Thursday, June 2, 2011

Something Borrowed (Emily Griffin)

Quando comecei a ler Something Borrowed - O Noivo da Minha Melhor Amiga, em português - após meses esperando ali na minha estante, não tinha a menor idéia de que o filme estava para ser lançado. Comprei Something Borrowed poucas semanas depois de ler Love the one you're with - Ame o que é seu, primeiro livro que li da Emily, e que me fez derramar boas lágrimas, e ter um momento de reflexão com o marido.


Something Borrowed começa meio lento, até cheguei a pensar que me arrependeria. Mas não desista nos primeiros capítulos porque a história acaba te conquistando. É um chick-lit, como não poderia deixar de ser, e é bom ler com uma caixinha de klinex perto porque a Emily sabe como tocar naquele cantinho que faz o nó vir na garganta e as lágrimas rolarem mesmo quando queremos controlar.


Rachel e Darcy cresceram na mesma vizinhança, foram para a mesma escola, compartilharam os mesmos sonhos e planos para uma vida adulta. Darcy porém era a garota com cara e atitude de boneca, era sempre a mais bonita, a que chamava mais atenção, a mais desejada. E Rachel e as outras amigas cresceram na sombra de Darcy, com a sobra do que Darcy não mais queria. 


Rachel consegue uma certa independência e sair da sombra da amiga quando decide estudar Direito, e muda-se para Nova Iorque em busca da carreira. Longe da amiga, Rachel conquista seu espaço, novos amigos, namorado. Conhece Dex, o lindinho e charmoso, também estudante de Direito, desafiador de professores carrascos.


Mas não demora muito para que Darcy decida também correr atrás do glamour Nova Iorquino. Recém formada em Relações Públicas, mas de QI menos elevado, arranja um trabalho de garçonete num restaurante fino, e em poucos dias seus atributos físicos a ajudam a conseguir um trabalho numa empresa de Relações Públicas, graças a um dos clientes do restaurante.


Darcy conquista espaço, Rachel volta a ser sombra, e ainda cai na bobeira de apresentar o charmoso Dex para a amiga Darcy. Como não podia ser diferente, os dois em pouco tempo começam a namorar, e em menos tempo ainda, ficam noivos. É quando seu aniversário de 30 anos chega, que Rachel se dá conta que os sonhos para este dia, pensados e construídos quando adolescente, nem sequer se assemelham a sua realidade: solteira, sem pretendentes, sem filhos, com um emprego que paga as contas mas não a realiza.


"(...) arranjaria alguém confiável para reparar nossos dois (talvez três) filhos naquele Sábado a noite, jantaríamos num elegante restaurante francês com gardanapos de pano, e chegaríamos em casa bem depois de meia-noite, tecnicamente celebrando no dia do meu aniversário. Eu havia acabado de vencer um grande caso- provando de alguma forma que meu cliente não cometeu o crime. E meu marido me faria um discurso: 'Para Rachael, minha linda esposa, a mãe dos meus filhos, e a melhor advogada de Indiana'." (pg. 2)


E é após a festa dos 30, planejada por Darcy, queridos, que Rachel e Dex acabam bebendo demais e pensando de menos. Acordam juntos na cama de Rachel, após uma longa noite de pura luxúria. A desculpa cairia no álcool, mas Dex fez questão de dizer que ele não estava tão bêbado assim... mas o que aconteceu então?! OK, fingiremos que nada aconteceu, foi um erro, esqueceremos a noite de ontem e a vida continua, certo?


Certamente uma das opções, mas Dex se aproveita da situação para revelar aos poucos que ele sempre gostou de Rachel, mas ela nunca deu chance, e ainda apresentou a melhor amiga para ele... descartando qualquer possibilidade de alguma coisa entre os dois. Dex insiste no affair, Rachel não consegue resistir, quem conseguiria quando aquele deus-grego fala tudo que se quer ouvir, e massageia o ego e cada músculo do corpo?


O romance paralelo continua, enquanto os planos do casamento se apressam. Darcy conta com Rachel - sua bridesmaid - para auxilio na preparação. Como seria possível preparar o casamento da pessoa que amo e com quem estou tendo um affair com a minha melhor amiga? Como demonstrar entusiasmo se ele deveria casar comigo e não com ela?


"(...) Ele continua.  'Você se vê como comum, ordinária. E não tem nada de comum em você, Rachel.
Não consigo olhar de volta pra ele. Meu rosto queima de vergonha.
'E eu sei que você fica vermelha quando envergonhada'. Ele sorri. 
'Não, eu não fico!' Cubro meu rosto com a mão e reviro os olhos.
'Sim, você fica. Você é adorável. E ainda assim não faço idéia que parte eu adoro mais'." (pag. 112)


Rachel sabe que essa situação não pode durar pra sempre, ainda assim ela não tem forças para pedir uma resposta, exigir uma posição. Darcy tenta arranjar para que Marcus, o melhor amigo de Dex, comece a namorar Rachel. A situação piora durante o feriado passado na casa alugada por Darcy e Dex nos Hamptons. Darcy e Dex juntos como um casal, beijos, abraços, sexo. Como conseguir engolir o fato de que o meu Dex está na cama dela? Nos braços dela? E eu tenho que ouvir as confissões de que o relacionamento estava meio morno mas que essa noite de sexo foi a melhor dos últimos tempos?


Emily tem esse jeito dela de escrever suas histórias de tal forma que você sente o que a personagem sente, pensa como ela pensa, sente o nó na garganta no momento em que Dex segura Rachel pelo braço após a discussão no bar nos Hamptons, e Rachel se vê no momento 'tudo ou nada', e finalmente consegue puxar aquela força interior para dizer que tá na hora de escolher, 'é ela ou eu!'. As lágrimas rolam enquanto Rachel decide ir para Londres, e durante o vôo ela pensa em tudo o que aconteceu. Dói, mas eu torci para que ela tivesse essa coragem.


Essa é a mágica de ler Emily Griffin, ela sabe como tocar as suas leitoras no mais íntimo, naqueles pontos em que é tão fácil se identificar com a personagem, não porque já passamos pela exata situação, mas porque os sentimentos envolvidos já foram sentidos por nós em algum momento, em algum ponto. Sentimentos de rejeição, pela perda de alguém amamos, que poderíamos ter amado, pelo término de um namoro, aquela dor após os primeiros dias, as primeiras semanas. Os sentimentos são os mesmos, o que muda são os casos.


Eu ainda não vi o filme porque sei que o marido não vai querer ver comigo, ví o trailer - que me pareceu bem bobinho! Como não seria né? É chick-lit! Mas aqui compartilho com vocês.  Contem o que acharam, vocês que viram...


Monday, May 30, 2011

The Girl who Kicked the Hornet's Nest (Stieg Larsson)

Foi um dos momentos mais fofos quando o marido chegou em casa de uma viagem a trabalho e disse: "Trouxe presente!", e da mala sai o último livro da série Millennium - The Girl who Kicked the Hornet's Nest - A rainha do Castelo de ar. Demorei tantos meses pra ler numa ansiedade sem tamanho, com um medinho porque história acaba nesse livro, e curiosa pra saber mais sobre a Lisbeth, mas ao mesmo tempo não querendo ler pra não chegar ao fim.

Larsson não decepciona em nenhum capítulo desse último livro, o que me deixou ainda mais impressionada com esse escritor fabuloso. É uma história sem hiatos, de prender o fôlego e toda a atenção do leitor do início ao fim, assim como os dois primeiros livros.

Lisbeth Salander é uma das minhas personagens femininas preferidas de todos os livros que já li, ela não é carismática mas é uma personagem que eu me pego desejando ter como amiga. Nesse terceiro livro, a Lisbeth Salander enigmática, curta e grossa, é desvendada. Sua história é exposta como que num livro aberto, cada detalhe escondido nos lugares mais escuros do seu passado é posto em pratos limpos graças a Mikael Blomkvist e seus esforços para expor aqueles que fizeram da infância de Lisbeth um pesadelo.

A história começa no mesmo ponto em que o livro 2 termina. Lisbeth e Zalachenko são levados para o mesmo hospital. Os dois ficam entre a vida e a morte, Lisbeth passa por cirurgia para remover a bala de seu cérebro e por um certo tempo há a incerteza de sequelas, teria a bala afetado grande área em seu cérebro, seria ela a mesma quando acordasse?

Com Lisbeth sob custódia no hospital e sem contato com o mundo exterior, Mikael dobra os esforços nas investigações para desmascarar aqueles por trás do caso Salander antes do julgamento. As investigações levam o caso a tal extremidade que até mesmo o Primeiro Ministro é colocado a par da situação, para vantagem de Lisbeth, e em pouco tempo, 4 investigações paralelas são formadas para desvendar esse mistério.

Para aqueles que viram a versão sueca dos filmes, sabem que a história nem se compara com os ricos detalhes do livro. Eu vi o filme antes de ler o livro, e fiquei impressionada com as mudanças feitas na história, e a superficialidade dos fatos. Até mesmo a história paralela da Erika foi mudada, o que foi uma pena porque eu a admirei bastante quando ela decidiu fazer o que ela achava certo no momento, e deixou  Millennium no momento em que Mikael tanto precisava dela. Mas ela decidiu tomar um passo que era só dela, que a realizaria como profissional, e como pessoa. Apesar de ela ter voltado para Millennium no final das contas, mas o fato de ela ter tomado a decisão de sair demonstrou uma força que poucas mulheres teriam coragem de tomar, não foi por dinheiro, não foi por ambição, foi porque ela acreditava que poderia fazer mais por aquele jornal, e contribuir para melhorar o formato investigativo dele, o que realmente ela fez, contra muitos e tantos outros.

E então... eu li o livro devagarinho, absorvendo ao máximo a história da Lisbeth, economizando a leitura para não acabar rápido porque eu sabia que sentiria saudades dessa história. Larsson é um dos poucos escritores a dar tamanho poder a voz feminina, com personagens tão decididos e encorajadores: de Miriam Wu, a Erika; da advogada Giannini, a policial Figuerola. Amei e admiro cada uma delas por terem feito The Girl who Kicked the Hornet's Nest esse livro surpreendente.

O nome dela é Lisbeth Salander. Suécia a conheceu através dos relatórios policiais, pela imprensa e manchetes de jornais. Ela tem 26 anos de idade, e nem chega aos 1,5m de altura. Ela tem sido chamada de psicopata, assassina, e Satanista lésbica. Não tem existido limites para as fantasias publicadas sobre ela. Nessa edição, Millenium vai contar a história de como oficiais do governo conspiraram contra Salander com o intuito de proteger um assassino patológico...



Saturday, May 28, 2011

Poema de Sábado

O Poema

O poema
essa estranha máscara
mais verdadeira do que a própria face...

(Mario Quintana,    
A cor do Invisível, pag. 37)

Sunday, May 1, 2011

"E então ela se percebeu confrontada dessa maneira com a convicção de que o único homem no mundo que ela acreditava ser o menos sordido, havia casado com ela, como um aventureiro vulgar, por dinheiro. Estranho confessar mas isso nunca a havia ocorrido"

(The Portrait of a Lady, O retrato de uma Senhora, pag. 530)

Wednesday, April 20, 2011

Aniversário de Augusto dos Anjos

Em 20 de abril de 1884 nascia Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos, um dos poetas mais críticos da Literatura Brasileira. Seus poemas nada convencionais, expressam a agressividade e a tensão da sua visão cientificista, encaixa-se no Parnasianismo... alguns acham que é Pré-Moderno. Cabe ao leitor decidir.


Debaixo do tamarindo


No tempo de meu Pai, sob estes galhos,
Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canseira
De inexorabilíssimos trabalhos!

Hoje, esta árvore de amplos agasalhos
Guarda, como uma caixa derradeira,
O passado da flora brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!

Quando pararem todos os relógios
De minha vida, e a voz dos necrológios
Gritar nos noticiários que eu morri,

Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria Eternidade,
A minha sombra há de ficar aqui!

Tuesday, April 19, 2011

Aniversário de Manuel Bandeira

Em 19 de abril de 1886 nascia Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho. Sempre que sinto saudade da minha terrinha, lembro de Bandeira e seu lirismo, seu apego às coisas simples da vida, seu jeito de fazer piada do que muitos considerariam vulgar.

Desencanto

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.

Saturday, April 16, 2011

Poema de Sábado

O poema de hoje é dedicado a minha querida amiga Nari e ao Chris, que casam hoje numa cerimônia tão ansiosamente esperada. Sei que derramarei muitas lágrimas, sei que daremos muitas risadas, e acima de tudo, sei que estarei extremamente feliz por poder fazer parte deste momento. Que o dia de hoje seja uma celebração para o primeiro dia do resto da vida deles. Luv ya, Nari!

Vai alta no céu a lua da primavera
Penso em ti e dentro de mim estou completo.

Corre pelos vagos campos até mim uma brisa ligeira.
Penso em ti, murmuro o teu nome; e não sou eu: sou feliz.

Amanhã virás, andarás comigo a colher flores pelos campos,
E eu andarei contigo pelos a ver-te colher flores.

Eu já te vejo amanhã a colher flores comigo pelos campos,
Pois quando vieres amanhã e andares comigo pelos campos a colher flores,

Isso será uma alegria e uma verdade para mim.

(Fernando Pessoa, 
Poemas Completos de 
Alberto Caeiro, pag 82)

Friday, April 15, 2011

Rumores sobre 4º livro da série Millennium!!

O jornal Los Angeles Times publicou no dia 28 de março, um artigo sobre a possibilidade de exigir um 4º livro da série Millenium de Stieg Larsson, que faleceu em 2004 após a entrega dos 3 manuscritos da série.


Os três livros lançados: The girl with the dragon tattoo (Os homens que não amavam as mulheres), The girl who played with fire (A menina que brincava com fogo), The girl who kicked the Hornet's nest (A rainha do Castelo de ar), viraram sucesso de vendas e rapidamente entraram na lista de best-sellers do The New York Times, e não demorou muito para que a versão cinematorgáfica sueca fosse lançada também. Mas o que os leitores, eu inclusive, mais desejavam mas pouco esperavam, era a possibilidade de haver um 4º livro!


De acordo com o artigo, a família de Larsson e a namorada no escritor declararam ter visto o manuscrito, e há rumores de que uma das partes publicará o livro. Kurdo Baksi, amigo confidente de Larsson, em reportagem para o jornal sueco Expressen, informou alguns detalhes do conteúdo do 4º livro da série. Segundo Baksi, a Larsson desenvolve o personagem de Camila, irmã de Lisbeth Salander - e foi exatamente isso que eu disse pra minha amiga Mel quando conversávamos sobre o livro, Larsson menciona Camila diversas vezes no último livro, de certeza ele teria que desenvolvê-la cedo ou tarde.


Ainda segundo o artigo, Larsson teria enviado o manuscrito por e-mail para seu irmão Joakim, que confirma ter recebido o e-mail 10 dias antes da morte do escritor.


Para nós amantes da trilogia, só nos resta torcer muito para que essa história seja verdade, e que muito em breve possamos ver o 4º livro sentadinho esperando por nós nas prateleiras das livrarias.


Para ler o artigo na íntegra, clique aqui.

Tuesday, April 12, 2011

The Almost Moon (Alice Sebold)

Primeiras linhas:
"Quando tudo é dito e feito, matar minha mãe até que não foi uma escolha difícil. Demência, e seus sintomas, tem seu modo de revelar os sentimentos mais profundos das pessoas que sofrem dessa doença. Os sentimentos da minha mãe eram podres como água suja e escura após sentar por dias e dias no prato embaixo de um jarro de flores."

Baaaam! A história já começa como que uma explosão, e foi por essa razão que Beth escolheu The Almost Moon para o BookClub de Fevereiro. Alice Sebold - autora de The Lovely Bones (Vida Interrompida) e Lucky (Sorte), sabe como chocar o leitor, suas histórias são escuras, pesadas, e para mim, opressivas.

The Almost Moon é um livro controverso, algumas de nós do clube detestou a história, outras foram sugadas pelo enredo. O tempo cronológico é curto, apenas 2 dias se passam do momento da morte da mãe a conclusão da história, e Sebold encaixa o passado de Helen nesse meio tempo, para que o leitor, talvez, possa simpatizar com a protagonista, e julgar seu ato de forma mais amena.

"Puxei ainda mais forte. As toalhas se moveram, e eu vi seus olhos. Segurei as toalhas por um bom tempo, olhando-a bem de frente, até que senti a ponta do seu nariz quebrar e vi os seus músculos aos poucos relaxando e então eu soube que ela estava morta" (pag. 14)

Quais ações justificariam o ato cometido por Helen? Seria o homicídio justificável? O que fazer quando a raiva e o ressentimento te levam ao ponto mais extremo? Não sei o que me perturbou mais na história, se foi o fato de Helen ter matado a própria mãe; a maneira que ela se porta após o crime; ou os motivos desenrolados no decorrer da história. Eu não quero expor muito da história porque apesar de eu ter minha opinião pessoal sobre o tópico escolhido, a história em si foi bem escrita, bem desenvolvida, e é por isso que causa tamanho conflito interno no leitor.

Helen foi filha única desse casal que se conheceu muito por acaso. A mãe era modelo, tinha o sonho de mudar para Nova Iorque e seguir carreira quando conheceu o pai de Helen, e acabou engravidando. Por ter tido os sonhos destruídos, e ter acabo em uma cidadezinha suburbana, a mãe de Helen busca a reclusão e aos poucos desenvolve os sintomas de depressão, e síndrome do pânico, que acabam virando demência. O pai de Helen nunca abandonou a esposa, e sacrificou muito de si por aquela mulher, mas cabia à filha tomar conta da mãe - Helen nada mais era que uma criança, o pai nunca sentou e informou a filha que o motivo pelo qual a mãe não levantava da cama por semanas, recusava qualquer contato com o mundo exterior, chorava compulsivamente,  era causado por uma doença. Quando Helen mais precisava de apoio, de amor, sua mãe era cruel e seca. A demência deixava florescer o que de mais amargo e feio havia por trás do rosto encantador.

"Eu sabia que o aquele esforço era heroico para ela. Mas alguma coisa havia acontecido naquele meio tempo em que cruzei a sala e vesti, como mais tarde repensando nomeei, minha capa de super-herói. Minha mãe, naquele exato momento, havia deixado de existir para mim" (pag. 106)

Os sintomas da doença apenas pioram com o passar dos anos, Helen cresce sem saber o que é o relacionamento entre pais e filhos, e ainda pior, sendo insultada e rejeitada pela mãe, mãe esta que ela protege e acolhe como uma criança. O pai, sobrecarregado com tantas outras obrigações, pouco tempo tinha para ela... até o dia em que decide que nem ele mesmo consegue levar adiante a situação e comete suicídio.

Quando Helen mata a mãe, ela já é uma mulher, mãe de 2 filhas, avó, divorciada, tem sua própria história. E eu cheguei a me perguntar se Helen fez o que fez por ela, pela mãe, ou pela sua própria família - de fato Helen precisava de ajuda, seu comportamento grita por socorro, conseguiria Helen apagar as cicatrizes de todos os anos amargos em que sofreu devido a doença da mãe? Após a morte do pai, Helen sem perceber passa a carregar o mesmo peso que o pai carregava. Como um sanguessuga, a mãe doente encontra um novo alvo, e torna-se um parasita na vida e nos relacionamentos de Helen. E agora com a mãe morta, teria Helen também matado aquilo que a deixava viva?


"Minha mãe não foi oficialmente declarada culpada pela morte do Billy porque, de acordo com o relatório da autopsia, os traumatismos causados pelo acidente foram de tal gravidade que ele teria falecido mesmo se ela tivesse prestado algum tipo de socorro (...) Ela poderia tê-lo abraçado, como qualquer outra pessoa faria, ou corrido para chamar a família dele, ou uma ambulância, mas nenhuma dessas ações, de acordo com a autopsia, teria salvado a vida de Billy Murdoch." (pag. 108)
Justificado ou não, Alice consegue provocar reações e reflexões profundas no leitor. Eu comecei a história já não mais querendo ler, mas não conseguindo não parar, senti calafrios, senti repulsa, já não via a hora de acabar... e o final, ah, aquele eu não esperava, cabe a mim decifrar.


Sunday, April 10, 2011

Poema de Sábado (no domingo)

O bailarino

Não sei dançar.
Minha maneira de dançar é o poema.

(Mario Quintana, A cor do Invisível, pag. 82)

Saturday, April 2, 2011

Poema de Sábado

Jardim Interior

Todos os jardins deviam ser fechados,
Com altos muros de um cinza muito pálido,
onde uma fonte
pudesse cantar
sozinha
entre os vermelhos dos cravos.
O que mata um jardim não é mesmo
alguma ausência
nem o abandono...
O que mata um jardim é esse olhar vazio
de quem por eles passa indiferente.


(Mario Quintana, A cor do Invisível, 
pag. 31)

Saturday, March 26, 2011

Poema de Sábado

Poemas Inconjuntos

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

Fernando Pessoa - Poemas 
Completos de Alberto Caeiro

Thursday, March 24, 2011

The Book Borrower (Alice Mattison)

Decidi comprar esse livro pelo óbvio motivo: o título dizia que livros estavam envolvidos!
Como eu não leio o resumo da contra-capa, não tinha a menor idéia de que se tratava a história... e para minha surpresa, Toby Ruben, a book borrower (aquela que empresta algo - nesse caso, livros), apenas menciona emprestar 3 ou 4 livros durante a história toda.

O modo como a história foi escrita é interessante. A história de Toby Ruben é contada paralelamente à história de Jessie, que por sua vez é a protagonista da história do livro que Toby está lendo... livro este que foi escrito pela irmã de Jessie, Miriam. Meio que uma biografia não-autorizada da irmã, que fora, quando jovem, acusada de causar uma rebelião que resultou na morte de sua irmã mais nova, Sarah.

Jessie cresceu no seio de uma família de imigrantes judeus. O pai fazia parte da união de trabalhadores da companhia ferroviária. Jessie cresceu freqüentando as reuniões e ouvindo seu pai discursar. Mais tarde, o pai de desvencilha da união mas não sem antes plantar a semente em Jessie, que ainda adolescente, abandona a família e passa ser integrante ativa no partido dos trabalhadores, reivindicando melhores salários, organizando greves e manifestações.

A história paralela começa com a Toby inexperiente - acabara de ser mãe pela primeira vez, tentando balancear a rotina de mãe, esposa, dona-de-casa, os livros meio que viram um recurso para fugir da sua realidade, até que Toby conhece Deborah, e o leitor acompanha o desenvolvimento daquela amizade... e é Deborah quem empresta o livro da "Garota do Bonde", o livro que conta a história de Jessie.

"E ainda assim Gussie Lipkin insisti em sua inocência no crime em que fora acusada: homicídio. Ter matado sua própria irmã" (pag. 114)

Mais que o conflito interno da Jessi (que mais tarde virou Gussie Lipkin), a história compartilha com o leitor um pouco das experiências dessas três mulheres em meio a uma sociedade em transição. E em meio a todas essas mudanças externas, a amizade de duas mulheres transcende os anos, os altos e baixos, decepções e crises.

Não vou dizer que The Book Borrower me prendeu a atenção, também nem sei o que estava esperando ao ler o livro, o que posso dizer que gostei na leitura foram os fatos históricos, perceber as transições no decorrer da história, as mudanças comportamentais dos personagens conforme as mudanças sociais, o amadurecimento emocional. Mas a história em si, não sei, deixou-me com a sensação de que alguma coisa estava faltando. Talvez porque não consegui me identificar com nenhum dos personagens ou sentir uma certa familiaridade com os fatos, não consegui sentir a história como deveria... estarei eu perdendo minha sensibilidade literária?

"Me liga, Jessie. Eu acho que mataste a Sarah. Eu te perdôo apesar de tudo. Me liga" (pag. 264)

Monday, March 21, 2011

Ape House (Sara Gruen)




"Rose a observou, como se a analisando. E até que decidiu quebrar o silêncio. "Semana passada eles infectaram um filhote de chimpanzé com leucemia colocando o veneno na mamadeira dele. Outros são sujeitos a cuidar do gramado, lidar com produtos químicos, cosméticos - vai nomeando. Alguns são viciados em drogas, outros trancados em quartos sem ventilação externa em que eles enchem com fumaça de cigarro. Um dos chimpanzés teve todos os dentes arrancados para que alguém tivesse a oportunidade de praticar diferentes técnicas de implantes dentário nele." (pag. 130)


Eu tinha certeza que esse livro da Gruen seria bom. Water for Elefants foi um dos meus livros favoritos de 2010, não apenas por ter sido uma história rica, mas porque a riqueza da história foi baseada em meses e meses de estudo de campo. O que me encanta na Sara é essa técnica toda dela de criar suas histórias/ romances com relatos históricos.

Sara Gruen não nos decepciona nessa nova empreitada em Ape House, A Casa dos Primatas em português. Fiquei ainda mais impressionada e fã dessa escritora ao saber do tanto de pesquisa e estudo envolvidos na escrita de Ape House. Sara Gruen viajou para o Canadá para estudar um pouco de Linguística, e só após tal estudo, Sara foi permitida a interagir com os primatas... e essa experiência incrível foi relatada através de John, um dos protagonistas da história.

Ape House conta a história de Isabel Duncan, que trabalha como pesquisadora e cientista do Great Ape Language Lab em Kansas. Isabel vem desenvolvendo pesquisas sobre a linguagem e o comportamento dos primatas... e esse é um dos pontos super interessantes do livro - o modo como os primatas se comunicam com os humanos através da linguagem de sinais, como eles pensam, interagem e aprendem com os humanos e trocam conhecimento... e o quanto se assemelha ao nosso modo de agir.

A pesquisa de Isabel causa curiosidade em jornais e revistas especializadas, e é aqui que John Thigpen entra na história. John e a equipe do The Philadelphia Inquirer viajam para Kansas para entrevistar Isabel e interagir com os primatas... horas após a entrevista, o laboratório é bombardeado - tudo leva a entender que foi um incidente causado por um grupo de protestantes em defesa dos animais. Isabel é hospitalizada em estado grave, e os primatas desaparecem sem deixar rastro...

"Ela havia se apaixonado por um seqüestrador, torturador, e assassino. Ela se abriu para ele, fez amor com ele, estava se preparando para dividir o resto da sua vida com ele, e até mesmo pensou em filhos. Ele havia compartilhado com ela apenas o que ele queria que ela acreditasse sobre o seu trabalho, e ingenuamente, ela acreditou." (pag. 138)

Após semanas em recuperação, Isabel finalmente deixa o hospital e tenta descobrir o que aconteceu com os primatas... e é durante essa busca por resposta que o ladro negro da história vai se desenvolvendo. O que se esconde por trás das pesquisas de laboratório, dos testes feitos em animais, e muitos outros fatores que nem chegam aos olhos do público. E o que fazer para denunciar? Para não se deixar intimidar pela poderosa indústria?

Sara Gruen denuncia em Ape House, o modo cruel com que tratamos os animais, os atos mais desumanos e vergonhosos a que esses animais são submetidos em nome da "Ciência". Ler Ape House causa aperto no coração e revolta, vergonha de pertencer a uma raça que se diz racional, mas é capaz de atos tão absurdamente primitivos.

"Muito das cenas envolvendo os primatas nesse livro são também baseadas em fatos - como o incêndio no Zoológico da Philadelphia, o gorila (Binti Jua) que salvou a vida de uma criança, os tipos de experimentos feitos em chimpanzés e as condições a que são submetidos, os tratamentos e o abandono dos chimpanzés da Força Aérea Americana - embora eu tenha tomado a liberdade de escrever de forma fictícia os nomes, datas e lugares. Muitas das piores condições já foram denunciadas, mas eles demonstram o modo com que temos tratados nossos parentes mais próximos - como "tubos de ensaio cabeludos" é como o Dr. Fouts diz."

Resta saber se assim como Water for Elefants, Ape House vai virar filme... se Hollywood terá coragem de mostrar nas telas do cinema os fatos relatados na história de Sara, batendo de frente com uma indústria que Hollywood mesmo incentiva. Virando filme ou não, Ape House conta uma história magnífica, surpreendente, daquelas que não se quer parar de ler.


Saturday, March 19, 2011

Poema de Sábado

Faz tempo que não passo por aqui, tenho sido um tanto relapsa com meu blog. Mas hoje cá estou compartilhando com vocês meu poema de sábado.

Primavera

Surgiram as pétalas do sol!
Era um novo dia que despontava!
Havia tantos pássaros nos ares
Que se confundiam nas nuvens

Lá fora, uma procissão suave,
De cores confusas, vivas
Em algazarra medonha e acesa
Rumava para a casa das flores!

Entrei nesse desfile e extasiei-me...
Estavam todos alegres, cantando
Eram rosas, violetas, jasmins, tulipas
Cravos, lírios, margaridas,
Desfilando pelos campos verdejantes,
E num coro infinito e multicolor
Despertavam em delírio, a natureza!
É que chegara doce, linda, a primavera!

(Gaitano Antonaccio, Estafa de Amor)

Saturday, February 26, 2011

Poema de Sábado

Desire
Desejo

Ah, in the past, towards rare individuals
Ah, no passado, para com poucos indivíduos
I have felt the pull of desire:
Senti aquele fogo do desejo:
Oh come, come nearer, come into touch!
Oh veja, aproxime-se, toque-me!
Come physically nearer, be flesh to my flesh-
Aconchegue-se, seja pele na minha pele-

But say little, oh say little,
Mas diga pouco, oh não fale nada,
and afterwards, leave me alone.
e depois de tudo, deixe-me sozinho.
Keep your aloneness, leave me my aloneness,
Deixe comigo sua solidão, e me deixe com a minha solidão,
I used to say this, in the past, but now no more.
Era isso o que dizia, no passado, mas agora não mais.

It has always been a failure
Isso tem sido sempre um grande fracasso
They have always insisted on love
Elas sempre acabam insistindo no amor
and on talking about it
e em falar sobre ele
and on the me-and-thee and what we meant to each other.
e no você-e-eu e o que significamos um para o outro.

So now I have no desire any more
Então não mais tenho desejo algum
Except to be left, in the last resort, alone, quite alone.
A não ser o de que me deixem, como último recurso, aqui sozinho.

(D. H. Lawrence,
do livro Erotic Works
of D. H. Lawrence, pag 557)

Sunday, February 20, 2011

A Thin Man (Dashiell Hammet)

"Alto -mais de 1,60m de altura- e um dos homens mais magros que eu já vi na vida. Ele deve ter uns 50 anos agora, e os cabelos já estavam ficando grisalhos na última vez que o vi. A primeira impressão que tive é de que ele precisava cortar o cabelo, bigode ralo, e unhas roidas." (pag. 9)

Se mistério é o seu estilo, The Thin Man - O Homem Sombra, em português - é um livro que não se pode perder. Com uma mistura de James Bond e Sherlock Holmes, Nick Charles, o nosso protagonista, não demora muito para causar no leitor uma sensação de familiriadade, como se as aventuras de Nick, relatadas aos poucos no decorrer da história, tivessem sido testemunhadas por nós leitores, em outros livros do autor - o que, infelizmente, não é o caso, uma vez que, The Thin Man é o único livro de Hammett em que Nick Charles aparece.

O livro virou seriado de TV na década de 50 e também gerou uma série de filmes em que o personagem acabou sendo desenvolvido, mas não na versão original de Hammett.

Nick Charles é um detetive "aposentado" que gasta seus dias de casado desfrutando da vida boa que a fortuna da esposa, Nora,  proporciona ao casal. Logo que chegam a Nova Iorque para passar as festas de fim de ano, Nick se vê no centro de uma trama misteriosa - Julia Wolf, a secretária / ex-amante de Clyde Wynant é encontrada morta pela a ex-mulher do próprio. O que Mimi Jorgensen fazia no apartmento de Julia? Qual motivo teriam para assina-la? Quem seria o assassino?

Nari foi quem decidiu escolher The Thin Man para o nosso BookClub de Janeiro, e essa foi a primeira obra que li do Dashiell Hammett. Hammett tem um estilo que me agrada bastante, ele é casual e coloquial sem vulgaridade, sem ser pejorativo. Nick Charles tem o charme do agente 007, causa efeito nas mulheres ao seu redor daquele mesmo modo que Bond faz, mas tem a sutileza e inteligência do Holmes. Eu não consegui descobrir quem foi o assassino, só me caiu a ficha quase no final da história!

Sem se envolver, mas já envolvidos, Nick e Nora, entre copos de whiskey, encontros e conversas, veem a história se desenrolar e tantas outras descobertas serem feitas. Tudo isso, enquanto aos poucos, o leitor fica conhecendo o Nick Charles dos velhos tempos, e o legado deixado pelo famoso detetive.
"(...)E a propósito, eu não tenho tido tempo: tenho estado muito ocupado administrando os teus bens, para ter certeza que não percas todo aquele dinheiro que me fez te pedir em casamento" (pag. 13)

Saturday, February 12, 2011

Poema de Sábado

Das Ilusões

Meu saco de ilusões, bem cheio tive-o.
Com ele ia subindo a ladeira da vida.
E, no entanto, após cada ilusão perdida...
Que extraordinária sensação de alívio!

(Mario Quintana, do livro Espelho Mágico,
 pag. 31)

Saturday, February 5, 2011

Poema de Sábado

XXIX

Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
Do que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.

Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso quando pareço não concordar comigo,
Reparem bem para mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés -
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma...

Tuesday, February 1, 2011

"Mas foi a copulação cara-a-cara dos bonobos, sexo grupal, sexo oral, e a masturbação que causou a maior estranheza, porque relembravam a sexualidade humana tão de perto. Em público, até mesmo os espectadores mais contidos se abriam em gargalhadas nervosas, ou no mais profundo silêncio e desviavam o olhar. Muito frequentemente víamos cientistas sentados em suas cadeiras ficarem vermelhos, controlando-se para manter aquela expressão de 'Não vou desviar o olhar. Não estamos chocados'".
(Ape House - A casa dos primatas, Sara Gruen, pag. 177)