sunday, December 25, 2011

Natal

Natal... Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

Fernando Pessoa
A mensagem, pag. 88

Saturday, December 10, 2011

Poema de Sábado

Love

LOVE is anterior to life,
AMOR é anterior à vida,
Posterior to death,
Posterior à morte,
Initial of creation, and
Inicial à criação, e 
The exponent of breath.
O expoente de respirar.

Emily Dickinson,  
Emily Dickinson Poems
pag 192

Monday, December 5, 2011

House of Women (Lynn Freed)


“Meu pai se aproxima e meu oferece sua mão. Ele me levanta da cadeira e me guia em direção ao seu amigo. 'Essa é a minha Theadora,' ele diz, 'minha jóia, meu diadema'.” (pag. 10)


Comprei House of Women Casa das Mulheres, em português — pelo título, que me fez lembrar de A Casa das Sete Mulheres da Letícia Wierchowski. No entanto, a história é bem diferente. Primeiro porque não há uma definição clara de tempo e espaço, sabe-se que se passa algum tempo após a Segunda Guerra Mundial, uma vez que Nalia, a mãe da protagonista Theadora (Thea) viu-se obrigada a abandonar sua carreira como cantora de ópera por causa da perseguição de Hitler, e acabou sendo enviada para um dos campos de concentração. O espaço também é indefinido, uma cidadezinha portuária talvez no Oriente Médio, Africa?


Devido ao passado traumatizante, Nalia cria Thea super-protegida, primeiro em um convento, depois em seu casarão cercada por criados, trancada a sete-chaves. Nem mesmo o ex-marido, pai de Thea, tinha  autorização para entrar na casa sem permissão. 


O que acontece na história é que o pai de Thea, meio que para se vingar de Nalia, e para que a filha se livre da super-proteção da mãe, apresenta Thea a seu amigo, o Assírio bonitão. A menina que nunca havia sido exposta as seduções de um homem, cria mil fantasias e acaba fugindo de casa, e por conselho do pai, embarca no navio com o misterioso Assírio, que só quase no fim da história, ficamos sabendo que se chama Naim. Após uma cerimônia de casamento secreta e rápida no navio, Thea é levada para a ilha de Naim pra lá das Américas.

“Mesmo sendo sua mulher, não é como esposa que o visito em sua biblioteca. É como alguém que nunca fui antes, Ma, nem mesmo em meus sonhos. Quando estou com ele lá, sou furiosa e cheia de desejos. Desamparada, subserviente, e desavergonhada. (…) O que é casamento senão uma forma de roubo? Alguém tomado, alguém deixado para trás. Mas com isso, pertenço a ele, pertencerei sempre a ele. E sei que não há retorno.” (pag. 59)

Thea livra-se do amor obsessivo da mãe para se deparar com um outro tipo de prisão. Naim a trata como uma princesa, não se pode negar, mas há outros mistérios que o envolvem, e que o faz desejar guardar Thea apenas para si. É uma história sexy. Inocente e inexperiente, Thea se deixa levar por seus caprichos de menina, ela é má e doce ao mesmo tempo, ela ama e odeia, em um momento se tranca no quarto e ignora o então marido por dias, e em seguida estão fazendo amor na banheira.

Após o parto das gêmeas, Naim permite que Thea volte e visite a mãe, que após a fuga da filha passou por momentos de profunda depressão e quase bateu as botas. No final das contas, House of Women relata a vida de Nalia, Thea e as mulheres que a cercam e acabam, por algum motivo, reclusas no casarão, compartilhando as frustrações de planos irrealizados, desapontamentos por ações impensadas, decisões tomadas por impulso, desejos, e o mais importante, segredos tão profundos que mudarão para sempre a vida de cada uma delas…

“A mulher cega enxuga seus olhos com a beira do vestido. Então ela olha para cima e diz, 'O homem que veio para minha mãe era o seu pai. Ele é meu pai também'.” (pag. 144)

Saturday, December 3, 2011

Poema de Sábado

Fosse o mundo um paraíso

Fosse o mundo um paraíso...
— paraíso de verdade! —
morrerias sem saber
o que é a felicidade...

Mario Quintana
A cor do invisível,
pag. 105

Saturday, November 26, 2011

Poema de Sábado

Hope
Esperança

HOPE is the thing with feathers
ESPERANÇA é essa coisa com penas
That perches in the soul,
Que se hospeda na alma,
And sings the tune without the words,
E canta o som sem as palavras 
And never stops at all,
E nunca nunca para,

And sweetest in the gale is heard;
E o mais doce na ventania se ouve;
And sore must be the storm
E ferida deve estar a tempestade
That could abash the little bird
Por confundir o passarinho
That kept so many warm.
Que aqueceu a tantos.

I've heard it in the chillest land,
Pude escutá-lo nas terras mais frias,
And on the strangest sea;
E nos mares mais estranhos;
Yet, never, in extremity,
Porém, nunca, no desspero,
It asked a crumb of me.
Pediu-me sequer um grão.

Emily Dickinson,  
Emily Dickinson Poems, pag. 80

Thursday, November 24, 2011

The Metamorphosis (Franz Kafka)

Quando sentei para escrever sobre The Metamorphosis - A metamorfose, em português - fiquei pensando no que escrever. O que escrever sobre um livro que já foi falado, re-falado, analisado, comentado por anos e anos. A história é conhecida por todos, resumida em trocentos blogs pela internet afora. O que falar da obra?

Essa versão que comprei contem o manuscrito da história, a cópia dos diários de Kafka, as cartas trocadas por ele e Felice Bouer, sua noiva na época, e também com alguns amigos próximos, além de análises ou interpretações da obra.

"(...) uma vez que os outros não conseguiam entender o que ele falava, não os ocorreu, nem mesmo à irmã, que ele entendia o que diziam, e assim ele teve que se satisfazer, quando sua irmã estava no quarto, a ouvir ocasionalmente, apenas seus suspiros e apelos aos santos." (pag. 19)

No final já estava saturada do texto. Honestamente, tornou-se um pouco irritante ler a análise de cada linha da história, desmembrando os parágrafos para traduzir o significado de cada palavra escrita pelo autor. A história é curta e simples, de linguagem universal, e embora eu tente entender o motivo de se querer entender o porque de Kafka escrever uma história tão metafórica e intrínseca, tantas inferências acabam distanciando a história do conceito original.

... Gregor Samsa é o filho mais velho e provedor da família, acorda certo dia para descobrir seu corpo em transformação, em poucas horas se torna um besouro. A família envergonhada o tranca em seu quarto, a irmã que até então era seu maior orgulho, trata-o com pena no início, talvez por acreditar que a transformação fosse temporária, mas não demora muito e a lástima transforma-se em aversão, desgosto. Excluído do convívio familiar, motivo de repulsa, e não mais útil para os seus, Gregor vai definhando aos poucos, até o dia que é encontrado seco pela empregada. A família se livra de Gregor, finalmente, e assim a vida continua.

"'Meus queridos pais', disse sua irmã e como introdução bateu com o punho na mesa, 'as coisas não podem continuar como estão. Talvez não percebam, mas eu percebo. Não vou pronunciar o nome do meu irmão na frente deste monstro, portanto tudo que tenho a dizer é: temos que tentar nos livrar disto. Temos feito tudo humanamente possível para tomar conta dessa coisa e suportar isto; não acredito que ninguém vá negar o que esforço que fizemos.'" (pag. 37)

O final é triste e estranho. Lendo os diário de Kafka, nem ele mesmo estava feliz com o resultado final, e tantas e tantas vezes criticou a história. No entanto, Gregor me parece ser a personificação de Kafka e suas frustrações familiares, em que ele mesmo se sentiu minúsculo diante das imposições da família que o obrigada a fazer o que desgostava. No fim, Kafka quis mesmo chocar, seu intuito era o de criar uma história "infinitamente repulsiva". E na minha opinião, ele realmente conseguiu.

Monday, November 21, 2011

The Secret Life of Bees - A Novel (Sue Monk Kidd)

Outro livro da lista da Rory Gilmore, yey! Esse foi um dos poucos livros que li após assistir o filme. O filme até que é fiel ao livro, em sua maioria, mas romantiza ou ameniza momentos cruciais da história. Não entendi o porque de escolherem a loirinha Dakota Fanning como Lily Melissa Owens, talvez para reforçar o conflito racial que acontece na história?


"Minha primeira e única memória da minha mãe é do dia que ela morreu. Tentei por muito tempo formar uma imagem dela de antes, pelo menos um pedacinho, como quando ela me levava pra cama, lia as aventuras do Tio Wiggly, ou pendurava minhas roupas perto do aquecedor nas manhãs congelantes." (pag. 5)


Passada em 1964 na Carolina do Sul, a história narra o drama familiar de Lily Owens, perseguida pela dúvida de ter ou não ter acidentalmente assassinado a mãe quando criança. Com um pai bruto e indiferente, Lily é criada pela babá negra Rosaleen.

Pausa na história para analisar o período histórico. 1960 foi um período marcado por manifestos contra a segregação racial. Apesar de não ser o centro da história, a narrativa faz referência ao apartheid americano, a violência cometida contra negros pelo KKK (Ku Klux Klan), e os movimentos contra a segregação que culminaram com a aprovação do Ato dos Direitos Civis de 1964.

Quando Rosaleen tenta exercitar seu mais novo direito adquirido de votar, é espancada e presa pelos brancos racistas da cidade. Lily Owens sabe que a vida da criada corre perigo, e buscando ela mesma livrar-se das crueldades de T. Ray, fogem da cidade em direção a Tiburon, cidadezinha da qual nada sabem, com exceção de que é a cidade estampada na foto da Madonna Negra encontrada na caixinha com os únicos pertences restantes da mãe de Lily, Deborah.

São acolhidas pelas irmãs Boatwright, August, June e May, criadoras de abelhas e adoradoras da Madonna Negra. August é a mãezona, prudente e sábia, respeitada na comunidade, é lider do grupo de adoradoras. Mesmo sendo uma mulher forte, ela mantém sua feminilidade, e lê Charlotte Bronte; June esconde um rancor pelos homens, seus sentimentos são expressos através de seu violino, a dor interna é aclamada em forma de música; May carrega os sofrimentos do mundo em seus ombros, ela ama a tudo e a todos, e não suporta as injustiças e a falta de amor do mundo. Ela é doce, é inocente, e para suportar suas dores, escreve-nas e as esconde em seu próprio "muro das lamentações".

"Pode-se dizer que nunca tive um momento verdadeiramente religioso, daqueles que você sabe que há uma voz falando diretamente com você, que te fala tão genuinamente que é como se as palavras brilhassem nas árvores ou nas nuvens. Mas eu tive um momento desses bem ali, em pé no meu próprio quartinho comum. Escutei uma voz que dizia, Lily Melissa Owens, seu pote está aberto." (pag. 41)


Com as irmãs Boatwright, Lily aprende não apenas os segredos da vida das abelhas, mas também o poder da transformação através da paciência e do amor. A cura de feridas como perda, traição e a falta de amor. A história traz personagens femininos fortíssimos, e esses mesmos personagens se juntam para curar suas feridas, cuidando uma das outras e criando um santuário com valores familiares e respeito, um verdadeiro lar. A importância de escolher o que realmente importa.


Como mencionei, a história traz personagens femininos fortes, em contrapartida, não há nenhum personagem masculino positivamente forte - o que foi motivo de crítica a obra pela platéia masculina. Além do pano de fundo de cunho político, a história tem também um forte apelo religioso, o que me incomoda um pouco em romances. Quando citei acima que o filme romantiza alguns pontos críticos da história, refiro-me especialmente ao final do filme que foi alterado. T. Ray é cruel do início ao fim, e apesar de o filme tentar transmitir uma mensagem de esperança, de que as pessoas suavizam, mudam, não é isso que acontece na versão original.

"A maioria das pessoas não têm idéia da vida complicada que acontece dentro de uma casa de abelhas. Abelhas têm uma vida secreta sobre a qual não temos a menor noção. (...) Eu amei a idéia de as abelhas terem uma vida secreta, do mesmo jeito que eu estou vivendo." (pag. 148)


Friday, November 18, 2011

Persuasion (Jane Austen)

Não sei se é impressão minha, mas quanto mais tempo eu passo sem ler Austen maior impacto suas obras causam em mim... ok, talvez impacto não seja a palavra correta, mas o que quero dizer é que quanto maior o intervalo de tempo entre a leitura de uma história de Austen e outra, melhor proveito eu tenho da mesma.

Digo isso porque li minha última obra em 2009, ano em que li dois de seus livros quase que seguidos - Sense and Senbility - Razão e Sensibilidade, Pride and Prejudice - Orgulho e Preconceito - e apesar de eu amar de paixão Pride and Prejudice, covenhamos que as histórias têm uma similaridade, acabou que não fiquei muito fã de Sense and Sensibility no final das contas.

Daí decido esse ano ler Persuasion - Persuasão em português, e que diferença fez esse tempo longe. Senti saudades, Jane! Sentimento esse que só se descobre após um período de ausência. Li a história com tamanha intensidade que até senti os arrepios, prendi a respiração e as lágrimas vieram quando Anne Elliot finalmente descobriu a verdade sobre os sentimentos do Capitão Wentworth. Lembrei quão delicioso é ler Jane Austen. Repito, senti saudades, Jane!

A história é uma montanha-russa emocional, recheada de detalhes sobre as intrigas e dramas familiares ingleses. Anne Elliot e Wentworth se conheceram, apaixonaram-se, e juraram amor eterno quando adolescentes. No entanto, a família Elliot era tradicional e rica demais para aceitar o envolvimento de Anne Elliot com o desconhecido e não-nobre Wentworth. Os dois são separados, e por anos e anos nada se ouve falar em Wentworth.

Quando ele reaparece no mapa, já com o título de Capitão Wentworth, a família Elliot está decadente devido aos gastos excessivos do Sr. Elliot. Como medida desesperada para ajudar nas despesas, e ainda manter o status nobre, Elizabeth Elliot e o Sr. Elliot decidem mudar para Bath e alugar o casarão em Kellynch. A propriedade é alugada pelos Crofts, em pouco tempo Anne toma conhecimento que a Sra. Croft é na verdade irmã do Capitão Wentworth.

O encontro é inevitável, mas para surpresa de Anne, Wentworth mudou, era como se nunca tivessem se conhecido. Dois estranhos.

Logo, no entanto, ela começou a racionalizar consigo, e tentar sentir menos. Oito anos, quase oito anos se passaram, do dia em que tudo foi desfeito. (...) O que oito anos seriam capaz de fazer?
(...) Alas! com todo seu raciocínio, ela descobriu que para os sentimentos reprimidos oito anos podem ser quase que nada. Agora, como traduzir os sentimentos dele? (pag. 51)


Entre os jantares, passeios e encontros na casa dos Hayters e Musgroves, Anne Elliot observava discretamente o comportamento de Wentworth, e o desenvolvimento da amizade entre ele e Louisa Musgrove. Louisa com seu comportamento expansivo, falava abertamente sobre a vida da família, criticando o comportamento da cunhada Mary Musgrove (irmã de Anne), e é quando ela deixa escapar que o irmão havia pedido Anne Elliot em casamento mas ela o rejeitou, e havia rejeitado outros também, de acordo com o relato.

Quando o acidente com Louisa Musgrove acontece durante a viagem do grupo a Lyme, Anne tem a convicção de que os sentimentos de Wentworth não mais pertencem a ela. O desespero, a dor em sua face pela situação de Louisa convencem até mesmo Mary e Charles de que Louisa e Wentworth muito em breve seriam oficialmente um casal. Anne assiste a tudo calada, tentando esconder ou disfarçar sua angústia e desapontamento. Todos esses anos esperando por ele, a promessa feita não foi esquecida por ela, mas pelo que tudo indica, ela foi a única que realmente levou a promessa a sério.

Já em Bath, Anne ouve sobre o noivado de Louisa Musgrove o Capitão Benwick. Para a surpresa de todos, Wentworth partiu poucas semanas após o estado de saúde da moça melhorar, deixando claro que não havia relacionamento entre os dois. Não demora muito para que Charles Musgrove e a esposa Mary, também cheguem a Bath, e ouve-se que os Crofts também estariam chegando a cidade. Sr. Elliot que ainda não os conhecia, e já ciente da posição dos Crofts na sociedade, deixa claro que apresentaria o clã Elliot aos locatários de sua propriedade.

Mais jantares e encontros, Wentworth também chega a Bath, agora não mais o desconhecido da adolescência, até mesmo o Sr. Elliot busca conhecê-lo. O que ele não contava é que Anne estava sendo cortejada pelo primo bonitão William Elliot - aquele que a olhou da cabeça aos pés em Lyme num breve encontro, quando eles nem mesmo tinham conhecimento do grau de parentesco. Deixaria Anne Elliot se envolver pelas atenções de William? Rejeitaria Anne um outro pretendente segurando-se a uma promessa que parece ter sido guardada apenas por ela?  Ha, só lendo para descobrir.

"Anne não via nada, não pensava nada sobre o brilho do lugar. Sua felicidade vinha de dentro. Seus olhos brilhavam, seu rosto brilhava; porém ela não se dava conta disso. Ela pensava apenas sobre meia-hora atrás, e ao caminhar para seus assentos, seus pensamentos relembraram passo-a-passo o que aconteceu. (...) aquela raiva, ressentimento, repulsa, não mais existiam. (...) Ele a amava." (pag. 150)

Saturday, November 12, 2011

Poema de Sábado

Da perfeição da vida

Por que prender a vida em conceitos e normal?
O Belo e o Feio... O Bom e o Mau... Dor e Prazer...
Tudo, afinal, são formas
E não degraus do Ser!

Mario Quintana, Espelho Mágico
pag. 36

Friday, November 11, 2011

O Quinze (Rachel de Queiroz)

Ler Rachel de Queiroz é lembrar da minha adolescência, é lembrar das viagens de férias para o Ceará com minha avó e minhas primas. Como muitos nascidos no Norte do Brasil, eu sou descendente de nordestinos. Meu avó paterno nasceu em Juazeiro do Norte, por isso, minhas férias da escola tinham Ceará como destino certo, eram meses e meses em Fortaleza com viagenzinhas curtas para Juazeiro.

Antônio Torres resumiu brilhantemente a história em poucas linhas: "O embate entre o homem e a natureza, no trágico destino de um povo assolado pela grande seca de 1915 que, diga-se de passagem, não foi a última. Numa prosa simples, viva, comovente, Rachel de Queiroz tece seu relato em duas linhas de força: a história de um amor irrealizado da mocinha que lê romances franceses e sonha com o moço rude entregue à faina solitária de salvar o seu gado; e a dramática marcha a pé de um retirante e sua família, sonhando chegar ao Amazonas."

A mocinha é Conceição, que "tinha vinte e dois anos e não falava em casar. As suas poucas tentativas de namoro tinham-se ido embora com os dezoito anos e o tempo de normalista; dizia alegremente que nascera solteirona" (pag. 13); e o moço rude é Vicente, seu primo. Os dois haviam tido um romance na adolescência que foi rompido quando Conceição mudou para a capital para estudar e se formar no Magistério.

"Separava-os a agressiva miséria de um ano de seca; era preciso lutar tanto, e tanto esperar para ter qualquer coisa de estável a lhe oferecer!" (pag. 49)

O interessante na história desses dois é a falta de comunicação, o supor, o achar que é isso que o outro quer dizer e não conversar abertamente para esclarecer os fatos, baseando seu julgamento em especulações pessoais sobre as ações do outro. É como se ambos tivessem, no íntimo, a certeza de que ficariam juntos, mas nenhum dos dois teve a oportunidade ou talvez a coragem de verbalizar, a espera de que o outro desse o primeiro passo, e acaba que o passo foi dado pelos inúmeros fatores externos, distanciando-os a cada encontro.

A família retirante é a de Chico Bento e sua esposa Cordulina, e os cinco filhos pequenos. "Sem legume, sem serviço, sem meios de nenhuma espécie, não havia de ficar morrendo de fome, enquanto a seca durasse." (pag. 31) Decidido a partir para a capital e de lá seguir para o Norte, Chico Bento parte com a família em sua jornada a pé pelo sertão.

Ler O Quinze trouxe esse momento nostálgico, uma nostalgia doce e amarga ao mesmo tempo. Nas visitas a Juazeiro via pela janela do ônibus a paisagem de terras secas e áridas do interior do nordeste, a seca se faz sempre presente naquelas terras, não importa o ano que se visite, e ao ler o livro me veio a memória as casas de barro, a terra rachada, as crianças de pé no chão. Quão absorto alguém se sente ao ver essas imagens quando não se compreende ou sabe as dificuldades que os habitantes da seca passam... e ninguém melhor do que Rachel de Queiroz para escrever sobre o drama de retirantes nordestinos. Livro este que é o seu primeiro romance escrito aos 20 anos, publicado em 1930.

"E a criança, com o cirro mais forte e mais rouco, ia-se acabando devagar, com a dureza e o tinido dum balão que vai espocar porque encheu demais." (pag. 60)

Tuesday, November 8, 2011

Atonement (Ian McEwan)

Sei que tenho estado bem ausente do blog ultimamente, mas vou correr contra o tempo para comentar sobre todos os livros lidos esse ano antes do final de 2011. Ai, ai, espero que dê tempo!
Atonement - Reparação, em português - está na lista da Rory Gilmore, eis o motivo de sua presença aqui… então vamos a história.

O livro é dividido em três partes, com um capítulo extra que explica e fecha a história. A primeira parte introduz o leitor a família Tallis, família aristocrática residente de uma cidadezinha no interior da Inglaterra. E nossos protagonistas, os irmãos: Briony, a caçula e nossa narradora-personagem; Cecília, e Leon, o mais velho. E a história começa com a movimentação na residência dos Tallis em celebração ao retorno de Leon.

Briony escreve o roteiro de The Trials of Arabella a ser encenada pelos primos - Jackson, Pierrot e Lola - hóspedes por tempo indeterminado dos Tallis após o divórcio dos pais. Entre os atritos entre primos, a depressão da mãe, e seus delírios pré-adolescentes, Briony testemunha uma cena intrigante. Da janela de seu quarto ela vê Cecília e Robbie no jardim próximo ao chafariz, Cecília despindo-se e mergulhando no chafariz, depois diz algo a Robbie, e visivelmente abalada caminha em direção à casa sem olhar para trás, ele fica a admirar Cecília mas logo parte. Onde outrora existiam dois corpos, resta uma poça de água que logo seca com sol.

"Os homens removeram seus chapéus e esperavam por ela, sorrindo. Cecília se perguntou, como as vezes fazia quando era apresentada a um homem pela primeira vez, se esse seria aquele com quem iria se casar, e caso seria esse momento particular que se lembraria para o resto de sua visa—com gratidão, ou profundo arrependimento." (pag. 44)

Quando Robbie lhe entrega um bilhete endereçado a Cecília, Briony não pensa duas vezes antes de ler. Ela já corria longe quando Robbie realizou que o bilhete enviado era o errado, era o que deveria ter destruído, o bilhete com seus desejos eróticos mais íntimos. Quando Briony descobre Cecília e Robbie na biblioteca, seus olhos não sabem o que vêem, se aqueles corpos ferozes buscando um ao outro cometem um ato de amor ou crueldade. Imatura, Briony acredita que Robbie molestou a irmã e busca oportunidade para desmascará-lo.

A oportunidade vem quando Pierrot e Jackson fogem de casa. Durante as buscas madrugada a dentro, Briony flagra a prima Lola sendo atacada. No escuro apenas viu uma sombra, mas teve convicção de que tal ato só poderia ter um autor. Conta a Lola o que havia testemunhado na biblioteca, e acredita que se ele teve coragem de cometer tal ato com Cecília, com certeza o faria novamente com a inocente Lola.

"Ela quis gritar, mas não conseguiu fôlego, e sua língua parecia lenta e pesada. Robbie se movia de tal maneira que sua visão da a irmã estava bloqueada. Então Cecília lutou para se soltar, e ele a deixou ir. Briony parou e chamou o nome da irmã. Quando ela passou por Briony não havia sinais em Cecília de gratitude ou alívio. Seu rosto não tinha expressão, quase composto, e ela olhou diretamente em direção a porta pela qual saiu." (pag. 116)

Logo a notícia se espalha, a polícia é chamada, Briony expõe o que ocorreu com Cecília. Ao amanhecer, Robbie retorna a casa com os irmãos foragidos nos braços, mas suas explicações e os clamores de Cecília são em vão.

Parte dois começa com a II Guerra Mundial. Após anos na prisão, Robbie encontra-se perdido em meio aos bombardeios. Cecília cortou contato com a família após a prisão de Robbie e virou enfermeira da Cruz Vermelha, o relacionamento dos dois é resumido na troca de cartas cheias de esperança de um futuro incerto.

Briony busca reconciliação com a irmã, muda para Londres e entra na escola de Enfermagem com esse intuito. Não mais a menina imatura e mimada pela mãe, Briony reconsidera seus atos, relembra o passado e o tempo em que quando criança fora apaixonada por Robbie. Agora tem a certeza de que ele é inocente. Tentando reparar seu erro, busca Cecília para esclarecer os fatos. Como enfermeira, Briony testemunha uma realidade que jamais conseguiria transcrever em suas histórias. As novas experiências lhe dão estímulo, veracidade às suas palavras... Atonement é no final das contas, a história de Cecília e Robbie escrita por Briony.

Morte, desespero, dor, medo. São tantos sentimentos opressivos vividos durante o tenso período da guerra, e eles são todos transcritos em Atonement. Do desesperado instinto de sobrevivência de Robbie e seus companheiros, aos últimos minutos da mãe com o filho no colo antes da bomba atingi-los. Do sofrimentos dos soldados feridos, a compaixão das enfermeiras. McEwan tem um talento descritivo típico dos escritores europeus, e sua representação da vida campestre da típica família inglesa, com toda sua hipocrisia, fez-me lembrar Austen e Tolstoy. A história é muito bem escrita porém muitíssimo depressiva, pesada, perturbadora. E o final, ah, quem leu por favor me diga o que achou...

"Através do bolso de seu casaco ele sentiu o amontoado de cartas. Vou esperar por você. Volta." (pag. 246)