Thursday, March 4, 2010

Tolstoy e etc...

Sei que tenho estado ausente e negligente com meu blog, nem o poema de sábado foi possível postar, tive aula de CPR, AED e First Aid das oito às seis e o cansaço foi tremendo. Também fui promovida e estou em treinamento. O terceiro e importantíssimo motivo é que estou me deliciando com a re-leitura de Anna Karenina, estou incrementando a leitura com fatos sobre a vida de Toltoy e lendo cada informaçãozinha do rodapé ou endnotes.

Eu sou uma super-fã de Tolstoy desde a primeira vez que li Anna Karenina (resumo aqui) (apesar que meu inglês ainda não era tão avançado quanto hoje) e eu havia pesquisado algumas informações sobre o autor quando primeiramente li a obra, mas como muitos já disseram e eu agora comprovo, cada vez que você re-lê um livro tem uma experiência diferente com a história, os personagens, etc. É exatamente isso que tem acontecido comigo, apesar que ainda guardo algumas das mesmas opiniões sobre alguns dos personagens, tem sido uma experiência diferente - diferente como? - hoje, com mais conhecimento de mundo e conhecimento histórico, consigo ver a obra de Tolstoy de um ponto de vista mais amplo, mais abrangente. Consigo não criticar a atitude dos personagens como outrora fiz; consigo, não simpatizar, mas compreender melhor a atitude de Anna sem detestá-la. Enfim, sim, tem sido um deleite.

O mais interessante é olhar a história quase como uma auto-biografia desse escritor que tanto me fascina. Muito de Tolstoy consta nas página desse livro, muito de sua experiência (negativa), angústia, dúvidas e testemunhos estão presentes nos personagens dessa obra.

Leo Nikolayevich Tolstoy nasceu em uma família aristocrática. Perdeu a mãe aos dois anos e o pai aos nove. A tia Alexandra, que passou a criá-lo, morre dois anos depois. Antes mesmo de chegar a adolescência, Tolstoy já tinha convicção de que a morte seria um elemento torturante e presente na sua vida. Cresceu sem conhecer como era conviver no seio de uma família completa.

A primeira fase da sua vida adulta foi marcada por libertinagem, era fanfarrão, gastava suas noites em salões de jogos e bordéis de Moscou, mas como que num passe de mágica, mudou de atitude e decidiu retirar-se da cidade, muda para o campo onde buscou melhorar a vida dos camponeses que trabalhavam na propriedade herdada dos pais. Pouco tempo depois, Guerra e Paz é publicado e Nikolai, irmão de Tolstoy, morre de tuberculose. Uma depressão profunda abate o escritor. Alguns anos depois o outro irmão de Tolstoy morre afogado.

Casou com Sophia em busca da vida familiar que sempre desejou e nunca conseguiu ter, tiveram 13 filhos mas outras ideias perturbam seu sossego... seus questionamentos sobre Deus, sobre religião, sobre a vida, sobre si - e é exatamente nesse período que começa a escrever Anna Karenina e a obra reflete em muitos capítulos tais questionamentos, através da vida de Levin, personagem que simboliza o próprio Tolstoy.

Assim como Levin, Tolstoy também era amigo de longa data da família da futura esposa, apresentado através do irmão de Sophie. Assim como Levin, Tolstoy teve paixão platônica pelas duas irmãs mais velhas de Sophie, até que finalmente casou com ela. O modo como Kitty é cortejada por Levin é uma réplica do cortejo de Leo e seus passos até o casamento. O trauma pela morte do irmão Nikolai é relembrado na hsitória no único capítulo com título - Death/Morte (Capítulo XX da Parte Cinco), através de Nikolay, irmão de Levin.

Assim como no final da história Levin tem um insight e se torna um cristão fiel, Tolstoy se converte ao cristianismo e tudo muda após sua conversão, suas obras finais são marcadas pela religiosidade extremista. Sua transformação foi tamanha que ele decidiu seguir ao pé da letra os preceitos do livro de Mateus - livrou-se dos seus bens para se dedicar aos pobres e abriu mão dos direitos autorais de suas obras. Seu ponto de vista religioso ficou tão severo que suas últimas publicações descrevem o casamento como "prostituição institucionalizada e socialmente aceitável", pregando a vida em celibato.

As experiências e reflexões de seus últimos ensaios serviram de inspiração para Mahatma Ghandi, entre outros.

Anna Karenina foi publicado em forma de folhetim, Tolstoy pretendia escrever a história em menos de um mês, mas acabou levando quatro anos para terminar, ao ponto que no final o escritor já estava "por aqui" com Anna, cuja graça, vitalidade, carinho materno e beleza aos poucos e dolorosamente iam se extinguindo no coração de Tolstoy, bem como na própria história.

3 comments:

Juliana said...

Eu tenho esse livro e nunca li, falta-me coragem!

Vou tentar agora.
Parabens pela promoção

Paula said...

Gosto muito deste romance. Mostra-nos a Rússia da altura, a cultura e os costumes através dos seus personagens que se revelam de alguma complexidade.
Ana, no seu amor sem saída, as suas dúvidas o seu desespero, Levine e as suas questões existênciais...
Gosto de como Tolstoi vai também fazendo um paralelo com a Europa.
Esta história, tem sem dúvida, duas personagens de peso. São elas Ana e Levine, para mim de igual importância para o romance.
Um abraço

Manuel Cardoso said...

Um grande livro que, vergonhosamente, ainda não li.
Ana Karenina e Guerra e PAz: dois livros que, um dia, hei-de ler. Mas é preciso alguma coragem para enfrentar esses milhares de páginas, não é?